Para a maioria das pessoas, a existência humana começa no momento do nascimento e termina com a morte física. No entanto, A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias ensina uma perspectiva muito mais ampla e significativa: a vida humana é eterna por natureza, existindo antes do nascimento, continuando durante a mortalidade e prosseguindo após a morte.

Todos os seres humanos existiram como filhos e filhas espirituais de um Pai Celestial amoroso muito antes de nascerem nesta Terra. Essa existência anterior, chamada de vida pré-mortal, foi uma etapa real, significativa e formativa de nossa jornada eterna.

Compreender que vivemos com Deus antes de vir para essa terra tem um impacto profundo sobre como os Santos dos Últimos Dias entendem sua identidade, o propósito da vida, o sofrimento, as escolhas morais e a esperança na vida futura. Como ensinado pelo apóstolo Paulo: “Porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face” (1 Coríntios 13:12). A doutrina da pré-mortalidade ajuda a iluminar esse espelho.

O que é a vida pré-mortal?

A doutrina da existência pré-mortal afirma que cada ser humano viveu com Deus, como Seu filho ou filha espiritual, antes de vir à Terra. Essa não é uma ideia nova na história religiosa, mas foi restaurada por meio da revelação moderna.

O profeta Jeremias registrou as seguintes palavras do Senhor, dirigidas a ele pessoalmente:

“Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conhecia, e antes que saísses da madre, eu te havia santificado.” (Jeremias 1:5)

Essa passagem, embora muitas vezes interpretada como uma referência à presciência divina, adquire um significado mais profundo à luz das escrituras restauradas: Deus conhecia Jeremias porque Jeremias havia existido na presença de Deus antes do nascimento, como espírito.

O Livro de Abraão, parte das escrituras sagradas para os Santos dos Últimos Dias, apresenta uma das descrições mais detalhadas da existência pré-mortal:

“Ora, o Senhor havia mostrado a mim, Abraão, as inteligências que foram organizadas antes do mundo ser; e entre todas essas havia muitas das nobres e grandiosas, e Deus viu que essas almas eram boas, e ficou no meio delas, e disse: Farei destas meus governantes; pois ele ficou no meio daquelas que eram espíritos.” (Abraão 3:22–23)

Nessa visão, Abraão contempla a vasta multidão de filhos espirituais de Deus, cada um com identidade, caráter e potencial próprios.

O livro de Jó acrescenta ainda uma imagem poética e poderosa desse período:

“Onde estavas tu quando lancei os fundamentos da terra? […] Quando as estrelas da manhã cantavam juntas, e todos os filhos de Deus jubilavam?” (Jó 38:4, 7)

A referência aos “filhos de Deus” que jubilavam na criação da Terra sugere que já existíamos e tínhamos consciência suficiente para nos alegrar diante das obras do Pai.

Por fim, Doutrina e Convênios 93:29 estabelece a base ontológica dessa existência:

“O homem também era no princípio com Deus. A inteligência, ou a luz da verdade, não foi criada ou feita, nem de fato pode sê-lo.”

Isso significa que nossa existência como inteligências é anterior mesmo à nossa criação como espíritos, somos seres eternos em essência.

Éramos filhos espirituais de Deus

Na vida pré-mortal, existíamos como espíritos — seres com forma, identidade e personalidade, mas sem um corpo físico. O Guia para Estudo das Escrituras da Igreja nos confirma:

“Todos os homens e mulheres viviam com Deus como Seus filhos e filhas espirituais antes de nascerem na Terra.”

Esse relacionamento com Deus não é como uma metáfora. Nós cremos que Deus é literalmente o Pai de nossos espíritos, que nós, como Seus filhos, herdamos atributos divinos e que o plano de salvação é, em sua essência, um plano para que Seus filhos possam retornar a Ele e, eventualmente, tornarem-se como Ele.

O propósito da existência pré-mortal

A vida pré-mortal não foi um estado de ociosidade, onde não se fazia nada. Nela desenvolvemos nosso caráter e identidade espiritual. Nossas escolhas, disposições e fidelidade naquele mundo moldaram quem éramos ao vir à Terra. Também recebemos ensinamentos e preparação. Sob a direção do Pai Celestial, aprendemos princípios eternos e nos preparamos para os desafios da mortalidade.

