Uma das doutrinas mais diferentes, e, para mim, mais transformadoras, que conheci ao estudar o evangelho restaurado foi a ideia de que os seres humanos podem se tornar semelhantes a Deus. Cresci na Igreja Católica, depois passei por um período na Igreja Evangélica Pentecostal, e em nenhum desses contextos ouvi esse tema ser tratado de forma aberta e serena. Pelo contrário: qualquer tentativa de aproximação entre o humano e o divino soava como pecado, arrogância ou até blasfêmia.

Existe, no cristianismo moderno, um cuidado quase excessivo em reforçar a distância entre Deus e o homem. Deus é santo, eterno, inalcançável. O ser humano é falho, pequeno, indigno. Essa leitura até vem de um desejo legítimo de preservar a reverência, mas, com o tempo, acabou criando uma barreira que a própria Bíblia não sustenta. Tornou-se basicamente proibido falar sobre semelhança com Deus, como se isso diminuísse Sua glória.

Curiosamente, foi o próprio Jesus quem confrontou essa mentalidade enquanto esteve aqui na terra, Ele como nosso irmão mais velho nos ensinou o real desejo do Pai que é “levar a efeito a imortalidade e vida eterna do homem.”

Não é uma ideia nova, é uma verdade restaurada

Ao me aprofundar nesse tema, uma das coisas que mais me surpreendeu foi descobrir que essa doutrina não surgiu agora, nem foi “inventada” recentemente pela Igreja. Pelo contrário, ela teria sido muito mais familiar às primeiras gerações de cristãos do que para muitos cristãos modernos.

O próprio material da Igreja explica que essas crenças faziam parte do pensamento cristão primitivo, e que diversos eruditos do cristianismo antigo falavam abertamente sobre a possibilidade de os seres humanos se tornarem semelhantes a Deus.

Um estudioso moderno chega a mencionar a “onipresença da doutrina da deificação” nos primeiros séculos após a morte de Cristo, mostrando que essa visão estava longe de ser marginal no cristianismo inicial.

Com o passar do tempo, porém, esse entendimento foi sendo cada vez mais questionado e limitado. O texto explica que, a partir do final do período romano e ao longo da Idade Média, as referências à deificação tornaram-se menos frequentes, especialmente quando se consolidou a ideia da criação ex nihilo, que ampliou a distância percebida entre Deus e o homem.

Gradualmente, ensinar que os seres humanos poderiam herdar e desenvolver atributos divinos deixou de ser comum no cristianismo ocidental. Ao estudar esse processo histórico, percebi que a restauração do evangelho não apresentou algo novo ou estranho, mas recuperou uma verdade que já existiu e foi sendo deixada de lado ao longo dos séculos.

Como o próprio texto afirma, as revelações recebidas por Joseph Smith divergiam das ideias dominantes de sua época e “reiniciaram os debates sobre a natureza de Deus, a criação e a humanidade”.

“Vós sois deuses” relembrou Jesus

No evangelho de João, Jesus é acusado de blasfêmia por afirmar uma relação única com o Pai. A acusação é direta: “porque, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo.”. A resposta de Jesus não foi um pedido de desculpas ou se mostrou envergonhado por ter dito isso. Ele responde citando o Antigo Testamento: “Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Sois deuses?” (João 10:34, citando Salmos 82:6).

Esse momento é fundamental. Jesus não nega a linguagem, não a suaviza, nem diz que se trata apenas de um símbolo poético. Ele mostra algo que já estava nas Escrituras e que seus ouvintes conheciam. Se o próprio Cristo usa essa passagem para se defender de uma acusação de blasfêmia, é porque há nela uma verdade mais profunda, e ao mesmo tempo óbvia e literal, do que costumamos admitir.

Esse não é um versículo isolado. Desde Gênesis, o ser humano é descrito como criado “à imagem e semelhança de Deus”. Após a Queda, o próprio Senhor declara que o homem havia se tornado “como um de nós, conhecendo o bem e o mal”. 

No Sermão da Montanha, Jesus eleva ainda mais o padrão ao dizer: “Sede vós perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus”.

O Novo Testamento reforça essa ideia quando Pedro fala que podemos nos tornar “participantes da natureza divina”, quando Paulo afirma que somos “geração de Deus” e “co-herdeiros com Cristo”, e quando o livro de Apocalipse registra a promessa de que os fiéis se assentarão com Cristo em Seu trono. Tudo isso aponta para algo maior do que apenas salvação passiva.

Honra e glória: o que realmente está em jogo?

Um comentário em uma rede social, que motivou este artigo, tenta fazer uma distinção importante entre honra e glória. Em termos simples, honra está ligada a reconhecimento, respeito e posição dentro de relações humanas. Um filho honra o pai. Um pai é honrado por seus filhos. Essa honra cresce com responsabilidades, experiência e fidelidade, mas sempre respeita uma ordem.

