O estudioso moderno se aproxima da Bíblia como alguém que se aproxima de um arquivo em um prédio condenado, cuidadoso para não sujar os punhos com poeira e bastante certo de que não há nada vivo dentro das gavetas. Ele puxa uma gaveta, observa a ferrugem, cataloga o conteúdo e, em nenhum momento, pergunta se o edifício já foi um templo.

Nossa leitura do Êxodo tem sofrido mais com esse hábito de manuseio cuidadoso e estéril. Três gerações de comentaristas têm se ocupado com a salinidade do Mar Vermelho e o conteúdo calórico do maná, enquanto a Voz que trovejou do Sinai permanece sem resposta.

Para o olhar desencantado, a sarça ardente é uma curiosidade botânica. Para o santo, ela é o rasgar de um véu entre dois mundos, e o solo sob ela é santo. Quando lemos o Êxodo como uma sequência de acontecimentos antigos em vez de um padrão vivo ainda se desdobrando em nós, já cometemos o erro fundamental do Faraó: decidimos que os seres humanos são coisas a serem explicadas, em vez de almas no longo trabalho de se tornarem algo.

Se desejamos recuperar o assombro de nossa própria libertação, precisamos parar de ler o Êxodo como um relato de viagem e começar a lê-lo como um texto de templo, uma narrativa sagrada que carrega dentro de si todo o peso do que o Senhor pretende fazer com um ser humano, da mesma forma que uma semente carrega um carvalho ou um anel de casamento carrega um matrimônio.

Hugh Nibley chamou o templo de um “modelo em escala do universo”. No evangelho restaurado, não apenas estudamos a história. Nós a vivemos. A palavra para essa vivência é liturgia: o serviço ordenado de nossos convênios, a passagem do caos do mundo decaído para a ordem da presença de nosso Pai.

Considere o que o Senhor mostrou a Moisés antes mesmo de enviá-lo ao Egito. Em Moisés 1:27–39, o Senhor revelou toda a criação e então declarou: “Pois eis que esta é minha obra e minha glória: Levar a efeito imortalidade e vida eterna do homem”.

Moisés precisava ver a arquitetura antes de poder caminhar por ela. O Êxodo nunca foi um acidente político. Foi um convênio pré-mortal sendo cumprido no tempo (ver Abraão 3:22–26).

Assim como o Senhor organizou os elementos físicos da Terra a partir de matéria bruta e caótica, Ele busca organizar a matéria bruta e caótica do coração humano. Subimos “graça por graça”, degrau por degrau (Doutrina e Convênios 93:13). E o modelo para essa ascensão está escrito em duas passagens notáveis no livro de Êxodo.

O despertar em sete partes (Êxodo 3:7–9)

O Egito não é apenas um lugar no mapa. É uma condição da alma: o lugar onde a economia do medo de Faraó diz que você não é nada além dos tijolos que produz. Faraó não precisa de correntes quando já o convenceu de que você é o tipo de coisa que não pode se mover. Um homem que acredita que é um tijolo se empilhará sozinho.

Em Êxodo 3:7–9, o Senhor faz uma declaração em sete partes a Moisés a partir da sarça ardente. Essas sete afirmações refletem os sete dias da criação e os sete estágios de uma alma despertando para sua própria libertação:

1. “Tenho visto atentamente a aflição do meu povo.”

Aqui termina o isolamento solitário do sofrimento. Jeová vê por Si mesmo. Leí suplicou: “Despertai, meus filhos; revesti-vos da armadura da retidão. Sacudi as correntes com que estais presos e saí da obscuridade, levantando-vos do pó” (2 Néfi 1:23). O primeiro ato da criação, e da libertação, é a luz. Você é visto.

2. “(…) tenho ouvido o seu clamor.”

O cosmos não é uma máquina surda. Quando Joseph Smith clamou da Cadeia de Liberty: “Ó Deus, onde estás?” (Doutrina e Convênios 121:1), os céus estavam ouvindo. Quando o povo de Alma clamou em cativeiro, “o Senhor os fortaleceu para que pudessem suportar suas cargas com facilidade” (Mosias 24:14). Ouvir precede a libertação. Sempre foi assim.

3. “Conheço as suas dores.”

