As regras sobre o selamento no templo continuam gerando dúvidas sinceras entre membros fiéis da Igreja. Embora muitas orientações estejam hoje claramente descritas no Manual Geral, ainda existem perguntas legítimas sobre como esses relacionamentos serão organizados no Reino Celestial.

Essa inquietação não nasce da rebeldia ou da rejeição da doutrina, mas do amor pelos convênios e do desejo genuíno de compreender melhor algo que toca diretamente o coração, especialmente o das mulheres.

Os próprios líderes da Igreja reconhecem que nem tudo foi plenamente revelado. O presidente Dallin H. Oaks já ensinou, de forma clara e humilde, que sabemos o suficiente para sermos fiéis, mas não todos os detalhes sobre como os relacionamentos eternos funcionarão. Isso inclui, sim, temas sensíveis como os selamentos múltiplos, o casamento plural praticado no passado e como a justiça e a misericórdia do Senhor atuarão plenamente na eternidade.

Essa honestidade vinda de um profeta é importante. Ela nos lembra que a fé restaurada não é uma fé de respostas completas e imediatas, mas de confiança contínua em um Deus que revela Sua vontade “linha sobre linha, preceito sobre preceito”.

O que o Manual Geral da Igreja ensina hoje sobre selamentos no templo

Durante alguns anos da história da Igreja, a poligamia foi praticada por mandamento divino. O fato de, ainda hoje, os homens poderem se selar a mais de uma mulher após ficarem viúvos faz surgir a dúvida natural: haverá casamento plural no Reino Celestial? Para muitos membros, especialmente mulheres, essa possibilidade é fonte de medo, insegurança e sofrimento emocional.

Contudo, quando falamos de pessoas vivas, a regra atual é:

Um homem viúvo pode ser selado a uma nova esposa sem a necessidade de cancelar o selamento anterior. Já uma mulher viúva precisa solicitar o cancelamento do selamento anterior para que possa ser selada a um novo marido.

No caso de mulheres falecidas, o Manual Geral ensina que aquelas que não foram seladas em vida e que se casaram mais de uma vez podem receber, vicariamente, o selamento no templo a todos os maridos com quem tiveram um casamento legítimo, desde que respeitados os critérios estabelecidos, que se encontram no manual.

Selamento e exaltação

Essa orientação é relativamente recente. Trata-se de uma atualização feita em 2021, o que é surpreendente quando pensamos que o casamento eterno foi instituído há tanto tempo.

Ao mesmo tempo, essa mudança traz certo alívio: ela mostra que nem tudo foi plenamente compreendido desde o início e que a forma como vivemos essa doutrina pode, sim, receber ajustes à medida que o Senhor revela mais luz e entendimento.

Também sabemos que todas as ordenanças vicárias realizadas no templo dependem da aceitação da pessoa do outro lado do véu. Nada é imposto. O arbítrio continua sendo um princípio eterno. Portanto, o fato de uma mulher ser selada a mais de um homem não significa que ela permanecerá eternamente em um relacionamento que não deseja.

Além disso, ser selado no templo não garante automaticamente a exaltação. Todas as ordenanças dependem de nossa fidelidade contínua e do cumprimento dos mandamentos. Somos salvos pela graça do Salvador, mas a exaltação em família exige esforço, arrependimento e perseverança ao longo da vida mortal.

regras do selamento
Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Como mulher, como membro e como alguém que confia no Salvador

Apesar de todas essas explicações, ainda não compreendemos por que os homens podem se selar novamente ao ficarem viúvos enquanto as mulheres, em geral, não podem, a menos que solicitem o cancelamento do selamento no templo anterior. Elas podem se casar novamente, mas permanecem seladas ao primeiro esposo.

Já os homens podem se selar novamente, como foi o caso do presidente Russell M. Nelson, que se casou e se selou no templo novamente aos 82 anos de idade. Esse exemplo é descritivo da prática atual, mas não traz, por si só, uma explicação doutrinária para o motivo dessa diferença.

Se somos iguais perante o Senhor, por que isso acontece? A verdade é que não sabemos. O que existem são teorias e especulações de membros, mas nada oficial que explique plenamente essa assimetria.

