Thiago Luna Dias ainda se lembra de como aquele sábado começou como qualquer outro. Era cedo, e ele se preparava para mais um pedal com o tio e um amigo, um hábito que fazia parte de sua rotina algumas vezes por semana em Recife.

Nascido em Maceió e criado em Recife desde os dez anos, Thiago levava uma vida ativa. Havia servido na Missão São Paulo Sul entre 2017 e 2019 e, depois disso, estava retomando a rotina normal: estudava administração, trabalhava como vendedor externo em uma empresa siderúrgica e servia na Igreja como segundo conselheiro do bispado.

Naquele sábado, como de costume, eles saíram pedalando de Boa Viagem em direção ao Marco Zero. O passeio estava dentro da rotina de sempre. Nada indicava que aquele dia seria diferente, até o momento de voltar para casa.

Normalmente, o grupo retornava pela praia, um caminho que Thiago já conhecia bem. Mas, naquele dia, seu tio sugeriu algo diferente, e mesmo achando perigoso, decidiram tomar um caminho mais rápido. Foi nesse trajeto que aconteceu o acidente

O acidente

Thiago não se lembra do impacto, nem dos momentos seguintes. Na verdade, ele não se lembra de quase nada daquele período. Quando chegou ao hospital, estava inconsciente.

Os médicos disseram à família que a situação era extremamente grave. Seu estado era considerado crítico e havia risco iminente de morte. A notícia abalou profundamente seus pais, que também precisaram ser atendidos na emergência ao receber a informação.

As lesões eram severas. Thiago sofreu múltiplas fraturas: na tíbia e na fíbula da perna, no antebraço direito e na mandíbula. Também teve um traumatismo craniano grave, com sete lesões no cérebro, além de uma parada cardíaca e também uma parte da audição do ouvido direito foi perdida.

Ele também precisou passar por uma cirurgia de emergência no braço para evitar que o antebraço fosse amputado, precisou ser sedado e respirar por aparelhos.

“Eu fiquei vinte e um dias apagado. Não lembro de nada. Só lembro dos últimos dias no hospital e do que me contaram depois”, recorda.

Foi nesse momento de incerteza que sua esposa enfrentou um dos períodos mais difíceis de sua vida. Ela não sabia se o marido sobreviveria. Em meio à angústia e ao medo, decidiu ler a bênção patriarcal de Thiago. 

Enquanto lia aquelas palavras, algo mudou dentro dela. Mesmo em meio à dor daquele momento, ela sentiu uma certeza em seu coração de que ele sobreviveria. Aquela impressão espiritual trouxe paz em meio ao caos e se tornou uma força silenciosa que a ajudou a permanecer firme ao lado dele durante todo o processo que viria pela frente.

Um encontro espiritual em meio à luta pela vida

Enquanto isso, Thiago travava sua própria batalha entre a vida e a morte no hospital. Foi durante esse período que ele viveu uma experiência que descreve como profundamente espiritual. Ele conta que teve uma visão que nunca esqueceu.

Em meio à luta pela vida, ele se lembra de uma cena que permanece viva em sua memória. Segundo ele, parecia que Jesus Cristo estava ali, vestido de branco.

“Eu lembro como se fosse Jesus Cristo vestido de branco. Não sei se foi uma visão, um sonho… mas lembro Dele falando comigo.”

Naquela experiência, Thiago diz ter ouvido palavras que lhe trouxeram uma paz inesperada naquele momento tão crítico.

“Ele falou: ‘Thiago, não temas. O Senhor te conhece. O Senhor vai te curar.’”

Quando acordou, mesmo ainda no hospital e em meio à recuperação, algo dentro dele parecia diferente. Ele diz que tinha uma certeza muito forte de que iria sobreviver.

“Desde que acordei, eu sabia que ia sair do hospital e continuar minha vida normal.”

Enquanto ele lutava para sobreviver, muitas pessoas também estavam lutando por ele de outra forma: por meio da fé.

Mais tarde, ele descobriu que a esposa do presidente da missão Recife-Sul, sister Martins, havia organizado algo especial entre os membros da ala. Ela montou uma lista para que casais jejuassem por Thiago, um casal a cada dia.

“Todo dia tinha alguém jejuando por mim”, conta ele.

Além das orações e jejuns, Thiago também recebeu bênçãos do sacerdócio dadas por seu pai e por líderes da Igreja durante o período em que estava hospitalizado.

Os médicos haviam estimado que ele poderia ficar internado entre quatro meses e um ano, dependendo da evolução do quadro. Mas a recuperação tomou um rumo que poucos esperavam.

Depois de dois meses, Thiago recebeu alta.

A recuperação, no entanto, estava longe de terminar. Ele saiu do hospital em uma cadeira de rodas e passou a enfrentar um longo processo de reabilitação. Precisou de fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e acompanhamento constante para recuperar movimentos e funções do corpo.

Nos primeiros dias após sair do hospital, o impacto do traumatismo craniano ainda era evidente. Thiago conta que, por um tempo, seu comportamento lembrava o de uma criança, algo comum em casos de lesões cerebrais graves.

Com o passar do tempo, porém, ele começou a compreender a dimensão do que havia acontecido.

“Depois que eu saí do hospital (…) eu fui percebendo o quão grave foi o acidente. E o quanto o Senhor me abençoou de verdade. Porque hoje eu tô trabalhando, falando, em pé (…) pelo que foi acidente, tem muita gente, muita gente que morre por muito menos do que eu tive, por muito menos do que eu sofri.”, diz.

Hoje, Thiago voltou a trabalhar, estudar e levar uma vida relativamente normal. Ainda assim, algumas marcas do acidente permanecem. Ele perdeu parte da audição do ouvido direito e convive com um zumbido constante.

“Fica um zumbido o dia inteiro. Parece que tem um grilo passando fome dentro do meu ouvido”, conta.

A perna que foi fraturada ainda dói quando ele corre ou joga futebol. Mas uma das mudanças mais difíceis para ele está na mão direita. Antes do acidente, Thiago tocava piano e era pianista da ala.

“Eu gostava muito de piano e me dedicava muito. Inclusive tinha comprado um piano em fevereiro… e o acidente foi em março.”

“O Senhor transforma a fraqueza em fortaleza”

Hoje, os movimentos da mão direita ficaram limitados.

“A única forma que consigo tocar é com o dedo indicador”, explica.

Mesmo assim, ao olhar para sua história, Thiago não fala com amargura. Pelo contrário, ele vê sua experiência como uma prova de que Deus conhece cada pessoa individualmente.

“Muita gente morre por muito menos do que eu tive”, diz ele.

Hoje, ao compartilhar sua história, Thiago diz que sua mensagem para quem está passando por momentos difíceis é simples: continuar tendo fé e permanecer próximo de Deus, mesmo quando as respostas não parecem claras. Ele acredita que, quando uma pessoa se humilha diante do Senhor e confia Nele, as fraquezas podem se transformar em força.

“Tenho certeza que o Senhor transforma a fraqueza em fortaleza”, afirma. “Tenho convicção disso.”

Para ele, a fé não significa ausência de dificuldades, mas a certeza de que Deus conhece cada um de Seus filhos individualmente, suas dores, suas lutas e suas limitações. E é justamente nesse reconhecimento que nasce a esperança de seguir em frente.

“Eu sei que o Senhor me conhece. Conhece você, conhece cada detalhe da nossa vida”, diz Thiago. “A gente não pode ficar fraco. A gente tem que procurar o Senhor.”

Esse artigo foi escrito com base no relato de Thiago Dias.

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