E uma das coisas que aprendemos sobre a vida pré-mortal que nos faz refletir sobre tudo o que fazemos aqui na terra é que nós escolhemos vir à Terra. A decisão de aceitar o Plano de Salvação e ganhar um corpo físico foi nossa, não fomos forçados, decidimos isso com o desejo de nos aperfeiçoarmos aqui na terra e voltarmos à presença de Deus com mais luz e conhecimento.

O Conselho nos Céus e a escolha de vir à Terra

Em algum momento da existência pré-mortal, o Pai Celestial convocou Seus filhos espirituais a um grande conselho. Nessa assembleia, Ele apresentou Seu plano, chamado de Plano de Salvação ou Plano de Felicidade, que permitiria que Seus filhos progredissem e eventualmente se tornassem como Ele.

O livro de Moisés registra o que aconteceu:

“E eu, o Senhor Deus, falei a Moisés, dizendo: Aquele Satanás a quem tu deste ordem em nome de meu Unigênito é o mesmo que existiu desde o princípio; e ele apresentou-se perante mim, dizendo: Eis-me aqui, envia-me; serei teu filho e redimirei a humanidade toda, de modo que nenhuma alma se perca; e sem dúvida eu o farei; portanto, dá-me a tua honra.” (Moisés 4:1)

Lúcifer, que era um filho espiritual, propôs um plano alternativo: salvaria todos os filhos de Deus pela coerção, eliminando o arbítrio moral. Por isso, exigia a glória e a honra do Pai.

Jesus Cristo, então conhecido como Jeová, respondeu de forma radicalmente diferente:

“Mas eis que meu Filho Amado, que foi meu Amado e meu Escolhido desde o princípio, disse-me: Pai, faça-se a tua vontade e seja tua a glória para sempre.” (Moisés 4:2)

Jesus se ofereceu para ser o Salvador, não pelo desejo de tomar a glória de Deus, mas pelo amor, honrando o Pai e preservando a liberdade de escolha de cada filho de Deus.

O arbítrio como princípio eterno

O Pai rejeitou o plano de Lúcifer e escolheu Jesus para ser o Redentor:

“E o Senhor disse: Enviarei o primeiro. E o segundo irou-se, e não guardou seu primeiro estado; e, naquele dia, muitos o seguiram.” (Abraão 3:27–28)

Lúcifer e os que o seguiram foram expulsos dos céus. Os filhos de Deus que permaneceram fiéis, e isso inclui todos os que nasceram nesta Terra, escolheram aceitar o Plano do Pai, incluindo a condição de ganhar um corpo físico, enfrentar tentações e provas, e depender da Expiação de Jesus Cristo.

Esse ato de escolha na pré-mortalidade é a razão pela qual cada pessoa que nasce na Terra merece respeito profundo: todos, em algum nível, optaram por vir e escolheram estar do lado de Cristo.

O que é a vida mortal?

A vida mortal começa com o nascimento e termina com a morte física. Uma de suas características mais fundamentais é que, pela primeira vez, o espírito eterno une-se a um corpo físico, de carne e osso.

Gênesis 1:26 descreve esse momento no contexto da criação:

“E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se move sobre a terra.”

Para os Santos dos Últimos Dias, o corpo físico não é uma prisão ou um obstáculo espiritual, é um dom sagrado e essencial, um tabernáculo para o nosso espírito. O próprio Deus Pai tem um corpo glorificado de carne e osso (Doutrina e Convênios 130:22), que não é fraco, suscetível a doenças e desejos carnais, como o que o homem recebe ao vir à Terra, e essa é uma das metas do Plano de Salvação que Seus filhos também o tenham.

Um tempo de aprendizado, provação e crescimento

A mortalidade é deliberadamente um ambiente de provação. Não porque Deus queira que soframos, mas porque o crescimento genuíno requer experiência real, escolha genuína e superação de obstáculos reais.

Leí, profeta do Livro de Mórmon, expressou de forma memorável o propósito da vida mortal:

“Adão caiu para que os homens existissem; e os homens existem para que possam ter alegria.” (2 Néfi 2:25)

A queda de Adão e Eva não foi um acidente nem uma tragédia irrecuperável, foi uma parte necessária do plano que permitiu que a mortalidade existisse com suas condições de aprendizado. Amulek, no Livro de Mórmon, acrescenta:

“Pois eis que esta vida é o tempo para os homens prepararem-se para o encontro com Deus; sim, eis que o dia desta vida é o dia para os homens executarem os seus labores.” (Alma 34:32)

A separação da presença de Deus e a necessidade da fé

Na vida pré-mortal, os filhos espirituais de Deus viviam em Sua presença e tinham conhecimento direto de Sua realidade. Na mortalidade, isso muda. Um “véu do esquecimento” cobre nossa memória, e a presença de Deus não é mais visível.