Em hebraico, yada é íntimo, relacional; é a mesma palavra usada para os laços humanos mais profundos. O Senhor não possui dados sobre nós. Ele possui um entendimento vivido de nós, profundo e específico, como uma mãe que reconhece qual tosse na noite pertence a qual filho. Este é o motor da Expiação: Cristo “tomará sobre si as dores e enfermidades de seu povo… para que saiba, segundo a carne, como socorrer seu povo” (Alma 7:11–12). Ele não é um teórico do sofrimento. Ele participa dele.

4. “Desci para livrá-lo.”

No antigo Oriente Próximo, os deuses não desciam. A descida pessoal de Jeová subverte toda a hierarquia da distância divina. Quando Néfi contemplou a condescendência de Deus, viu o Filho de Deus “andando entre os filhos dos homens” (1 Néfi 11:24). O Salvador não grita instruções do topo. Ele desce ao vale onde estamos, e o pó do caminho se prende aos Seus pés, como acontece com qualquer homem que realmente caminhou por algum lugar.

5. “Para livrá-lo da mão dos egípcios.”

A primeira separação. Assim como o Senhor separou a luz das trevas na primeira manhã do mundo, Ele separa a verdadeira história de quem somos da falsa história que Faraó nos contou. Somos “livres para escolher liberdade e vida eterna, por meio do grande Mediador de todos os homens, ou escolher cativeiro e morte” (2 Néfi 2:27). Liberdade é a recuperação da verdade.

6. “Para fazê-lo subir daquela terra.”

A grande mudança do caminho descendente para o caminho ascendente. Passamos de objetos sobre os quais se age para agentes convidados a agir. “Porque foram redimidos da queda, tornaram-se livres para sempre… para agir por si mesmos e não para sofrer a ação” (2 Néfi 2:26). Não somos tijolos. Não somos nossos diagnósticos. Somos seres no longo trabalho de nos tornarmos algo.

7. “Para uma terra boa e larga.”

A promessa de descanso. Mas a “boa terra” nunca foi apenas Canaã. O Senhor revelou que Israel “endureceu o coração e não pôde suportar sua presença; portanto, o Senhor, em sua ira… jurou que não entrariam em seu descanso enquanto estivessem no deserto, descanso esse que é a plenitude de sua glória” (Doutrina e Convênios 84:24). A terra prometida é o Santo dos Santos. Sempre foi.

caminho do convênio êxodo

A lei das estações: mover-se de graça em graça

Por que o Senhor não levou Israel de Gósen a Canaã em uma única noite?

Porque até mesmo Jesus Cristo “E a princípio não recebeu da plenitude, mas continuou de graça em graça, até receber a plenitude;” (Doutrina e Convênios 93:13). Se o próprio Filho de Deus amadureceu por meio de um processo, somos tolos ao esperar que nossa libertação chegue como um telegrama deslizado sob a porta antes do café da manhã.

O maná não podia ser acumulado. Precisava ser recolhido fresco a cada manhã (Êxodo 16:4, 19–20). A graça de ontem não nos isenta da obediência de hoje. Quando Israel murmurou pelas “cebolas e alhos” do Egito (Números 11:5), devemos parar para considerar o peso teológico completo dessa reclamação: um povo que havia testemunhado a abertura de um mar estava disposto a trocar sua liberdade por uma salada.

Eles não estavam apenas sendo nostálgicos. Estavam construindo uma narrativa na qual o deserto era insuportável, Moisés era incompetente e o Senhor havia falhado. A murmuração era uma acusação: um povo convidado a se tornar algo novo escolheu permanecer como objetos moldados pelas circunstâncias.

“Sim, e vemos que é justamente quando ele faz prosperar seu povo … então é quando endurecem o coração, esquecendo-se do Senhor seu Deus” (Helamã 12:2).

O deserto não é um desvio. É o currículo. E o Senhor é paciente. Não está atrasado.

A arquitetura do coração: os sete “Eu farei” (Êxodo 6:6–8)

Se o despertar em Êxodo 3 é a primeira luz antes do amanhecer, as promessas em Êxodo 6:6–8 são a investidura de poder, o plano pelo qual o Senhor organiza nosso caos interior em uma casa de ordem:

1. “Eu vos tirarei de debaixo das cargas dos egípcios.”

O sepultamento da vida antiga. Alma convidou: “(…) e agora, sendo que desejais entrar no rebanho de Deus… e sendo que estais dispostos a carregar os fardos uns dos outros, para que fiquem leves;” (Mosias 18:8). Somos sepultados no batismo para que “assim como Cristo ressuscitou… também andemos em novidade de vida” (Romanos 6:4).

2. “Eu vos livrarei da sua servidão.”

