Pergunta

Eu sei em meu coração que Jesus sofreu e morreu por mim. Que, no Jardim, Ele foi pressionado em agonia por nossas dores, pecados, doenças, tristezas, etc. Quando Jesus pagou por nossos pecados? No Jardim e novamente na cruz? Como Seu sofrimento foi diferente nesses dois lugares? Quando Ele tomou o cálice amargo, e o que ele era?

Resposta

Na véspera de Sua crucificação, quando soldados romanos chegaram para prendê-Lo, Jesus conteve a violência defensiva de Pedro com uma pergunta simples, porém profundamente comovente: “Não hei de beber o cálice que o Pai me deu?” O “cálice” não era uma mera metáfora para o sofrimento mortal, mas uma referência explícita à Sua missão divina como Redentor, um convênio sagrado de sofrer, morrer e ressuscitar para a salvação de todos.

Por séculos, cristãos de todas as tradições refletiram sobre a natureza exata da Expiação de Cristo — o que aconteceu no Getsêmani, na cruz e na Ressurreição. Os membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias trazem esclarecimentos adicionais tanto das escrituras antigas quanto das modernas. Ainda assim, persistem mal-entendidos: a Expiação foi realizada principalmente no jardim? Alguma parte ocorreu exclusivamente na cruz? Ou existe uma unidade perfeita entre todos esses eventos?

Para responder, precisamos reverenciar o cálice: compreender suas raízes nas escrituras, seu cumprimento no sofrimento, na morte e na ressurreição, e seu poder redentor para toda a humanidade.

O que significa o cálice amargo?

A imagem do “cálice” aparece repetidamente nas escrituras como símbolo de destino — ou, com mais frequência, de uma designação divina para o sofrimento ou para a ira. O salmista, em uma profecia messiânica, escreveu: “Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor” (Salmos 116:13). Isaías também falou de Jerusalém bebendo “o cálice do seu furor” (Isaías 51:17), prenunciando o sofrimento redentor que viria.

No contexto da Páscoa, a festa judaica celebrada por Cristo na Última Ceia, vários cálices de vinho simbolizavam promessas históricas de Deus. Jesus escolheu um desses cálices de convênio para simbolizar Seu sacrifício iminente:

“Porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados… E digo-vos que, desta hora em diante, não beberei deste fruto da videira, até aquele dia em que o beba novo convosco no reino de meu Pai” (Mateus 26:28–29).

O símbolo do cálice, portanto, aponta tanto para o sofrimento quanto para a redenção: a provação que Cristo enfrentaria e o cumprimento glorioso da Expiação.

O clímax espiritual começa no olival chamado Getsêmani. Ali, o “cálice” torna-se uma realidade vivida. Jesus ora:

“Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lucas 22:42). Um anjo O fortalece, mas Ele fica “em agonia… e o seu suor tornou-se como grandes gotas de sangue que caíam sobre a terra” (Lucas 22:44).

Escrituras modernas, como Alma 7:11–13 e Doutrina e Convênios 19:16–19, testificam que Cristo, no Getsêmani, sofreu não apenas pelos pecados, mas por toda dor, aflição e angústia humanas. A hematidrose, um fenômeno médico raro em que a pessoa transpira sangue sob extremo sofrimento, testemunha o tormento físico e espiritual suportado pelo Salvador.

Expiação - Cristo tomou o cálice amargo
Imagem: “Getsêmani”, de Adam Abram.

O cálice amargo, após o Getsêmani

Após o Getsêmani, Jesus enfrenta prisão, açoites, zombaria e, finalmente, a crucificação. Na cruz, Ele clama: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” — cumprindo o momento profetizado de solidão absoluta e separação espiritual do Pai. Assim, Cristo experimentou não apenas a dor física da crucificação, mas também, conforme ensinou o Élder Jeffrey R. Holland, o “paralisante desespero da retração divina”, refletindo o que a humanidade sente ao estar separada de Deus por causa do pecado.

Se sofrimento e morte fossem tudo, a redenção estaria incompleta. A Ressurreição é o evento culminante:

“Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos e foi feito as primícias dos que dormem… Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” (1 Coríntios 15:20–22).

