No início de Gênesis 24, vemos Abraão já avançado em idade e preocupado com o fato de seu filho Isaque não se casar com uma mulher cananeia. É importante lembrar que Abraão vivia como estrangeiro naquela terra, cercado por influências pagãs. Ele passou a vida inteira sendo um exemplo de retidão e fé, buscando maneiras de conviver de forma justa com vizinhos que não compartilhavam de sua crença.

Por causa do convênio que Deus havia feito com ele, era essencial que Isaque se casasse dentro desse convênio e levantasse uma posteridade fiel a essa promessa. Ao saber que seu irmão tinha descendentes dignos, Abraão decidiu (ou foi inspirado a) enviar seu servo Eliézer (“meu Deus é auxílio”) à casa de seu irmão para encontrar uma esposa para Isaque.

“E disse Abraão ao seu servo, o mais velho da casa, que tinha governo sobre tudo o que possuía: Põe agora a tua mão debaixo da minha coxa, Para que eu te faça jurar pelo Senhor, Deus dos céus e Deus da terra, que não tomarás para meu filho mulher das filhas dos cananeus, no meio dos quais eu habito, Mas que irás à minha terra e à minha parentela, e dali tomarás mulher para meu filho Isaque.”

Na Bíblia, quando dois homens se sentavam frente a frente e um colocava a mão debaixo da coxa do outro, tratava-se de um juramento solene, típico da cultura patriarcal. Esse gesto simbolizava um compromisso feito em nome da própria descendência, honrando promessas relacionadas à “semente prometida”, ou seja, ao futuro, e também indicava submissão à autoridade do patriarca.

Alguns aspectos importantes desse gesto de convênio incluem:

  • Símbolo de descendência e fidelidade: A palavra “coxa” (do hebraico yarekh) é entendida como um eufemismo para os órgãos reprodutivos. Assim, o juramento era feito tendo como base a própria posteridade e a linhagem prometida.
  • Sinal de autoridade e submissão: Um subordinado ou membro da família (como Eliézer, ou depois José em Gênesis 47) ao colocar a mão sob a coxa do patriarca demonstrava submissão à sua autoridade e compromisso em cumprir sua vontade.
  • Juramento de convênio: Esse gesto era reservado para juramentos de grande importância, como garantir que Isaque não se casasse com uma cananeia (Gênesis 24) ou assegurar que Jacó fosse sepultado em Canaã (Gênesis 47).

Era um compromisso enorme, que ultrapassava aquela geração e reforçava a importância da fidelidade familiar, divina e pactual.

Eliézer então pergunta o que deveria fazer caso a mulher escolhida não aceitasse acompanhá-lo. Deveria levar Isaque de volta a Ur? “De maneira nenhuma!”, responde Abraão. Se isso acontecesse, o propósito do convênio seria comprometido. Isaque precisava permanecer na terra prometida à descendência de Abraão.

Histórias de Rebeca e Jacó

Eliézer encontra Rebeca

Eliézer parte levando presentes e riquezas em vários camelos. Ao chegar ao destino, não sabe exatamente como agir. Então ora ao Senhor pedindo um sinal: que a jovem escolhida para ser esposa de Isaque se revelasse ao oferecer água não apenas a ele, mas também aos seus camelos, depois que ele pedisse água para si.

Muitos Santos dos Últimos Dias cresceram vendo pinturas de mulheres antigas junto a poços antigos. Essas imagens tocam nosso coração, mas nem sempre transmitem a realidade completa.

Em Gênesis 24:15–16 lemos:

“E sucedeu que, antes que ele acabasse de falar, eis que Rebeca, que havia nascido a Betuel, filho de Milca, mulher de Naor, irmão de Abraão, saía com o seu cântaro sobre o seu ombro.
E a donzela era muito formosa à vista, virgem, a quem homem não havia conhecido; e desceu à fonte, e encheu o seu cântaro, e subiu.”

Em versículos posteriores é mencionado um bebedouro. Dar água a Eliézer já seria um gesto de bondade; mas oferecer água também para todo o seu grupo de camelos era algo extremamente trabalhoso. Um único camelo pode beber dezenas de litros de água. Isso revela muito sobre Rebeca, sobrinha-neta de Abraão: ela não era apenas uma jovem de fé, mas também alguém com força física, disposição e energia extraordinárias.

A luta de Jacó com o anjo

O povo judeu possui diversas leis alimentares que determinam o que é ou não kosher. No caso da carne bovina e ovina, muitos judeus consomem apenas a parte dianteira do animal. A razão está ligada à necessidade de remover o nervo ciático, conhecido em hebraico como gid ha-nasheh, pois seu consumo é proibido pelas Escrituras.

Essa prática tem origem em Gênesis 32, quando o quadril de Jacó foi ferido durante sua luta com um anjo. O costume, chamado nikkur, é visto como mandamento divino e também como memorial daquele acontecimento. Como o processo é trabalhoso e encarece a carne, muitas vezes opta-se simplesmente por não consumir a parte traseira do animal.

Não sabemos exatamente como Jacó foi ferido. Uma possibilidade levantada por alguns estudiosos é que ele tenha exigido do anjo um juramento semelhante ao que Abraão fez com Eliézer e ao que ele próprio fez com José, o gesto da mão sob a coxa que selava um convênio para as gerações futuras. Talvez o toque do anjo tenha atingido a região do ligamento inguinal, que desce pela parte interna da coxa, deixando Jacó manco pelo resto da vida.

Há, naturalmente, elementos de especulação nessa interpretação, mas ela se baseia em tradições históricas, culturais e legais do judaísmo. Como todas as coisas estão presentes diante de Deus, talvez um dia possamos ver com clareza como esses acontecimentos realmente se desenrolaram.

Fonte: Add Faith

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