Quando ouvimos a palavra vingança, geralmente imaginamos algo dramático. Alguém sofre uma grande injustiça e decide destruir a pessoa que lhe causou sofrimento. A literatura e o cinema estão cheios de histórias assim.

Mas a maioria das vinganças não se parece com O Conde de Monte Cristo. Elas acontecem nos casamentos, nas famílias, nas amizades, nas alas da Igreja e nos ambientes de trabalho.

Fazemos fofoca sobre alguém que nos constrangeu. Deixamos de demonstrar carinho ao cônjuge que nos decepcionou. Tratamos alguém com silêncio. Fazemos um comentário sarcástico com a intenção de magoar. Deixamos de ajudar. Secretamente, sentimos satisfação ao ver alguém que nos feriu fracassar.

Talvez nunca chamemos nada disso de vingança. Mas será que não deveríamos?

No livro Healing the Wounded Heart (Curando o coração ferido, em tradução livre), defino a vingança como a busca por justiça por meio da retaliação, assumindo por conta própria o papel de fazer justiça.

A vingança acontece sempre que tentamos, intencionalmente, fazer outra pessoa sentir um pouco da dor que acreditamos que ela nos causou.

Nesse sentido, a vingança é o oposto do perdão. É uma forma de não perdoar, e talvez estejamos praticando isso sem perceber.

O ciclo da vingança

A vingança geralmente se desenvolve em um ciclo de três etapas: ressentimento, resistência e retaliação. Tudo começa com o ressentimento.

Alguém nos machuca ou nos ofende, seja de fato ou apenas em nossa percepção. Ficamos revivendo o que aconteceu. Imaginamos conversas que nunca aconteceram. Pensamos no que a pessoa deveria ter feito e no que gostaríamos de ter dito.

Diferentemente da raiva explosiva, o ressentimento costuma crescer lentamente. Ele se alimenta dos pensamentos repetitivos sobre o que aconteceu e do nosso desejo de justiça. Depois vem a resistência.

Começamos a levantar barreiras. Evitamos a pessoa, paramos de conversar, deixamos de demonstrar carinho ou nos afastamos emocionalmente.

Essa resistência pode parecer totalmente justificável: Depois do que essa pessoa fez comigo, por que eu deveria tratá-la bem?

Por fim, chega a retaliação. Queremos que a outra pessoa sinta um pouco do que sentimos. A retaliação pode ser evidente, mas, na maioria das vezes, acontece de maneira sutil.

Um pensamento que revela essa intenção é: Agora ela vai saber como é.

Ou talvez: Bem feito. Ela mereceu.

Infelizmente, a retaliação geralmente dá à outra pessoa um novo motivo para se ressentir de nós. Ela fica magoada, começa a resistir e, eventualmente, também revida. E assim o ciclo da vingança recomeça.

O presidente Gordon B. Hinckley alertou justamente sobre essa tendência:

“Curemos as feridas — oh, as muitas feridas causadas por palavras cortantes, por ressentimentos cultivados com teimosia, por planos arquitetados para ‘acertar as contas’ com aqueles que talvez nos tenham prejudicado.”

Em seguida, ele reconheceu algo importante:

“Todos nós temos um pouco desse espírito de vingança dentro de nós.”

Vale a pena refletir sobre isso. A vingança não é apenas algo praticado por pessoas violentas ou vingativas. Talvez exista um pouco desse sentimento em todos nós.

Resgatar
Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

“Minha é a vingança”

O Senhor não poderia ser mais claro sobre quem tem a responsabilidade de fazer justiça em última instância.

Paulo ensinou:

“Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor.” (Romanos 12:19)

Observe que o Senhor não diz que não haverá justiça. Ele diz que a justiça pertence a Ele. Existe uma enorme diferença entre a vingança humana e a justiça de Deus.

A vingança humana é uma imitação da justiça divina. Quando nos vingamos, assumimos o papel de juiz, júri e, às vezes, até de executor da sentença, embora tenhamos apenas uma pequena parte das informações que Deus possui.

Essa diferença fica mais clara quando colocamos as duas lado a lado:

Isso ajuda a entender por que o Senhor reserva a vingança para Si.