No Livro de Mórmon, Abinádi testifica:

“Se Cristo não houvesse ressuscitado dentre os mortos… não haveria ressurreição. Mas há uma ressurreição; portanto, a sepultura não tem vitória, e o aguilhão da morte é tragado em Cristo” (Mosias 16:7–9).

Assim, o cálice inclui não apenas sofrimento e morte, mas o triunfo da vida sobre a morte.

Na doutrina da Igreja, o sofrimento de Cristo no Jardim é único e essencial. Ali, Ele tomou sobre Si não apenas a penalidade do pecado, mas toda tristeza, dor e enfermidade já experimentadas pela humanidade. Como declarou Alma: “Ele sairá, sofrendo dores e aflições e tentações de toda espécie… para que se encham de misericórdia as suas entranhas… para saber, segundo a carne, como socorrer seu povo segundo suas enfermidades” (Alma 7:11–12). A revelação moderna amplia nosso entendimento:

“O qual sofrimento fez com que eu, Deus, o maior de todos, tremesse de dor e sangrasse por todos os poros… e desejasse não beber o cálice amargo e recuar” (Doutrina e Convênios 19:18).

A expiação de Jesus Cristo, segue na cruz

Ao contrário de algumas suposições, a Expiação não se limita apenas ao Getsêmani; a cruz é central.

O Élder Holland esclarece que a agonia final ocorreu quando o Pai retirou brevemente Seu Espírito, marcando a necessidade de Cristo descer abaixo de todas as coisas. “Para que Sua Expiação fosse infinita e eterna, Ele teve de sentir como era sofrer não somente a morte física, mas também a espiritual, sentir como era ter Seu Espírito divino retirado, deixando-O numa solidão total, abjeta e desesperadora.”

Embora algumas autoridades dos Santos dos Últimos Dias, como Bruce R. McConkie, tenham sugerido que as “agonias infinitas… do Getsêmani se repetiram” na cruz, os ensinamentos da Igreja enfatizam que tanto o Getsêmani quanto o Calvário são elementos essenciais e inseparáveis do “cálice” da Expiação.

Por fim, a Expiação é incompleta sem a Ressurreição. Como ensinou Paulo:

“E se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados.” (1 Coríntios 15:17).

Bandejas do sacramento
Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias

Os convênios são uma extensão do poder de Cristo

Os membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias renovam seus convênios semanalmente ao participarem do sacramento: pão e água simbólicos (ou vinho nos tempos antigos), em lembrança do corpo e do sangue de Cristo. Essa ordenança foi instituída durante a refeição pascal, com o cálice abençoado separado para representar o sangue expiatório de Cristo.

“Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim.”, registra Paulo (1 Coríntios 11:25–26).

O ritual não é apenas lembrança; é um novo comprometimento espiritual de “sempre se lembrarem dele e guardarem Seus mandamentos… para que tenham Seu Espírito consigo”. Assim, ao refletir sobre por que o próprio Cristo não participou do cálice na Última Ceia ou durante Sua visita aos nefitas, as escrituras dos Santos dos Últimos Dias recordam Sua promessa de que Ele não beberia novamente do cálice sacramental “até aquele dia em que o beba, novo, convosco no reino de meu Pai” (Mateus 26:29).

Portanto, cada ensinamento dos Santos dos Últimos Dias sobre a Expiação testifica da profundidade da descida de Cristo: Ele “desceu abaixo de todas as coisas, por compreender todas as coisas” (Doutrina e Convênios 88:6). Conforme a obra teológica moderna O Deus que Chora explica, talvez a

“identificação de Cristo com o sofrimento humano seja tão completa que, em uma única visão arrebatadora, Ele compreendeu a profundidade, a extensão e o terror de toda a nossa dor individual”.

A Expiação é, portanto, o ato supremo de amor, uma aceitação voluntária não apenas da penalidade do pecado, mas também de todas as consequências e tristezas, tomadas sobre Si convindado-nos ao arrependimento, à cura e à vida eterna.

Logo, cada escritura, ensinamento e ordenança de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias testifica que o “cálice” de Cristo foi esvaziado por nós. Que nos lembremos dEle, “anunciando a morte do Senhor, até que venha”, e nos esforcemos para fazer de Sua Expiação o centro de nossa vida.

Fonte: Ask Gramps

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