Existe uma palavra nas escrituras que, à primeira vista, pode soar estranha: “peculiar”.

O que significa, afinal, ser “peculiar” para Deus?

A forma como entendemos nossa própria identidade é algo muito importante para caminharmos em direção aos propósitos de Deus. Porque, em Êxodo 19, Deus não está apenas descrevendo um povo antigo. Ele está revelando quem pertence a Ele.

E talvez, por trás dessa palavra que parece desconfortável, esteja uma das declarações mais profundas já feitas sobre o valor de uma pessoa diante de Deus.

Para alguns ao se questionarem sobre sua identidade, a resposta vem de um sobrenome de família, de uma profissão, de uma bandeira ou de um time de futebol. Para outros, ela nunca chega, e essa ausência dói de um jeito silencioso e profundo.

Mas há uma resposta muito mais antiga do que qualquer identidade que o mundo possa oferecer. Ela está gravada numa montanha chamada Sinai, num diálogo entre Deus e um povo que havia acabado de sair da escravidão, e ela começa com uma promessa que ainda ecoa para quem tem ouvidos para ouvir.

O momento em que tudo mudou: o Monte Sinai e a proposta de Deus

Para entender o peso de Êxodo 19:3–6, é preciso visualizar o cenário. Os israelitas haviam deixado o Egito há apenas três meses. Carregavam nas costas quatrocentos anos de servidão, um trauma coletivo que não se apaga numa geração. Eram um povo sem terra, sem constituição, sem identidade política definida. E foi exatamente nesse momento de fragilidade que Deus convocou Moisés ao topo do monte e falou.

“Assim direis à casa de Jacó, e anunciareis aos filhos de Israel: Vós tendes visto o que fiz aos egípcios, e como vos tomei sobre asas de águias, e vos trouxe a mim.” (Êxodo 19:3–4).

Antes de qualquer exigência, antes de qualquer lei, vem o reconhecimento do que Deus já havia feito. Ele não começa com mandamentos, começa com memória. Começa dizendo: olhem para trás e vejam o quanto eu já me movi por vocês.

E então vem a proposta: “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz, e guardardes o meu convênio, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha.” (Êxodo 19:5).

O convênio, esse acordo sagrado, essa aliança mútua entre o Criador e Sua criação, é a estrutura que transforma um grupo de ex-escravos numa nação santa. E no centro desse convênio está uma expressão que, à primeira vista, pode parecer estranha: propriedade peculiar.

O que “peculiar” realmente significa

Aqui mora um dos maiores mal-entendidos da leitura bíblica em língua portuguesa, e também em inglês. Quando lemos “povo peculiar”, o instinto moderno é imaginar algo excêntrico, fora do lugar, diferente de um jeito constrangedor. Mas esse não é o sentido original da palavra.

O termo hebraico que aparece nesse versículo é segullah. E segullah não tem nada a ver com estranheza ou excentricidade. Significa propriedade valiosa, tesouro pessoal, aquilo que se guarda com cuidado porque tem valor inestimável.

No mundo antigo, um rei poderia possuir vastos territórios, exércitos e palácios, mas seu segullah era o tesouro pessoal, aquele guardado sob sua custódia direta, o que não se delegava a ninguém. Era o mais precioso do que era seu.

Deus estava dizendo aos israelitas: entre todas as nações da terra, e toda a terra me pertence, vocês são o meu tesouro pessoal. Não porque sejam numerosos ou poderosos. Não porque mereçam mais do que outros. Mas porque Eu escolhi, Eu convoquei, Eu me comprometi com vocês por amor.

O versículo seguinte expande essa imagem: “e vós me sereis um reino de sacerdotes e uma nação santa.” (Êxodo 19:6). Sacerdotes, no contexto bíblico, são mediadores, pessoas que ficam entre o divino e o humano, que carregam a presença de Deus para o mundo e levam o mundo de volta a Deus. Ser um reino de sacerdotes não era um privilégio de status; era uma vocação de serviço. Era ser canal, não obstáculo.

As vozes que confundem a identidade

Dois milênios e meio depois daquele momento no Sinai, o problema central continua o mesmo: o mundo é muito eficiente em dizer às pessoas quem elas são, e muito pouco generoso nessa definição.

O presidente Russell M. Nelson chamou atenção para algo que todo observador honesto da sociedade contemporânea pode reconhecer: vivemos num tempo em que rótulos e classificações dividem as pessoas com uma agressividade crescente.

Cor, origem, classe social, posição política, há sempre uma etiqueta nova sendo colada nas costas de alguém para definir onde ele pertence ou, mais frequentemente, onde não pertence.

