Nossos celulares oferecem fuga, mas viver o discipulado na era digital nos convida a permanecer presentes o suficiente para ouvir Deus e amar bem as pessoas. Vivemos cada vez mais em dois lugares ao mesmo tempo.

Nosso corpo está à mesa do jantar, enquanto a mente vagueia em uma aba aberta do navegador. Nossas mãos se unem para orar, mas os polegares ainda se lembram do movimento automático de rolar a tela. Ouvimos a história de um filho, a preocupação de um cônjuge ou a confidência silenciosa de um amigo e, mesmo assim, uma parte de nós permanece ligada à possibilidade de que algo mais esteja acontecendo em outro lugar.

Isso não é apenas um problema de produtividade, nem somente uma reclamação sobre tecnologia. No fundo, é um problema de atenção — e atenção não é uma escolha neutra. É uma das formas mais importantes de arbítrio que exercemos ao longo do dia.

Aqui está a ideia central, apresentada com cuidado: estar presente vai além de ter atenção, é parte do discipulado. Quando o evangelho restaurado nos convida a viver com “olho simples à glória de Deus”, ele ensina uma maneira de viver a vida, os relacionamentos e a adoração por inteiro. E se isso parecer algo difícil, está tudo bem. Deve parecer.

Mas também deve parecer possível, porque o evangelho raramente pede que sejamos perfeitos; pede que estejamos dispostos. Aquilo que prende sua atenção molda silenciosamente seu discipulado.

Distração
Imagem: Mais Fé

A crise de atenção que não gostamos de nomear

Existem causas óbvias: agendas cheias, redes sociais, o ritmo acelerado da nossa vida atual. Mas esses são apenas sintomas superficiais, de algo mais profundo: o que poderíamos chamar de a tirania do “em outro lugar”.

Essa tirania é a suposição de que a vida real está acontecendo em algum lugar diferente de onde você está agora, como: na próxima mensagem, na próxima notícia, na próxima atualização, na próxima comparação. É uma forma de deslocamento espiritual. Você está perto da sua própria vida, mas não totalmente dentro dela.

Como isso é socialmente aceito, raramente parece um ato de rebeldia. Parece estar informado, conectado, atento.

Mas a visão do evangelho sobre uma vida centralizada em Cristo não é estar “por dentro de tudo”. É estar dentro das coisas — totalmente presente e consagrado.

“Olho fitos”: se concentrar em Deus

Em Doutrina e Convênios 88, o Senhor faz uma promessa:

“Se vossos olhos estiverem fitos em minha glória, todo o vosso corpo se encherá de luz.” (D&C 88:67).

Em seguida, Ele acrescenta uma instrução que merece nossa atenção:

“Portanto, santificai-vos, para que vossa mente concentre-se em Deus.” (D&C 88:68).

Essas palavras ecoam também em Mateus 6:22 e Doutrina e Convênios 82:19. Observe o ensinamento.

“Fitos” não significa apenas algo intenso. Significa inteiro, sem se fragmentar. Uma mente que não está dividida entre muitas preocupações, um coração que não fica oscilando entre reverência e inquietação.

A “luz” prometida vem como capacidade, e não é apenas uma recompensa. A promessa é que além de Deus ficar satisfeito, nós nos tornaremos mais capazes de receber, discernir e compreender. A atenção é o meio pelo qual recebemos esse crescimento de Deus.

A santificação inclui aprender a direcionar a atenção. Ela vem pelo Espírito Santo à medida que nos arrependemos e guardamos nossos convênios. Quando o Senhor diz “santificai-vos”, Ele não quer dizer apenas “parem de fazer coisas erradas”, mas “tornem-se o tipo de pessoa cuja vida interior está voltada para Deus”, permitindo assim que o Espírito Santo habite conosco.

Nesse sentido, estar presente é diretamente ligado aos nossos convênios.

Atenção total
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Atenção plena, o tal do mindfulness

Vale reconhecer: o movimento moderno de mindfulness redescobriu algo que sempre foi verdadeiro. A atenção intencional ao momento presente realmente nos transforma, e a distração tem um custo alto.

Pesquisas mostram que, quando nossa mente se afasta do que estamos fazendo, nossa felicidade tende a diminuir, mesmo quando pensamos em coisas agradáveis. Ainda, outros estudos indicam que muitas pessoas se sentem tão desconfortáveis sozinhas com seus próprios pensamentos que preferem qualquer estímulo a simplesmente ficar em silêncio e refletir.

Sim, a atenção plena (mindfulness) é real.

Mas o evangelho acrescenta algo crucial: não é apenas atenção ao presente, é a atenção consagrada a Deus e às pessoas ao nosso redor. A presença precisa ser acompanhada de propósito, moldada pelo amor, pela gratidão, pela adoração e pelos convênios.

Em termos simples: discípulos não apenas vivem o momento; eles vivem o momento com Deus.

Distração como forma de fuga espiritual

Se presença é a prática, o que é a distração – espiritualmente falando? Muitas vezes, não é essencialmente preguiça. É uma fuga.

  • Evitamos o silêncio — porque o silêncio revela o que carregamos.
  • Evitamos a fraqueza — porque a quietude nos torna honestos.
  • Evitamos as pessoas — porque atenção profunda exige vulnerabilidade.
  • Evitamos Deus — porque Deus frequentemente fala nas coisas que apressadamente ignoramos.

Por isso, os celulares são um teste tão atual de discipulado. Não são só ferramentas, mas ‘portas de saída portáteis’. Com um pequeno gesto, você pode sair da sala, sem sair da sala.

Por isso também que “usar menos o celular” raramente resolve sozinho. A questão é mais profunda e envolve perguntar-se: “O que estou evitando sentir? O que estou evitando enfrentar? E o que estou evitando ouvir?”