Doutrina e Convênios 29:43 explica:

“E assim eu, o Senhor Deus, determinei para o homem os dias de sua provação — para que por sua morte natural ele fosse levantado em imortalidade para a vida eterna, sim, todos os que cressem;”

Essa separação do nosso Pai Celestial não é uma punição. É a condição necessária para que a fé seja possível. Se víssemos Deus diretamente, não haveria espaço para a fé — e a fé, segundo o apóstolo Paulo, é “é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se veem.” (Hebreus 11:1). A fé exercida durante a mortalidade, em meio à incerteza, tem um valor espiritual que não poderia ser obtido de outra forma.

Por não termos mais o mesmo contato com Deus, o nosso arbítrio é exercido em sua totalidade, como filhos que foram ensinados, mas que agora precisam demonstrar por sua própria vontade e escolha que amam o Pai e desejam voltar a Sua presença.

Principais diferenças entre a Vida Pré-Mortal e a Vida Mortal

A tabela comparativa abaixo resume as distinções fundamentais entre as duas etapas da existência:

AspectoVida Pré-MortalVida Mortal
Natureza do serEspírito sem corpo físicoEspírito unido a um corpo físico
Presença de DeusVivíamos na presença de DeusSeparados da presença visível de Deus
ConhecimentoConhecimento mais pleno de Deus e do planoVéu do esquecimento; caminhada pela fé
PecadoSem exposição ao pecado físicoSujeitos ao pecado, à tentação e à queda
PropósitoPreparação, escolha e desenvolvimento espiritualProva, aprendizado, crescimento e redenção
MemóriaMemória da existência com DeusMemória velada da pré-mortalidade
ExpiaçãoNecessidade prevista, mas não ainda aplicadaExpiação de Cristo torna-se acessível
ProgressoProgresso limitado pela ausência de corpoProgresso acelerado pela experiência mortal
DuraçãoPeríodo longo, antes da criação da TerraPeríodo breve, décadas de vida terrena

O presidente Oaks ensinou:

“O evangelho nos ensina que somos filhos espirituais de pais celestes. Antes do nascimento mortal tivemos uma “personalidade espiritual, pré-existente, como filhos e filhas do Pai Eterno” (declaração da Primeira Presidência, Improvement Era, março de 1912, p. 417; vide também Jer. 1:5). Fomos colocados nesta terra para progredirmos rumo ao nosso destino, que é a vida eterna. Essas verdades nos dão uma perspectiva sem igual e valores para guiar nossas decisões, que diferem daqueles seguidos pelos que duvidam da existência de Deus e acreditam na vida como resultado de processos aleatórios.”

expiação de Jesus Cristo
Arte: Kim Yongsung

A Expiação como centro do plano

A doutrina revelada em Doutrina e Convênios 138 apresenta uma visão vasta da Expiação, não apenas como algo que ocorre durante a vida de Cristo na Terra, mas como um princípio que alcança até os mortos que não tiveram oportunidade de receber o evangelho em vida. O presidente Joseph F. Smith recebeu a visão de que Cristo, após Sua morte, visitou o mundo dos espíritos e organizou o trabalho missionário entre os que haviam morrido sem o conhecimento do evangelho (D&C 138:29–34).

Isso demonstra que a mortalidade é o estágio central do plano, é ali que a Expiação de Cristo se torna acessível, que o arrependimento é possível e que as ordenanças salvadoras são realizadas.

O que os profetas modernos ensinaram

Dallin H. Oaks

O presidente Dallin H. Oaks, profeta e presidente da Igreja, ensinou sobre o propósito duplo da mortalidade em “O Grande Plano de Felicidade” (Conferência Geral, outubro de 1993):

“A vida mortal é uma fase de transição entre a pré-mortalidade e a pós-mortalidade. Nenhuma dessas fases pode ser compreendida adequadamente sem compreender as outras duas.”

O presidente Oaks tem também ensinado que a doutrina da existência pré-mortal responde a muitas das perguntas mais difíceis da vida, como por que nascemos em circunstâncias tão diferentes umas das outras, ou por que sofremos provações que parecem injustas.

