A ideia de batismo costuma ser ligada ao Novo Testamento: João Batista, o rio Jordão e o início do ministério público de Jesus Cristo. Por isso, é normal a pergunta aparecer de forma bem direta: Adão e Eva, no começo da história humana, também foram batizados?
À luz do evangelho restaurado, a resposta é clara: Sim! E essa resposta não serve apenas para “matar uma curiosidade”. Ela ajuda a entender um princípio maior: o evangelho de Jesus Cristo: com fé, arrependimento, convênios e ordenanças, não começou tarde na história. Ele foi ensinado desde o princípio.

O evangelho existia desde os dias de Adão
O Velho Testamento, como chegou até nós, fala pouco sobre o sacerdócio maior e quase não descreve com detalhes as ordenanças do evangelho. Por isso, muitas perguntas ficam no ar. O estudo doutrinário apresentado por Robert L. Millet explica que, por causa desse silêncio do texto bíblico, é necessário depender do que foi revelado e restaurado por meio de Joseph Smith, em revelações, traduções e ensinamentos proféticos, para compreender como a autoridade divina operava desde Adão (Robert L. Millet, Os Profetas e o Sacerdócio no Velho Testamento).
Nesse mesmo estudo, aparece uma declaração decisiva: Adão foi o primeiro cristão na Terra e “foi batizado, confirmado, nascido do Espírito, vivificado no homem interior, ordenado e recebido na santa ordem de Deus” (comparar com Moisés 6:64–68, como o próprio texto indica).
Mas existe um detalhe que deixa essa conversa ainda mais rica (e ajuda a entender o ponto de Robert L. Millet sobre o “silêncio” do Velho Testamento): mesmo sem explicar como Adão e Eva receberam instruções, autoridade ou ordenanças, o próprio texto bíblico mostra que aquela família já vivia um padrão de obediência e adoração ao Senhor.
O Velho Testamento não descreve o “processo”, mas revela os “frutos”. Ele não conta todos os bastidores, porém deixa pistas claras de que havia ensino espiritual dentro daquela casa e que os filhos não estavam agindo por instinto religioso, mas por um padrão aprendido.
Um exemplo direto é o tema do sacrifício. Em Gênesis 4, vemos que Abel oferece “dos primogênitos das suas ovelhas e da sua gordura” e que o Senhor aceita a oferta (Gênesis 4:4). Isso é significativo porque sacrifício não é algo que surge do nada, como uma ideia aleatória. Para alguém oferecer uma oferta desse tipo, ele precisa, no mínimo, ter aprendido que: Deus existe e é digno de adoração; Deus aceita (ou rejeita) ofertas; existe um modo correto de obedecer à vontade do Senhor; e o que se oferece é, além de algo material, carrega um significado espiritual.
Ou seja, mesmo que o texto bíblico não detalhe quem ensinou ou como foi ensinado, ele mostra que havia uma prática sendo transmitida dentro daquela família, e isso combina com a ideia de que o evangelho, com seus princípios e padrões, já estava sendo vivido desde o começo.
O Livro de Moisés: por que ele responde perguntas que Gênesis não responde
Uma parte essencial dessa resposta vem do Livro de Moisés, que é a tradução inspirada de Joseph Smith de Gênesis 1:1 até Gênesis 6:13, com revelações adicionais que não aparecem na Bíblia como a temos hoje. Esse material ensina que Moisés registrou palavras dadas por Deus (ver Moisés 1:1; 1:40; 2:1), mas que, “por causa de iniquidade”, muitas verdades claras e preciosas foram suprimidas ou perdidas e não chegaram preservadas no texto de Gênesis (ver Moisés 1:23; 1:41; 1 Néfi 13:26–28).
Por isso, o Senhor prometeu levantar um profeta nos últimos dias para restaurar essas palavras ao alcance dos filhos dos homens (ver Moisés 1:41; 2 Néfi 3:5–11). Esse cumprimento acontece quando os escritos de Moisés são revelados ao profeta Joseph Smith durante a tradução/revisão inspirada da Bíblia entre junho de 1830 e fevereiro de 1831 (resumo de Moisés 1–8).
Além de servir como prefácio para a Criação e os escritos de Moisés, Moisés 2–8 traz detalhes que ajudam diretamente neste tema, incluindo evidências de que Adão e Eva e seus descendentes desfrutaram das bênçãos do evangelho de Jesus Cristo (ver Moisés 5–8).
Como o batismo de Adão está registrado nas escrituras
O ponto mais objetivo está em Moisés 6. O texto descreve o batismo de Adão com linguagem concreta:
- Adão é “arrebatado pelo Espírito do Senhor”, levado à água, colocado debaixo da água e tirado dela (Moisés 6:64).
- “O Espírito de Deus desceu sobre ele”, ele “nasceu do Espírito” e foi “vivificado no homem interior” (Moisés 6:65).
- Ele ouve a confirmação do céu: “Foste batizado com fogo e com o Espírito Santo” (Moisés 6:66).
- E o Senhor conecta essa ordenança ao caminho do convênio e à filiação espiritual: “Eis que tu és um em mim, um filho de Deus; e assim possam todos tornar-se meus filhos” (Moisés 6:67–68).
Esse conjunto é importante porque mostra o padrão completo: batismo por água e ação do Espírito, não como detalhe opcional, mas como parte do que torna o batismo espiritualmente real.