O evangelho de Jesus Cristo é paciente, mas não é casual: a vida de fé nos direciona para Deus, para nosso próximo, para nossas responsabilidades, para nossas revelações pessoais.

Atenção aos outros
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O verbo que muitas vezes ignoramos: observar

Nas escrituras, a obediência frequentemente está ligada à atenção. Em Mosias 4:30, o rei Benjamim aconselha:

“Se não tomardes cuidado com vós mesmos e vossos pensamentos e vossas palavras e vossas obras; e se não observardes os mandamentos de Deus nem continuardes tendo fé no que ouvistes concernente à vinda de nosso Senhor, até o fim de vossa vida, perecereis. E agora, ó homem, lembra-te e não pereças.”

Logo, isso não é apenas cumprir regras, mas viver com consciência do que acontece dentro de nós e ao nosso redor. No Novo Testamento, oração e vigilância também aparecem juntas. Em Colossenses 4:2 lemos:

“Perseverai em oração, velando nela com ação de graças.”

O Livro de Mórmon descreve Mórmon como alguém de “percepção rápida.” (Mórmon 1:2). Antes de ser historiador, comandante ou profeta, ele era alguém atento. Mais tarde, ele lamenta que seu povo não percebeu que o Senhor os havia poupado anteriormente (Mórmon 3:3). Eles não reconheceram a mão do Senhor em sua própria história.

Essa é a tragédia da graça despercebida: bênçãos chegam, avisos são dados, convites são feitos — mas estamos distraídos demais para perceber. As escrituras tratam disso como um perigo espiritual.

Uma breve observação sobre os celulares

Quando se fala de distração digital, costuma-se focar apenas no conteúdo. Isso importa, mas há algo mais sutil: até a simples presença do celular pode retirar a atenção.

Alguns estudos sugerem que apenas ter o aparelho por perto já consome parte dos recursos mentais. Ao mesmo tempo, a atenção humana é complexa e depende do contexto.

Mesmo assim, a maioria de nós percebe algo sem precisar de pesquisa: quando a atenção está dividida, os relacionamentos se tornam mais superficiais, as orações perdem sua profundidade e a adoração se torna distraída. E, talvez o mais importante, nossa capacidade de amar bem diminui — não porque deixamos de nos importar, mas porque deixamos de perceber.

Concentrar-se em Deus
Imagem: Mais Fé

Passo 1: Preste atenção

Comecemos com a disciplina mais simples e mais difícil: prestar atenção de propósito ao momento presente.

No contexto do evangelho, isso significa:

  1. Prestar atenção ao que é real: não ao que é imaginado ou temido.
  2. Prestar atenção ao que é sagrado: a mão do Senhor nas coisas simples, as necessidades ao redor, os sussurros do Espírito.
  3. Prestar atenção ao que está moldando você: porque aquilo a que damos atenção molda nossos desejos.

A santificação deve ser praticada.

Passo 2: Tornar o olhar mais simples

Uma vida dispersa raramente é transformada por mudanças radicais, mas por pequenas e repetidas escolhas. Algumas práticas simples:

1. Consagre o primeiro olhar do dia

Em vez de começar com o celular, comece com oração, escrituras ou alguns minutos de silêncio. O primeiro foco do dia costuma moldar o restante.

2. Crie “altares” sem celular

Momentos de atenção total podem ser ofertados a Deus. Alguns exemplos práticos são:

  • Refeições sem telefone.
  • Últimos minutos do dia dedicados à gratidão.
  • Reunião sacramental tratada como adoração, não como seu fundo sonoro.
  • Visitas de ministração, em encontros reais.

Estas são formas de dizer: este momento é sagrado.

3. Pratique a “observação santa”

Escolha uma pessoa por dia para perceber com mais atenção. Faça uma pergunta sincera, lembre-se de um detalhe, ofereça um elogio verdadeiro a ela. Amar envolve prestar atenção.

Atenção em família
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Passo 3: Testemunhe a vida que você está vivendo

O “testemunhar” está presente em toda a vida de convênios. Portanto, testemunhar espiritualmente é poder dizer: eu estava ali, vi, lembrei e não perdi o que importava.

Quando estamos presentes, nossa vida se torna mais coerente, e menos fragmentada, porque realmente a vivemos. Assim, não buscamos atenção apenas para nos sentirmos calmos, mas para nos tornarmos mais fiéis.

Em uma mensagem da Primeira Presidência, o Presidente Dieter F. Uchtdorf citou a frase “o para sempre é composto de agoras” e refletiu sobre o significado de viver o presente, onde o discipulado realmente acontece.

Se a eternidade é formada por momentos presentes, a pergunta não é apenas se seremos fiéis no fim da vida, mas se seremos fiéis hoje – nesta conversa, nesta ordenança, nesta dificuldade, nesta pergunta de uma criança, neste sussurro do Espírito.

Um cotidiano mais cheio da luz

Imagine uma ala, uma família ou um grupo de amigos decidindo ser mais presentes, como aprendemos até aqui. A reunião sacramental seria menos algo a suportar e mais algo a receber. A ministração seria menos uma tarefa e mais um cuidado. Os lares teriam menos ruído digital e mais conversa, risos e silêncio real. Então este seria um silêncio onde a oração pode realmente acontecer.

Com o tempo, perceberíamos algo esperançoso: a atenção é um dom que ainda podemos oferecer a Deus e uns aos outros. Não perfeitamente. Não o tempo todo. Mas com sinceridade, e cada vez mais.

Porque, no evangelho, estar presente não é apenas uma técnica de bem-estar. Ajuda-nos a guardar mandamentos e viver com o olhar voltado para a glória de Deus. E esse tipo de ‘inteireza’ enche o cotidiano de luz.

Fonte: Public Square Magazine

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