Russell M. Nelson

O presidente Russell M. Nelson, profeta e presidente da Igreja, ensinou com consistência que compreender nossa identidade pré-mortal transforma a forma como vivemos a mortalidade.

“Com tudo o que está fazendo agora, nunca se esqueça de quem você é. Você é um filho ou uma filha de Deus com potencial ilimitado e divino. Seu espírito veio à Terra em um corpo físico. Juntos, seu espírito e seu corpo são uma alma vivente, capaz de desfrutar da mortalidade de maneiras que não seriam possíveis de outra forma (ver Doutrina e Convênios 88:15). Sua tarefa é permitir que sua verdadeira identidade como filho de Deus molde as decisões que você tomar agora e para a eternidade.”

Jeffrey R. Holland

O élder Jeffrey R. Holland, do Quórum dos Doze Apóstolos, descreveu com linguagem vívida a grandiosidade do que estamos vivendo na mortalidade:

“Com profetas antigos e modernos, testifico que “todas as coisas foram feitas segundo a sabedoria daquele que tudo conhece”. Assim, desde o momento que nossos primeiros pais saíram do Jardim do Éden, o Deus e Pai de toda a humanidade, já antecipando a decisão de Adão e Eva, enviou anjos do céu para declarar a eles — e também ao longo dos tempos para nós — que toda essa sequência de acontecimentos foi delineada para nossa felicidade eterna. Fazia parte de Seu plano divino que haveria um Salvador, sim, o próprio Filho de Deus, um outro “Adão” como o Apóstolo Paulo O chamaria, que viria no meridiano dos tempos para expiar pela primeira transgressão de Adão. A Expiação alcançaria plena vitória sobre a morte física, garantiria ressurreição incondicional a todo o ser humano que já viveu sobre a terra e ainda para aqueles que viverão. Em infinita misericórdia, a Expiação também proporcionaria perdão para os pecados pessoais, desde a época de Adão até o final dos tempos, condicionado ao arrependimento e à obediência aos mandamentos divinos.”

O élder Holland sempre falou com profunda emoção sobre a Expiação de Cristo como o coração do plano, o meio pelo qual a misericórdia derrota o desespero e a esperança supera o sofrimento mortal.

Boyd K. Packer

O presidente Boyd K. Packer (1924–2015), que por muitos anos presidiu o Quórum dos Doze Apóstolos, foi um dos mais eloquentes professores da doutrina pré-mortal, em “O Mistério da Vida” (A Liahona, janeiro de 1984, p. 26):

“Não há como compreender a vida sem o conhecimento da doutrina da vida pré-mortal. (…) Quando entendemos a doutrina da vida pré-mortal, então as coisas se encaixam e fazem sentido”.

Deuses e Deusas

Duas etapas de um mesmo plano amoroso

A vida pré-mortal e a vida mortal não são experiências separadas e desconexas — são dois atos de uma única e grandiosa história de amor entre Deus e Seus filhos.

A vida pré-mortal foi o tempo de preparação: aprendemos, crescemos, escolhemos e nos tornamos quem éramos ao vir à Terra. Lá, em plena presença do Pai, ouvimos Seu plano e concordamos em receber um corpo, enfrentar um véu, suportar tentações e confiar na Expiação de Jesus Cristo.

A vida mortal é o tempo de prova e de crescimento acelerado: aqui, longe da presença visível de Deus, desenvolvemos fé, exercitamos o arbítrio, cometemos erros e aprendemos a depender do Salvador. Aqui, o amor que sentíamos pelo Pai na pré-mortalidade é posto à prova e provado como genuíno.

Ambas as etapas existem porque Deus deseja que Seus filhos cresçam e se tornem como Ele, não porque Ele precise de companhia, mas porque Ele é um Pai perfeitamente amoroso que quer o melhor para cada um de nós.

E no centro de todo esse plano está Jesus Cristo. Sem Sua Expiação, a vida mortal seria uma armadilha sem saída, cheia de pecado e erros, sem meio de retornar. Com Sua Expiação, a mortalidade se torna exatamente o que o Pai pretendia que fosse: uma escola onde aprendemos a amar, a escolher o bem, a ser purificados e, eventualmente, a ser dignos de retornar à presença dAquele que nos criou.

Como declarou o élder Jeffrey R. Holland:

Testifico que estamos no processo de renascimento e refinamento, de nos tornarmos “santos pela Expiação de Cristo, o Senhor”. E seremos reduzidos à fé e à humildade de uma criança no decorrer dessa experiência.

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