E Eva? O que pode ser afirmado com segurança
O Livro de Moisés descreve explicitamente o batismo de Adão. Sobre Eva, uma fonte profética direta esclarece a questão. No discurso “O convênio eterno”, o Presidente Russell M. Nelson ensina:
“Adão e Eva aceitaram a ordenança do batismo e começaram o processo de serem um com Deus. Eles haviam entrado no caminho do convênio.”
Essa declaração responde de forma simples e forte: Eva também aceitou a ordenança do batismo, e isso é apresentado como o início do caminho do convênio para os dois.
O batismo não era uma “novidade” do primeiro século
A primeira referência explícita ao batismo no Novo Testamento fala de João Batista. Quando foi questionado pelos líderes judeus, João não foi interrogado sobre o rito em si, mas sobre sua autoridade para realizá-lo. O que mostra que a prática da imersão já era comum entre os judeus. Henry F. Brown (1965, p. 2) explica que “entre os judeus, a purificação por lavagem de água era bem conhecida. O sistema levítico de adoração era de diversas abluções” (Lv 9:10).
De fato, o conceito e a prática da imersão ritual para purificação aparecem várias vezes no Antigo Testamento:
- Na entrada do novo sacerdote ao serviço no templo (Lv 8:6);
- No trabalho diário dos sacerdotes antes de entrar na tenda da congregação e diante do altar (Êx 30:18);
- No Dia da Expiação, quando o sumo sacerdote se banhava antes de oficiar (Lv 16:4, 24);
- E nos rituais de purificação de impurezas e doenças, como no caso do leproso curado (Lv 14:8; 2 Rs 5:14).
Essas referências mostram que o batismo não surgiu repentinamente com João Batista: ele se baseava em uma tradição já existente de imersões purificadoras, agora com um novo significado: o de aliança e arrependimento. João trouxe o símbolo antigo para um propósito renovado: preparar o povo para receber o Salvador e o evangelho do convênio.

Água e Espírito: por que o batismo precisa das duas partes
O Guia para Estudo das Escrituras (“Batismo, Batizar”) ensina que o batismo por imersão na água, realizado por autoridade, é a ordenança introdutória do evangelho e deve ser seguido do recebimento do dom do Espírito Santo para que seja completo (ver também 2 Néfi 31:13–14). Esse mesmo guia declara: “Adão foi o primeiro a ser batizado” (Moisés 6:64–65).
Essa ênfase aparece também em Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Joseph Smith. Joseph Smith ensina que o batismo de água sem o batismo de fogo e o Espírito Santo “não tem valor”, porque estão obrigatórios e inseparavelmente ligados, e reafirma João 3:5: nascer “da água e do Espírito”. Ele também explica que o “dom do Espírito Santo” é recebido pela imposição de mãos por autoridade e que o batismo de água, sem a outra parte, é “meio batismo”.
Essa doutrina se conecta com Moisés 6 de forma impressionante: depois da imersão, o texto descreve o Espírito de Deus descendo sobre Adão, seu novo nascimento espiritual e a declaração de que foi batizado “com fogo e com o Espírito Santo” (Moisés 6:65–66).
O convênio eterno: Adão e Eva no caminho do convênio
No discurso “O convênio eterno”, o Presidente Russell M. Nelson ensina que o batismo é a porta de entrada para o caminho do convênio. Ele mostra que esse convênio é eterno, existente desde antes da fundação do mundo, e cita as palavras do Senhor a Adão após seu batismo:
“Tu és segundo a ordem daquele que foi sem princípio de dias ou fim de anos… Eis que tu és um em mim, um filho de Deus; e assim possam todos tornar-se meus filhos” (Moisés 6:67–68).
A mensagem é que o batismo não é apenas um rito simbólico: ele marca o começo de um relacionamento real com Deus, no qual Ele abençoa, muda e aproxima Seus filhos Dele. E, segundo o Presidente Nelson, foi exatamente isso que aconteceu com Adão e Eva quando aceitaram a ordenança do batismo.
No fim, essa doutrina aponta para uma ideia poderosa: desde o início, Deus ensinou o evangelho de Jesus Cristo e convidou Seus filhos a se achegarem a Ele por meio de convênios e ordenanças. O batismo não aparece como um “capítulo tardio” da história sagrada, mas como parte do plano desde Adão e Eva, um convite para começar, também hoje, o mesmo caminho do convênio que leva de volta à presença do Pai.
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