Como mulher, esse tema já mexeu muito comigo. Por muito tempo, tive medo de pensar em um futuro eterno no qual eu teria que aceitar dividir meu esposo, aquele com quem me selei, construí uma vida e compartilhei tudo, com outra mulher, simplesmente porque morri antes e ele seguiu em frente. Esse pensamento me causou angústia real.

Hoje, porém, tento não viver dominada por esse medo. Escolho confiar mais no caráter do Senhor do que nas lacunas do meu entendimento. Não acredito que o plano de um Salvador que chorou com Marta e Maria, que defendeu mulheres marginalizadas e que conhece cada dor do coração humano, seja um plano que exija resignação silenciosa ou sofrimento eterno da mulher fiel.

O papel da mulher no reino do Senhor

E existe algo importante aqui: essa conversa não é só sobre “regras”, mas também sobre como a Igreja aprende, melhora e toma decisões com mais sabedoria quando leva as mulheres a sério.

A Primeira Presidência compartilho uma entrevista onde falaram sobre o papel da mulher, quando perguntado sobre o que a Primeira Presidência deseja que as pessoas entendam, o presidente Christofferson falou sobre a necessidade, em toda a Igreja, de considerar as perspectivas masculina e feminina na tomada de decisões:

“Quando reunimos ambas as perspectivas, obtemos uma perspectiva melhor. Nos aproximamos da perspectiva divina”, disse o Presidente Christofferson.

Isso acaba refletindo nesse assunto. Porque quando uma regra afeta tão profundamente a vida emocional e espiritual de mulheres fiéis, faz sentido que exista, também, o esforço institucional de escutar melhor, e não apenas “explicar melhor”.

Na mesma conversa, a presidente Eyring reforçou uma verdade simples e profunda:

“Liderança é servir”, acrescentou a presidente Eyring, “e as mulheres fazem isso de uma maneira simplesmente notável”.

Isso me ajuda a lembrar que, no Reino de Deus, liderança não é sobre poder ou controle — é sobre cuidado, proteção e serviço. E que o Senhor reconhece o valor, a sensibilidade e a capacidade espiritual das filhas Dele.

Nenhuma promessa será quebrada

Ao mesmo tempo, valorizo muito quando líderes falam com honestidade sobre limitações históricas. O presidente Oaks reconheceu que a Igreja “nem sempre foi sábia ao usar as grandes qualificações e poderes das filhas de Deus”.

E ele completou com duas frases que, para mim, são realistas e esperançosas ao mesmo tempo:

“Ainda temos trabalho a fazer”, disse o presidente Oaks, “mas estamos em uma situação muito melhor do que estávamos há dez anos.”

Essa combinação, de reconhecer que houve falhas e afirmar que existe progresso, é o tipo de postura que abre espaço para uma fé mais madura. Não uma fé ingênua, mas uma fé que sabe confiar no Senhor enquanto Ele continua ensinando Seu povo.

Por isso, o melhor caminho não é dar ouvidos a especulações nem tentar explicar aquilo que o Senhor ainda não revelou nem mesmo aos Seus profetas. É viver com fidelidade à luz que já recebemos e confiar que nenhuma promessa feita no templo será quebrada.

A última palavra sobre selamentos não será o medo, será o Salvador!

Por fim, acredito que muitas das angústias em torno do selamento, da poligamia e do futuro eterno nascem do fato de olharmos para a eternidade com olhos mortais. Projetamos nossas dores, traumas e experiências humanas em um Reino que será governado por um Salvador perfeitamente justo, misericordioso e amoroso.

Confio que nenhuma mulher fiel será forçada a viver uma eternidade que não deseja, e que nenhum convênio verdadeiro será usado como instrumento de opressão. Se hoje ainda não entendemos todos os detalhes, isso não significa que eles não existam, apenas que a revelação ainda está em andamento.

Mais do que respostas perfeitas, o que o Senhor esteja nos pedindo agora seja fé suficiente para caminhar com Ele, mesmo quando ainda não conseguimos ver tudo além do véu.

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