Glória, por outro lado, nas Escrituras, está associada à plenitude, à vida eterna, ao esplendor divino. A glória não é apenas fama ou destaque, mas um estado de existência, uma condição de vida em comunhão perfeita com Deus. Nesse sentido, a glória pertence a Deus e somente a Ele.

O ponto em que muitas interpretações se confundem é assumir que, se os seres humanos podem se tornar semelhantes a Deus, isso significa competir com Ele, substituí-Lo ou “roubar” Sua glória. A doutrina dos Santos dos Últimos Dias ensina exatamente o oposto. Tornar-se como Deus nunca significa deixar de adorá-Lo, deixar de honrá-Lo ou ocupar Seu lugar como Pai.

Assim como um filho que cresce, amadurece e se torna pai nunca deixa de ser filho de seu próprio pai, também os filhos espirituais de Deus jamais deixam de reconhecê-Lo como seu Deus.

tornar-se como Deus

Filhos de Deus em um sentido pleno, não apenas simbólico

Uma diferença central entre o que foi restaurado na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e grande parte do cristianismo moderno está na forma como entendemos a filiação divina.

Para muitos cristãos, chamar Deus de Pai é uma metáfora poderosa, mas ainda assim simbólica. Ou seja, Ele só é chamado de Pai por ter sido Ele o nosso criador, mas acima disso, Ele é Deus, e um Deus bravo que jamais compartilharia o que Ele tem conosco, meros mortais.

Já para nós, os Santos dos Últimos Dias, essa filiação é literal em origem, natureza e potencial. Isso significa que cada pessoa é um filho ou filha espiritual de Pais Celestiais, com uma origem eterna.

Não fomos criados do nada, nem surgimos apenas no nascimento mortal. Há em nós sementes reais de divindade, que podem ser desenvolvidas ou rejeitadas. Essa visão muda completamente a forma como entendemos mandamentos, arrependimento, graça e progresso espiritual.

A Expiação de Jesus Cristo, nesse contexto, não serve apenas para “nos salvar do inferno”, mas para nos capacitar a crescer, curar, refinar e nos tornar semelhantes a Ele. Cristo não apenas perdoa pecados; Ele torna possível que nos tornemos aquilo que o Pai sempre desejou que fôssemos.

Tornar-se como Deus não é orgulho, é amor ao Pai

Talvez o maior equívoco em torno dessa doutrina seja associá-la ao orgulho. Mas quando observamos os ensinamentos bíblicos e modernos, percebemos que o caminho para nos tornarmos semelhantes a Deus é exatamente o oposto da exaltação pessoal sem caridade. É um caminho de humildade, obediência, serviço, arrependimento contínuo e dependência total de Cristo.

Não se trata de declarar “eu sou Deus”, mas de aprender a amar como Deus ama, agir como Cristo agiu e viver em plena harmonia com a vontade divina. É um processo longo, paciente, que ultrapassa esta vida e só é possível por meio da graça do Salvador.

Por isso, essa doutrina não diminui Deus. Ela revela algo ainda mais solene sobre Ele: um Pai que deseja compartilhar Sua vida, Sua alegria e Sua glória com Seus filhos. Um Deus cuja “obra e glória” não é ser adorado sentado em um trono enquanto seus filhos ficam ali sem desenvolvimento, apenas como robôs admirando sua Glória de longe, mas levar Seus filhos à imortalidade e à vida eterna.

Saber que Ele é nosso Pai de verdade muda a forma como vemos a vida

Quando entendemos que os seres humanos têm um potencial divino real, tudo muda. A forma como vemos nossos erros, nossos relacionamentos, nossa família e nosso futuro ganha um novo significado. A obediência deixa de ser medo de punição e passa a ser um processo de crescimento. O arrependimento deixa de ser vergonha e passa a ser aprendizado. A vida eterna deixa de ser um lugar distante e passa a ser um tipo de vida que começa agora.

E a “obrigação” de amar uns aos outros se torna mais clara, pois ao saber que um Deus perfeito é nosso Pai e nos ama, mesmo com tantos defeitos, faz com que nosso fardo se torne mais leve e nos ajuda a enxergar luz e bondade, até mesmo nas pessoas mais difíceis de amar.

Ser como Deus, à luz do evangelho restaurado, não é usurpar Sua glória, mas receber, por meio de Cristo, aquilo que Ele amorosamente deseja conceder. 

Continuaremos honrando o Pai para sempre. Continuaremos adorando-O como nosso Deus. Mas o faremos como filhos que cresceram, amadureceram e aprenderam a viver como Ele vive.

Essa doutrina, tão antiga quanto a Bíblia e tão viva na restauração, não é uma ameaça à fé cristã. É, na verdade, uma de suas expressões mais profundas e esperançosas.

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