A questão não é que os erros devam ficar sem resposta. É que simplesmente não somos capazes de exercer a justiça perfeita.

Quando buscamos vingança, assumimos um papel que pertence a Deus. Na prática, é como se disséssemos:

Não confio que Tu vais resolver essa situação. Ou, pelo menos, não da maneira ou no momento que eu considero correto.

O perdão exige algo muito diferente. Exige fé suficiente em Jesus Cristo para abrir mão do nosso desejo de vingança pessoal e confiar que nenhuma injustiça passa despercebida por Ele. Nossa responsabilidade é perdoar. A responsabilidade Dele é julgar.

vingança sem perceber

Sete maneiras de nos vingarmos sem perceber

O problema é que a maioria de nós não está planejando grandes esquemas de vingança. Geralmente, ela aparece em atitudes muito menores.

1. Sabotagem

Criamos obstáculos intencionalmente, deixamos de ajudar ou prejudicamos o trabalho de alguém porque queremos tornar as coisas um pouco mais difíceis para essa pessoa.

2. Fofocas e comentários maldosos

Alguém nos magoou, então contamos aos outros sobre seus defeitos, espalhamos informações prejudiciais ou tentamos, de maneira sutil, manchar sua reputação.

Podemos dizer a nós mesmos que estamos apenas explicando o que aconteceu, quando, na verdade, parte de nós deseja que outras pessoas passem a ter uma opinião pior sobre ela.

3. Afastamento emocional

Isso é especialmente comum nos relacionamentos próximos.

Deixamos de demonstrar carinho, passamos a fazer menos coisas que normalmente faríamos ou convenientemente “esquecemos” um compromisso importante como forma de expressar descontentamento ou punir a outra pessoa.

4. Tratamento de silêncio

Paramos de conversar ou nos tornamos deliberadamente distantes para que a outra pessoa sinta nossa mágoa e, talvez, se arrependa do que fez.

5. Comportamento passivo-agressivo

Uma provocação sarcástica, um elogio que esconde uma crítica ou uma resposta intencionalmente sem entusiasmo.

São pequenas atitudes que nos permitem punir alguém e, ao mesmo tempo, fingir que não tivemos essa intenção.

6. Resistência passiva

Deixamos de nos esforçar e passamos a fazer apenas o mínimo necessário.

No trabalho, por exemplo, isso pode acontecer quando nos desligamos intencionalmente das atividades ou deixamos de oferecer a colaboração de que alguém precisa porque guardamos ressentimento pela maneira como fomos tratados.

7. Adiar o perdão

A sétima maneira talvez seja a mais surpreendente: adiar o perdão.

Às vezes, deixamos de perdoar especificamente para punir alguém.

Usamos o tempo como uma forma de pressão porque queremos que a pessoa se sinta culpada, sofra por mais algum tempo ou prove o quanto realmente está arrependida.

vingança sem perceber

O paradoxo da vingança

Todas essas sete atitudes têm algo em comum: queremos que a outra pessoa pague pelo que fez. O paradoxo da vingança é que acreditamos que fazer alguém pagar pelo que fez diminuirá nossa própria dor.

Mas acrescentar uma nova ferida à primeira não pode curar nenhuma das duas pessoas. Perdoar não significa que o que aconteceu foi aceitável.

O perdão não elimina a necessidade de estabelecer limites adequados, assumir responsabilidades, reparar danos ou enfrentar as consequências dos próprios atos.

Significa simplesmente reconhecer: Estou abrindo mão do papel que assumi por conta própria de fazer você pagar pelo que fez.

Entrego essa responsabilidade ao único Ser capaz de exercer a justiça perfeita. E, quando faço isso, o ciclo da vingança termina comigo.

O ressentimento não precisa mais se transformar em resistência. A resistência não precisa mais se transformar em retaliação. E a retaliação deixa de criar uma nova ferida que outra pessoa sentirá necessidade de vingar.

Dar o troco nunca realmente acerta as contas. O perdão faz algo muito melhor do que simplesmente equilibrar a balança: ele nos permite seguir em frente. Enquanto a vingança nos mantém presos ao passado, o perdão nos liberta para continuar nossa jornada.

Fonte: Meridian Magazine

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