Da serpente de bronze de Moisés às ferramentas do discipulado moderno, como evitar que os meios do discipulado substituam o Messias.

A serpente como símbolo sagrado

Em muitas civilizações antigas, a serpente era um símbolo de reis, realeza e deuses. Dá para ver isso na parte da frente da coroa do faraó egípcio e na lenda mesoamericana de Quetzalcóatl, a serpente com penas.

Ela também é um símbolo de Cristo. A história nas escrituras em que a serpente de Moisés devora as serpentes dos egípcios transmitia uma mensagem teológica poderosa: Jeová é a serpente superior. Como observa o estudioso santo dos últimos dias Andrew Skinner, essa história testifica da supremacia de Cristo sobre poderes falsificados.

Esse contexto torna profundamente significativo o fato de Satanás ter aparecido a Eva como uma serpente no Jardim. Ele estava aparecendo como uma falsificação de Cristo. Gênesis ensina: “Ora, a serpente era mais astuta (ardilosa, traiçoeira, esperta) do que todos os animais do campo”, preparando a serpente como um mensageiro falsificado, parecendo ter autoridade enquanto desviava almas para longe de Cristo. Moisés 4:6 acrescenta: “E Satanás incitou o coração da serpente (pois ele havia atraído muitos após si) e procurou também enganar Eva (…)”

A serpente de bronze e a lição da adoração mal direcionada

A serpente aparece novamente no início do Velho Testamento. Lemos no livro de Números que “o povo falou contra Deus e contra Moisés”, perguntando: “Por que nos fizestes subir do Egito para que morrêssemos neste deserto? Pois aqui nem pão nem água há; e a nossa alma tem fastio deste pão tão vil”.

Deus respondeu à falta de fé deles enviando serpentes “abrasadoras” (venenosas) ao acampamento, e as pessoas começaram a morrer. Quando os israelitas se arrependeram e pediram a Moisés que orasse por livramento, o Senhor instruiu Moisés a fazer uma “serpente de bronze” e prendê-la no alto de uma haste, para que todo aquele que olhasse para ela vivesse.

Será que eles se esqueceram de quem realmente adoravam?

Mais tarde, tanto Jesus quanto Alma apontaram que a serpente erguida simbolizava o Filho. Ainda assim, o rei Ezequias destruiu a serpente de bronze feita por Moisés, chamada Nehushtan naquela época, porque os israelitas, em um ato que indicava culto, haviam começado a queimar incenso para ela e a adorá-la como um ídolo.

Por que os israelitas adorariam algo que deveria apontá-los para o Senhor? Será que eles se esqueceram de quem realmente adoravam? Da mesma forma, nós nos esquecemos de quem realmente adoramos e acabamos idolatrando coisas boas que deveriam nos levar a Cristo?

Encontrar paz em Jesus Cristo

Quando os meios se tornam o fim

Algumas coisas destinadas a nos apontar para Cristo, como a Igreja, o profeta e os apóstolos, as escrituras, os programas da Igreja, líderes locais do sacerdócio, o folheto Para o Vigor da Juventude e até mesmo os mandamentos, às vezes podem, sem intenção, tornar-se como a serpente de bronze. Elas nos levam a Cristo, mas quando as tratamos como salvadoras em si mesmas, corremos o risco de idolatrá-las. Os fariseus exemplificaram como é idolatrar mandamentos.

Não estou sugerindo que alguém faça isso de propósito, mas, em nosso esforço valoroso de ensinar membros e crianças a participar plenamente da Igreja, seguir o profeta e ler as escrituras, às vezes criamos uma cultura em que essas coisas boas e justas são assumidas como objetivo final, em vez de meios para chegar ao objetivo.

O que significa dizer que a Igreja é “verdadeira e viva”?

Mas nós não dizemos coisas como: “O profeta nunca nos conduzirá ao erro”, “O Livro de Mórmon é o livro mais correto de todos” e “A Igreja é a única Igreja verdadeira”? Sim, mas essas afirmações exigem contexto.

Quando dizemos que a Igreja é “verdadeira”, o que queremos dizer? Ela tem as ordenanças do sacerdócio, é guiada por Cristo por meio de revelação a Seus servos e ensina doutrina salvadora. Ela é divina, é a Igreja de Cristo.

Muitos ouvem “verdadeira” como “sem falhas”: escrituras perfeitamente precisas, programas impecáveis, decisões exatamente como Deus as faria. Em outras palavras, interpretamos “verdadeira” como uma lógica de tudo ou nada: tudo certo ou tudo errado.

Muitos membros até se sentem orgulhosos dessa ideia, acreditando que todas as outras religiões são abomináveis e que todos os pregadores são corruptos.

Mas o que acontece quando a Igreja muda políticas, reverte decisões ou implementa um programa menos eficaz? O que fazemos quando alguém diz algo doloroso, quando líderes se contradizem, ou quando membros se sentem magoados ou isolados dentro da cultura da Igreja?

