Certa vez estive no vale conhecido como Hebrom, hoje fértil e onde, segundo a tradição, há um túmulo atribuído ao pai Abraão. Ao me aproximar do local com o Élder Hugh B. Brown, perguntei:

“Quais são as bênçãos de Abraão, Isaque e Jacó?”

O Élder Brown pensou por um momento e respondeu com uma única palavra: “Posteridade”. Quase exclamei em seguida:

“Então por que Abraão foi ordenado a subir ao Monte Moriá e oferecer sua única esperança de posteridade?”

Ficou claro que aquele homem, já próximo dos noventa anos, havia refletido, orado e até chorado por causa dessa pergunta. Por fim, respondeu: “Abraão precisava aprender algo sobre Abraão”.

Sabemos que o registro fala da promessa extraordinária feita a Abraão: após anos de esterilidade, que, para os israelitas, era considerada uma das maiores aflições da vida, ele teria um filho, que por sua vez teria descendência e se tornaria pai de nações. Isso aconteceu depois de Abraão ter deixado uma cultura onde se praticavam sacrifícios humanos. Ainda assim, foi aconselhado (ou melhor, ordenado), a levar esse filho milagroso ao monte.

provação de Abraão
Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias

O sacrifício de Isaque e sua semelhança com Cristo

Frequentemente nos identificamos com Abraão, mas às vezes pensamos menos no que isso significou para Sara, a mãe, e para Isaque, o filho. Se confiarmos em relatos antigos preservados na tradição judaica, há detalhes que o texto bíblico não menciona. Isaque não era uma criança pequena, mas um jovem à beira da idade adulta. Abraão, ao final da jornada, compartilhou com ele o mandamento e sua origem divina. E Isaque teria respondido algo como:

“Meu pai, se apenas tu me pedisses a vida, eu a daria por ti; se também o Senhor o pede, minha disposição é ainda maior”.

Conforme essa tradição, foi o próprio Isaque quem pediu para que amarrassem suas mãos, para não resistir involuntariamente. O Livro de Mórmon declara que tudo isso aconteceu “à semelhança de Deus e seu Filho Unigênito.” (Jacó 4:5).

Mais tarde, ao subirmos o monte tradicionalmente identificado como Moriá, dentro dos muros de Jerusalém, lembramo-nos da observação de um estudioso. Assim, identifica-se que possivelmente outro Filho subiu aquele mesmo monte. E dessa vez não houve carneiro preso no mato.

A prova de Abraão: alegoria ou realidade?

Ao longo dos séculos, estudiosos se dividiram quanto a esse relato. Alguns afirmam que não pode ter acontecido literalmente, que se trata apenas de alegoria. Outros sustentam que, mesmo que não seja histórico, é verdadeiro em significado e que a fé exige um salto além da razão.

No entanto, tanto os racionalistas quanto os que exaltam o “absurdo” parecem ignorar um ponto essencial: a revelação moderna ensina que essa história não pertence apenas ao passado remoto, mas ao nosso próprio futuro. Assim, nos ensinaram que devemos ser como o antigo profeta:

“Portanto, é necessário que sejam corrigidos e provados, assim como Abraão, a quem foi ordenado oferecer o único filho.” (Doutrina e Convênios 101:4).

Após a marcha de mais de 1.400 quilômetros conhecida como Acampamento de Sião (que aparentemente terminou sem êxito), alguém perguntou a Brigham Young o que ele havia ganhado com aquilo. Ele respondeu: “Tudo o que fomos buscar: experiência”. O Profeta Joseph Smith ensinara que Deus queria formar um núcleo de homens que tivessem oferecido a vida e feito um sacrifício tão grande quanto o de Abraão.

provação de Abraão
Imagem: “Abraão e Isaque”, por William Whitaker

O propósito divino das provações

O princípio é claro: compromisso verdadeiro não é agir sem direção, mas redobrar o esforço quando sabemos para onde estamos indo. Não foi um salto no escuro. As escrituras mostram que Abraão teve visões do Filho do Homem e recebeu promessas (ver Gênesis 15:12; João 8:56). O livro de Abraão declara que ele fora escolhido antes de nascer (ver Abraão 3:22–24). Ele não agiu em ignorância, mas com confiança fundamentada em revelação.

Nos ensinaram que somos descendência de Abraão, seja por nascimento no convênio ou por conversão (ver Doutrina e Convênios 84:33–34). Tornar-se herdeiro das promessas implica também assumir as responsabilidades de Abraão (ver Doutrina e Convênios 132:30–32). Vivemos em uma época que fala muito de direitos e pouco de deveres. No evangelho, privilégios e responsabilidades caminham juntos.

Há sacrifícios. Contudo, os profetas lembram que não se trata realmente de perder algo, mas de trocar o temporário pelo eterno. Como considerar sacrifício entregar um punhado de pó quando a promessa é herdar uma terra inteira? Muitas vezes achamos que sabemos o que é melhor para nós, mas o primeiro mandamento é amar a Deus acima de tudo. E, quando O colocamos em primeiro lugar, Ele frequentemente nos pede justamente aquilo que relutamos em entregar.

Abraão e Sara
Imagem: LDS Magazine

O que aprendemos com os testes abraâmicos hoje

Voltamos então à frase do Élder Hugh B. Brown: “Abraão precisava aprender algo sobre Abraão”.

Ele aprendeu que amava a Deus sem reservas. E, ao saber disso, pôde ser abençoado sem reservas. O apóstolo Paulo ensinou que Abraão creu que Deus poderia até ressuscitar Isaque, se necessário (ver Hebreus 11:19). Essa confiança absoluta transformou sua obediência em justiça.

Em meio às críticas, dúvidas e oposições do mundo moderno, permanece a verdade de que Deus nos prova porque nos ama. Ele não pode nos conceder todas as bênçãos até que estejamos preparados para recebê-las. Há também alegria no meio da prova, uma alegria mais profunda e refinada, que nasce da certeza de estar agindo segundo a vontade de Cristo.

A revelação moderna declara que Abraão, Isaque e Jacó receberam a exaltação, e assentaram-se em tronos, “porque nada mais fizeram do que as coisas que lhes foram ordenadas” (Doutrina e Convênios 132:37). Eles são chamados amigos de Deus, pais dos fiéis.

Hoje precisamos de homens e mulheres com essa mesma disposição: pessoas que, tendo feito tudo, permaneçam firmes. Que saibam ouvir a palavra viva do Senhor por meio de Seus profetas e que escolham permanecer fiéis. Que Deus nos ajude a responder ao chamado e a nos tornarmos verdadeiros filhos e filhas de Abraão.

Fonte: Meridian Magazine

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