O problema com esses rótulos não é apenas que eles separam. É que eles diminuem. Eles reduzem uma pessoa, um filho ou filha de Deus com potencial eterno a uma categoria, a uma estatística, a um lado de uma disputa. E quando a identidade de alguém é construída apenas por esses rótulos, fica difícil ouvir a voz mais antiga e mais verdadeira: aquela que chama pelo nome e diz você é meu tesouro.

O presidente Nelson ensinou que Deus usa nomes que unem, não que dividem. Nomes que elevam em vez de etiquetar. E o mais importante desses nomes, o que engloba todos os outros, é o nome de Jesus Cristo, que recebemos nas águas do batismo e renovamos cada semana na santa ceia.

O batismo e a nova identidade do convênio

Quando alguém entra nas águas do batismo, algo muito mais profundo do que um ritual acontece. Há uma mudança de identidade. A pessoa nasce de novo, e ao nascer de novo, recebe um novo nome, um novo pertencimento, uma nova família. Passa a ser filho ou filha do convênio, herdeiro das promessas feitas a Abraão, Isaque e Jacó, co-participante de uma aliança que atravessa milênios.

Essa é a continuidade viva de Êxodo 19. O convênio do Sinai não foi abolido, foi expandido, aprofundado, tornado universal em Cristo. O que antes era oferecido a uma nação específica agora é estendido a todo aquele que ouvir a voz de Deus e quiser entrar no convênio.

O apóstolo Paulo escreveu para os gálatas com uma clareza que ainda hoje surpreende: “Não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” (Gálatas 3:28).

Em Cristo, todas as divisões que o mundo considerava absolutas: étnicas, sociais, de gênero, são relativizadas por algo maior: a identidade compartilhada de filhos e filhas do mesmo Pai celestial, unidos pelo mesmo convênio, protegidos pelo mesmo amor. Isso não apaga as diferenças. Mas impede que elas se tornem muros.

O presidente Nelson vai na mesma direção quando fala sobre o povo do convênio nos dias atuais: somos chamados a ser um, não uniformes. A unidade que o evangelho propõe não é a uniformidade forçada de quem apaga diferenças, é a harmonia de quem, apesar das diferenças, compartilha o mesmo centro.

Uma mulher em uma mesa de jantar observando uma pintura de Jesus Cristo.
Imagem: Mais Fé

Ser tesouro de Deus hoje: uma vocação, não apenas um título

Então o que significa, praticamente, ser o segullah de Deus no século XXI? Significa que a identidade mais fundamental de uma pessoa não é construída pelo que o mundo diz sobre ela, mas pelo que Deus já declarou. E essa declaração não está sujeita à votação, à aprovação social ou a conjunturas históricas.

Significa também que esse pertencimento tem peso moral. Ser tesouro de Deus não é apenas um privilégio passivo, é uma responsabilidade ativa. O texto de Êxodo liga a identidade à obediência: se diligentemente ouvirdes a minha voz, e guardardes o meu convênio. O convênio não é um diploma emoldurado na parede. É um modo de viver, uma orientação constante do coração em direção a Deus.

O presidente Nelson lembra que quando sabemos quem somos e o que Deus espera de nós, ficamos espiritualmente protegidos. Não imunes à dor ou à adversidade, mas ancorados. As tempestades podem chegar, e chegarão, mas uma pessoa que sabe que é tesouro de Deus tem um ponto fixo ao qual sempre pode retornar.

Há um episódio poderoso no Livro de Mórmon (4 Néfi 1:17) que ilustra isso com uma beleza inesperada. Num período de paz e justiça entre os nefitas, o texto registra que não havia entre eles lamanitas nem qualquer espécie de divisões tribais, “eram um, os filhos de Cristo.” Essa é a visão. Não a eliminação das histórias individuais, mas a absorção de todas elas numa identidade maior: filhos de Cristo, herdeiros do convênio, tesouro de Deus.

Uma pergunta para carregar

Existe um momento, em certas manhãs, em que o espelho devolve mais do que um reflexo. Devolve uma pergunta. Quem sou eu hoje? O que me define?

A resposta que Êxodo 19 oferece, e que o presidente Nelson redescobre para os nossos dias, é ao mesmo tempo simples e vertiginosa: você é o tesouro de Deus. Não porque seja perfeito. Não porque nunca tenha errado ou duvidado. Mas porque há um convênio em vigor, feito com amor, sustentado pela fidelidade de um Deus que carrega Seu povo sobre asas de águias e o traz para perto de Si.

Guardar esse convênio é, em última análise, guardar essa identidade. É recusar os rótulos que diminuem e os apelidos que separam. É lembrar, especialmente quando o mundo faz barulho demais, que há um nome mais verdadeiro do que qualquer outro que já te deram.

Esse nome foi pronunciado antes mesmo de você existir, por um Pai que já sabia exatamente quem você seria. Você é Seu segullah. Seu tesouro pessoal. Ao se olhar no espelho, reconheça a sua Identidade Divina!

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