O problema desse pensamento de verdadeiro ou falso é que, quando as pessoas encontram um problema na Igreja, muitas vezes sentem que não têm escolha a não ser sair, jogando fora o que é bom junto com o que é ruim. A suposição é que uma instituição divina não deveria ter erro humano, transformando cada falha em uma possível crise de fé.

Doutrina & Convênios 1:30 declara que esta é a única Igreja “verdadeira e viva”. Muitas vezes definimos “verdadeira” como “imutável” ou “factualmente precisa”, mas a palavra qualificadora “viva” complica essa definição.

Outro significado de “verdadeira” é “nivelar, esquadrejar, equilibrar ou tornar concêntrico; restaurar à precisão ou à forma”, o que dá à palavra um sentido mais dinâmico e vivo. “Alinhar uma roda”, por exemplo, significa ajustar os raios para que ela gire reta e firme, sem oscilar.

Talvez a Igreja ser “verdadeira” seja como uma roda de bicicleta: apontada na direção certa, geralmente reta, mas, ocasionalmente, precisando de ajuste. Precisamos encher pneus murchos, endireitar amassados e realinhar raios para mantê-la “verdadeira”. E, enquanto pedalamos, fazemos inúmeras pequenas correções de rota que nos mantêm seguindo em direção ao destino.

Chamar a Igreja de “viva” aponta para revelação contínua, mas também implica correção, crescimento e cura. Mudanças recentes na linguagem do templo e parcerias com a NAACP são exemplos. Isso ajuda a entender a relação correta entre o evangelho e a Igreja. Ambos são divinos, mas somente o evangelho é perfeito. O élder Ronald Poelman disse certa vez:

“Compreender a relação correta entre o evangelho e a Igreja evitará confusão, prioridades deslocadas e expectativas frustradas.” Por outro lado, o élder Kevin S. Hamilton ensinou: “Você não pode aceitar Jesus Cristo e rejeitar Sua Igreja ou Seus mensageiros autorizados… Você não pode separar Jesus Cristo da Igreja de Jesus Cristo.”

A Igreja é um veículo para a salvação, como um carro. Comparada com os outros no estacionamento, ela é a melhor. Não é perfeita, nem a maior ou a mais rápida, e tem amassados para polir. Mas é confiável, oferece melhorias e tem os melhores recursos de segurança. Recebemos abastecimentos semanais e assistência 24 horas. Cada ano do modelo melhora, e ela até inclui um botão celestial de chamada tipo OnStar. Talvez o melhor recurso seja a garantia eterna.

Profetas, fragilidade e o filtro divino

No Velho Testamento, o Senhor chamou Gideão para libertar Israel da opressão dos midianitas. Gideão reuniu um exército de 32.000 homens, mas Deus lhe disse que era gente demais, pois queria que ninguém mais tomasse para si a glória. Depois de reduzir o exército para 300, eles triunfaram. Ainda assim, o povo deu o crédito a Gideão, dizendo: “Domina sobre nós, tanto tu, como teu filho e o filho de teu filho; porquanto nos livraste (…)” Gideão respondeu: “Sobre vós eu não dominarei, nem tampouco meu filho sobre vós dominará; o Senhor sobre vós dominará.”

O estudioso e escritor santo dos últimos dias Terryl Givens, em The Crucible of Doubt, observa que esse tipo de adoração ao herói é comum na história humana e até dentro de nossa Igreja. Ele cita a velha piada de que os católicos dizem que o papa é perfeito, mas ninguém acredita, enquanto os santos dos últimos dias dizem que o profeta é imperfeito, mas ninguém acredita. A ideia de que profetas são pessoas totalmente virtuosas e perfeitas “não está nas escrituras e não é razoável”, escreve Givens.

O presidente Dieter F. Uchtdorf também reconheceu: “De modo aberto reconhecemos que em quase 200 anos de história da Igreja — junto com uma sequência ininterrupta de acontecimentos inspirados, honrosos e divinos — houve algumas coisas que foram ditas e feitas que poderiam fazer as pessoas duvidarem … E para ser perfeitamente honesto, houve ocasiões em que membros ou líderes da Igreja simplesmente cometeram erros.”

O élder D. Todd Christofferson acrescentou que “nem toda declaração feita por um líder da Igreja, no passado ou no presente, é obrigatoriamente doutrina … Muitas vezes, ela representa uma opinião pessoal, embora bem ponderada, sem a intenção de que se torne oficial ou válida para toda a Igreja.”

As escrituras reforçam que Deus fala conosco de acordo com nossa linguagem e entendimento (ver 2 Néfi 31 e D&C 1). A revelação passa por um filtro de personalidades e paradigmas humanos. Joseph Smith reconheceu isso, e Morôni ecoou a mesma ideia na página de título do Livro de Mórmon: “Se há falhas, são erros dos homens.”

Então, como é a divindade quando filtrada por mortais? Acho apropriada a metáfora do vitral. Dependendo de sua cor e do seu desenho, a luz que passa através dele é bela e divina, mas ainda assim filtrada. O filtro a torna única. Só porque há vidro não significa que a luz não seja divina. Considere como a inspiração divina se manifesta de modo diferente através do “vitral” de Neal A. Maxwell, Brigham Young, Sheri Dew, Jeffrey R. Holland, Gordon B. Hinckley, Bruce R. McConkie, Dieter F. Uchtdorf ou Sharon Eubank — e também através dos membros de sua ala.