Uma coisa é sair do Egito. Outra é fazer o Egito sair de nós. Faraó é surpreendentemente portátil. Este é o trabalho do Espírito Santo: mudar não apenas o comportamento, mas a história que vivemos por dentro. “O Espírito do Senhor Onipotente… efetuou em nós, ou melhor, em nosso coração, uma vigorosa mudança, de modo que não temos mais disposição para praticar o mal” (Mosias 5:2). “Dar-vos-ei um coração novo” (Ezequiel 36:26).

3. “Eu vos resgatarei com braço estendido e com grandes juízos.”

A redenção é um abraço. “O Senhor redimiu minha alma… estarei eternamente envolvido pelos braços de seu amor.” (2 Néfi 1:15). Ele não redime à distância. Ele alcança.

4. “Eu vos tomarei por meu povo.”

Uma linguagem de convênio. Uma adoção espiritual. “Sereis chamados filhos de Cristo… porque eis que neste dia ele vos gerou espiritualmente;” (Mosias 5:7).

5. “Eu serei vosso Deus.”

Cristo ressuscitado declarou: “Sede perfeitos como eu ou como vosso Pai Celestial é perfeito” (3 Néfi 12:48). Ele trilhou o caminho.

6. “Eu vos levarei à terra.”

O descanso do Senhor é Sua presença. “Muitos… entraram no descanso do Senhor” (Alma 13:12).

7. “Eu vo-la darei por herança: Eu sou o Senhor.”

A herança é tudo o que o Pai tem. Tornamo-nos coerdeiros com Cristo (Romanos 8:17).

Mas o padrão é apenas um meio. O alvo é Cristo. Se o padrão não nos levar a Ele, perdemos o propósito. “Falamos de Cristo… para que saibam a quem recorrer” (2 Néfi 25:26).

O Santuário da Entrega

O universo é o templo de Deus, mas sua alma é o Santo dos Santos que Ele deseja encher. Não com móveis. Com fogo.

“Os elementos são o tabernáculo de Deus; sim, o homem é o tabernáculo de Deus, ou melhor, templos” (Doutrina e Convênios 93:35).

A grande e terrível verdade no centro do Êxodo é esta: a única coisa em todo o cosmos que Deus não forçará a se organizar é o coração humano. E o coração, deixado a si mesmo, organizar-se-á em torno de si próprio, como um homem que rearranja incessantemente os móveis em um cômodo que se recusa a deixar.

O mundo de Faraó insiste que você é um objeto: um tijolo, um número, uma engrenagem em uma máquina que você não construiu e não pode ver. Mas o convênio não simplesmente o promove de objeto a sujeito. Ele o convida a tornar-se algo ainda mais radical: um agente cuja agência é dedicada ao serviço de algo maior do que o próprio eu.

A Terra Prometida pertence àqueles que aprenderam, ao longo de quarenta anos no deserto, a parar de construir sua identidade em torno de seu próprio sofrimento, de sua própria virtude, de seu próprio progresso espiritual, e a olhar, simples e completamente, para Ele.

O aperfeiçoamento pessoal nunca abriu esse portão. A entrega abriu.

“Porque qualquer que quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, esse a salvará” (Marcos 8:35).

A alma que chega ao Santo dos Santos deixou completamente de pensar em si mesma, perdida na obra, perdida no amor, perdida Naquele que desceu para encontrá-la.

A sarça ardia e não se consumia.

Essa é a promessa. Você passará pelo fogo do deserto e não será consumido, porque o fogo não é destruição. É a presença de Deus.

Ele está pedindo a você, assim como pediu a Moisés, que tire os sapatos dos pés. O lugar onde você está é santo.

“Sim, vinde a Cristo, sede aperfeiçoados nele e negai-vos a toda iniquidade; e se vos negardes a toda iniquidade e amardes a Deus com todo o vosso poder, mente e força, então sua graça vos será suficiente; e por sua graça podeis ser perfeitos em Cristo; e se pela graça de Deus fordes perfeitos em Cristo, não podereis, de modo algum, negar o poder de Deus. E novamente, se pela graça de Deus fordes perfeitos em Cristo e não negardes o seu poder, então sereis santificados em Cristo pela graça de Deus, por meio do derramamento do sangue de Cristo, que está no convênio do Pai para a remissão de vossos pecados, a fim de que vos torneis santos, sem mácula.” (Morôni 10:32–33).

Fonte: Meridian Magazine

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