Você já se perguntou por que Deus exige fé em um nível tão distante, sem uma interação direta ou uma prova definitiva? Em praticamente todas as religiões, a fé é apresentada como essencial para encontrar a verdade, o que sugere que ninguém, no fundo, tem um argumento absolutamente incontestável.
Mesmo quando há evidências, ainda assim somos convidados a exercer fé até recebermos um testemunho espiritual. Mas esse testemunho não poderia ser apenas uma ilusão, talvez influenciada pelo que ouvimos de outras pessoas?
Por que não podemos simplesmente ver um anjo ao menos uma vez? Assim, pelo resto da vida, poderíamos viver nossa fé com um conhecimento mais pessoal e concreto de Deus. Ainda teríamos nosso livre-arbítrio, mas pelo menos teríamos uma evidência sólida.
A fé começa onde a visão termina
Nas escrituras, a fé é descrita repetidamente como algo relacionado ao que não vemos ou não conhecemos plenamente:
“A fé não é ter um perfeito conhecimento das coisas; portanto, se tendes fé, tendes esperança nas coisas que não se veem, mas que são verdadeiras” (Alma 32:21).
Da mesma forma, em Hebreus lemos: “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que não veem e que são verdadeiras.” (Hebreus 11:1).
Mas por que a fé envolve justamente esse elemento do invisível?
O estudioso Terryl Givens argumenta que, para que a fé tenha significado real,
“É preciso que haja espaço tanto para a dúvida quanto para a crença, para que a escolha seja realmente uma escolha, deliberada, consciente e carregada de vulnerabilidade e compromisso pessoal. Uma quantidade esmagadora de evidência de um lado ou de outro tornaria nossa decisão tão sem sentido quanto uma arma apontada para nossa cabeça.”
Em outras palavras, se não houvesse espaço para questionamento, se apenas crer ou apenas duvidar fosse a única opção intelectualmente possível, a fé deixaria de ser uma escolha moral genuína.
Essa tensão entre fé e dúvida faz parte da própria estrutura da teologia dos Santos dos Últimos Dias. A experiência mortal foi planejada para ser uma caminhada pela fé, não pela visão. É um período deliberadamente separado de um conhecimento direto da presença de Deus.
O fato de não podermos vê-Lo ou prová-Lo plenamente nesta vida não é um erro no plano, é parte central dele. É essa condição que permite que os verdadeiros desejos do nosso coração sejam revelados por meio das escolhas que fazemos.

Do questionamento à experiência
Muitas vezes, a dificuldade está no desejo de eliminar completamente a dúvida, querer conhecimento perfeito antes de agir com fé. O método científico para adquirir conhecimento começa pela dúvida. Já o método religioso funciona de forma oposta: começa pela fé. Aceitamos uma proposição como verdadeira antes da prova. Colocamo-la em prática como se já soubéssemos que é verdadeira. Se for realmente verdadeira, a experiência confirmará isso. E, por meio dessa vivência, passaremos a saber que é verdadeira.
Esse método “experimental” é explicado em Alma 32, onde a fé é comparada ao ato de plantar uma semente. O primeiro passo exige esperança e disposição, muito antes de qualquer fruto aparecer. Somente depois de nutrir e experimentar a palavra é que o conhecimento começa a substituir a fé. E mesmo assim, à medida que buscamos maior entendimento ou enfrentamos novos desafios, novos níveis de fé continuam sendo necessários.
Na doutrina dos Santos dos Últimos Dias, até mesmo Deus é associado à fé, mas em um sentido diferente do nosso. A fé de Deus é independente, é o princípio pelo qual toda a criação existe. Já nós, mortais, somos convidados a escolher confiar naquilo que ainda não vemos nem podemos provar plenamente.
Como é ensinado pelo profeta Joseph Smith:
“A fé… é o primeiro grande princípio governante, que tem poder, domínio e autoridade sobre todas as coisas; por ela existem, por ela são sustentadas, por ela são transformadas ou permanecem, segundo a vontade de Deus. Sem ela não há poder; e sem poder não haveria criação nem existência.”
Assim, embora muitas vezes lutemos nesse espaço entre crença e dúvida, é justamente essa tensão que fortalece nossa agência. Ela permite que a fé se torne uma expressão sincera de quem somos, e não apenas uma reação inevitável diante de provas irrefutáveis.
Mas por que Deus simplesmente não Se revela a todos, eliminando qualquer incerteza?
A resposta está no propósito da mortalidade. O objetivo da nossa vida aqui é descobrir se, mesmo sem ver ou ouvir diretamente, escolheremos buscar a Deus e servi-Lo. Como ensina 2 Coríntios 5:7: “Porque andamos por fé, e não por vista.”
Por quê? Porque essa experiência revela os verdadeiros desejos do nosso coração.
Se a fé não fosse necessária, se a realidade de Deus fosse esmagadoramente evidente e inquestionável, o desenvolvimento de um coração disposto e amoroso seria impossível. Deus deseja que O escolhamos porque nossos desejos e esperanças estão alinhados com o Seu plano, não simplesmente porque as evidências nos obrigam a crer. Uma crença imposta cria autômatos, não discípulos.
É justamente na ambiguidade da experiência mortal, onde tanto a crença quanto a dúvida têm espaço racional, que a verdadeira agência floresce. Como escreveu Terryl Givens:
“O chamado à fé, sob essa perspectiva, não é um teste de um Deus distante esperando ver se acertamos. É o único convite, nas únicas condições possíveis, que permite que revelemos plenamente quem somos, o que mais amamos e o que mais profundamente desejamos.”
Se todos sentem algo, como discernir a verdade?
Alguns Santos dos Últimos Dias veem suas dúvidas aumentarem ao perceberem que pessoas de outras religiões também relatam experiências espirituais profundas, às vezes tão intensas quanto as suas próprias. Se pessoas de outras crenças também recebem confirmações espirituais, como saber se a nossa fé é verdadeira? Essa é uma pergunta real, e não tem uma resposta simplista.
A perspectiva dos Santos dos Últimos Dias enfatiza que o amor de Deus se estende a todos os Seus filhos. Ele responde orações, revela verdades “linha sobre linha” e respeita a jornada espiritual individual. Inspiração, revelação e confirmação espiritual são processos complexos, que coexistem com limitações humanas, interpretações pessoais e aprendizado gradual ao longo do tempo.
Líderes e estudiosos também aconselham paciência diante de perguntas sem resposta ou aparentes contradições. No campo da fé, sempre existirão perguntas. E isso não é um defeito, é uma característica essencial da própria fé. Se não houvesse perguntas, não haveria fé. Deus permite espaço para dúvidas para que a fé possa existir, e crescer.
Em vez de enxergar a dúvida como uma ameaça, somos convidados a vê-la como o solo onde uma fé viva pode se desenvolver, impulsionando-nos a continuar buscando e aprendendo.
Há diferença entre afirmar que acredita em Cristo e viver de acordo com essa crença. A fé passiva é apenas uma declaração. A fé ativa é crença em ação, arrepender-se, amar, buscar revelação, servir. É ao enfrentar dúvidas e seguir adiante que a fé se torna transformadora, moldando nosso caráter e não apenas confirmando uma posição intelectual.
Às vezes, o convite de Deus à fé envolve colocar certas questões “na prateleira” até que mais luz seja recebida. Não se trata de ignorar perguntas, mas de reconhecer que nossa compreensão é limitada, e que essa limitação faz parte da experiência mortal. Com o tempo, mais entendimento pode vir, aprofundando nosso relacionamento com Deus.
Fonte: Ask Gramps
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