Deus usa vasos imperfeitos porque é tudo o que Ele tem, mas também para ensinar humildade e redirecionar nossa adoração. Ele disse a Joseph Smith em Doutrina & Convênios 124:1: “pois para esse fim te levantei, para mostrar minha sabedoria por meio das coisas fracas da Terra.” O élder Jeffrey R. Holland nos lembrou: “(…) pessoas imperfeitas sempre foram tudo o que Deus teve para usar em Sua obra … Quando vocês virem imperfeições, lembrem-se de que a limitação não está na divindade da obra.”

O Senhor incorporou freios e contrapesos em Seu sistema: conselhos, quóruns, companheirismos, presidências e casamentos. O élder Boyd K. Packer observou: “Esses procedimentos protegem a obra das fraquezas individuais aparentes em todos nós.”

Dois erros comuns na fé

Tendemos a errar de duas maneiras. Primeiro, não levamos o profeta, a Igreja ou as escrituras a sério o suficiente. Muitos de nós falhamos em abraçar plenamente as bênçãos de seguir os irmãos, participar da Igreja e banquetear-nos com as escrituras.

O segundo erro é o que o estudioso do Novo Testamento, Darrell Bock, chama de “fundamentalismo frágil”: supor que a Igreja, os profetas ou as escrituras precisam ser perfeitos e, então, perder a fé quando confrontados com imperfeição. Se achamos que a Igreja precisa ser toda verdadeira ou toda falsa, fica fácil ir embora quando encontramos falhas.

O valor de perguntas honestas

Para quem está lutando com dúvidas, suas perguntas são válidas. Não há nada de errado com você. Perguntas são como aprendemos. Quase toda revelação em Doutrina e Convênios começou com uma pergunta. A Primeira Visão começou com uma pergunta.

A incerteza é desconfortável, mas a investigação sincera faz parte do discipulado. As respostas podem vir rápido, devagar ou talvez nem venham, e é por isso que a fé é essencial ao crescimento espiritual. Joseph Smith ensinou que “uma religião que não exige o sacrifício de todas as coisas, nunca tem poder suficiente para produzir a fé necessária para a vida e a salvação.” Talvez parte desse sacrifício seja colocar nossas queixas e perguntas sem resposta sobre o altar, confiando que Deus valoriza a luta honesta tanto quanto a crença fácil.

Criando uma cultura segura para quem busca

Uma igreja viva também precisa ser um lugar seguro para aqueles que buscam sinceramente. Se a fé deve crescer por meio de investigação honesta, em vez de certeza frágil, então as perguntas não deveriam ser tratadas como ameaças. Na prática, porém, alguns membros temem, em silêncio, que expressar dúvidas os rotule como desleais ou espiritualmente fracos.

Ainda assim, a própria Restauração modela um padrão diferente. O élder Dieter F. Uchtdorf ensinou: “A investigação é o berço do testemunho. … Fazer perguntas não é sinal de fraqueza; é um precursor de crescimento.” Uma fé que não tolera perguntas sinceras corre o risco de confundir devoção com defensividade.

O discipulado maduro dá espaço para a complexidade sem abandonar o compromisso. Com o tempo, a fé pode ir da simplicidade à complexidade e, idealmente, voltar a uma simplicidade mais profunda e humilde (ver Hafen, Faith is Not Blind). Criar espaço para esse processo não enfraquece a Igreja. Honra o fato de que uma fé verdadeira e viva também precisa ser paciente, caridosa e resiliente.

Cruzar fontes para encontrar a verdade

Então, como encontrar a verdade em um mundo imperfeito? Eu procuro “triangular” a verdade. Podemos observar onde as fontes se confirmam entre si: as obras-padrão, profetas vivos e do passado, revelação pessoal, a razão, professores, pais e todos os bons livros.

Confiar em apenas uma ou duas fontes pode nos levar ao erro. O Espírito Santo é a fonte final da verdade, mas reconhecer Sua voz muitas vezes envolve confirmar o que sentimos e aprendemos por meio desses diferentes canais, já que “vemos por espelho, em enigma” (1 Coríntios 13:12).

Precisamos usar cada uma dessas fontes e não transformá-las em ídolos.

Escolher acreditar

Escolhi o evangelho de Cristo como a realidade na qual vou me apoiar para a salvação. Creio que esta Igreja é o melhor veículo para chegar a esse destino. Eu acredito porque escolho acreditar, não por causa de uma lógica perfeita. Senti o Espírito Santo confirmar a verdade para mim em muitas ocasiões.

Meu testemunho aumenta e diminui, como acontece com o de todos. Às vezes ele se aproxima da certeza; outras vezes se apoia apenas na fé. Ainda assim, mesmo na fraqueza, ele me chama a continuar tentando, a continuar enxergando luz através do vitral.

Fonte: Public Square Magazine

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