A Expiação nos torna fortes

“O propósito do evangelho é transformar
criaturas comuns em cidadãos celestiais”
Élder Dallin H. Oaks

Desde muito criancinha, tenho sido ensinada, em casa e na Igreja – através de escrituras, testemunhos e revelações modernas –, sobre o Salvador Jesus Cristo: Seu caráter divino, Sua missão redentora, Sua vida e ministério na terra, Seu aparecimento a povos da América antiga, Seu Sacrifício Expiatório, Seu infinito amor e tudo mais o que se possa falar (de verídico) a respeito Dele.

Sempre entendi e senti tudo com muita clareza, mas parece que, como toda grande descoberta na vida, chega um dia em que a cabeça faz um “clique”. (Arquimedes não gritaria um “eureka!” mais feliz e pleno que o meu! 🙂 ) Não há nenhuma novidade essencial nos ensinamentos e na doutrina, mas, de alguma forma especial, durante esse “clique”, nosso testemunho é completamente renovado. Sem dúvida, é o Espírito Santo testificando diretamente ao nosso espírito. E, como aponta o Presidente Spencer W. Kimball, em O Milagre do Perdão, não há comunicação mais forte que essa!

Já passei por vários “cliques”, mas nenhum como o que tive acerca do Sacrifício Expiatório de Jesus Cristo. Aconteceu ao ler um discurso do Élder David A. Bednar, proferido em 23 de outubro de 2001, numa devocional na Universidade Brigham Young (sigla BYU, de Brigham Young University). Na ocasião, ele era presidente da BYU em Idaho. O discurso, intitulado “In The Strength of the Lord” (em bom português: “Na Força do Senhor”), me chegou pelas mãos da minha grande amiga-quase-prima Alexsandra Freitas. As palavras que li simplesmente MUDARAM meu entendimento sobre o modo como a Expiação do Salvador pode ter efeito real nas nossas lidas do dia-a-dia, nessa vida ordinária que levamos eu e você, com as muitas dificuldades e as inúmeras felicidades provenientes das pequenas e costumeiras situações.

O poder redentor da Expiação: em Cristo somos vivificados

Antes de falar sobre o que mudou em mim, vou falar, brevemente, do poder redentor que advém da Expiação do Salvador.

O apóstolo Paulo, explicando à Igreja em Corinto sobre a ressurreição de Cristo, afirmou o que lemos em 1 Coríntios 15:22 (sobre ressurreição, ler o capítulo todo):

“Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo”.

Dizer que a humanidade morre em Adão significa dizer, em poucas palavras, que a Grande Queda nos trouxe duas[1] conseqüências:

1)Morte física – é a separação do corpo e do espírito, os elementos da alma humana.
2)Morte espiritual – é nosso estado pecaminoso, que desagrada e nos afasta de Deus.

Nós, por nós mesmos e nossos esforços, nunca conseguiríamos vencer essas conseqüências. Todos nós, sem exceção, somos fracos e corruptos demais. Largados à própria sorte, estaríamos numa situação de miserabilidade irreversível! Mas nosso bom Pai Celestial, de quem emana um amor que não entendemos muito bem, enviou Seu filho Jesus Cristo para pagar o preço (ver João 3:16). No Jardim do Getsêmani, onde verteu sangue por todos os poros, e também na cruz, onde entregou Sua vida, Jesus expiou pelos pecados e falhas de toda a humanidade. No terceiro dia, levantou dos mortos. Venceu, assim, tanto a morte espiritual como a física. E porque Ele as venceu, Nele podemos ser vivificados das duas mortes. Em Cristo, a lei e a misericórdia foram devidamente cumpridas.

Jacó, filho de Leí, explica em 2 Néfi 9:6-7 (sobre Expiação, ler o capítulo todo):

“Pois assim como a morte tem efeito sobre todos os homens, para que seja cumprido o plano misericordioso do grande Criador, deve existir um poder de ressurreição e a ressurreição deve vir ao homem em razão da queda; e a queda veio em razão da transgressão; e porque os homens se tornaram decaídos, foram afastados da presença do Senhor.

Portanto é necessário que haja uma expiação infinita – porque se a expiação não fosse infinita, esta corrupção não poderia revestir-se de incorrupção. Portanto, o primeiro julgamento que recaiu sobre o homem deveria ter durado eternamente. E se assim fosse, esta carne teria que apodrecer e desfazer-se em sua terra mãe, para não mais se levantar”.

Um pouco mais à frente, nos versículos 11 e 12 do mesmo capítulo, Jacó conclui:

“E por causa do caminho de libertação de nosso Deus, o Santo de Israel, essa morte da qual falei, que é a física, libertará seus mortos; essa morte é a sepultura.

E essa morte da qual falei, que é a morte espiritual, libertará seus mortos; e essa morte espiritual é o inferno; portanto, morte e inferno deverão libertar seus mortos, e o inferno deverá libertar seus espíritos cativos e a sepultura deverá libertar seus corpos cativos; e o corpo e o espírito dos homens serão restituídos um ao outro; e é pelo poder da ressurreição do Santo de Israel”.

Nem todas as combinações de palavras, frases e expressão em todos sistemas semióticos humanos esgotariam o assunto e seus desdobramentos, mas eu já gostaria de passar para o outro aspecto da santa Expiação: o capacitador. É nele que está meu “clique”. 😉

O poder capacitador da Expiação: em Cristo somos fortalecidos

Vejamos que indescritivelmente maravilhoso: Jesus Cristo, além de pagar pelos nossos pecados e de ressuscitar dos mortos, assegurando à raça humana o único caminho para Deus, desceu abaixo dos anjos, ao escolher vir à Terra como um homem mortal. Ele conhece, por experiência durante Sua vida mortal, cada problema, cada dor, cada desconforto, cada dificuldade pelas quais passam os mortais durante a vida: fome, sede, frio, calor, humilhação, tentação, escárnio, pobreza material, perseguição, tudo enfim! E mais: Ele conhece a cada um de nós, individualmente, do jeitinho que somos, desde antes da fundação do mundo (ver D&C 93:23). Ele sabe em que pontos somos mais ou menos fortes, em que precisamos de ajuda, que coisas nunca conseguiríamos fazer por nossos esforços tão-somente.

Sabendo que, por nós mesmos, não somos capazes cumprir a plenitude dos requisitos, o Senhor nos concede Sua graça. Élder Bednar, no discurso a que me referi no começo desse texto, recorre ao Dicionário Bíblico, para definir a palavra graça:

“(…) É pela graça do Senhor que as pessoas, por meio da fé na Expiação de Jesus Cristo e pelo arrependimento de seus pecados, recebem força e auxílio para fazerem boas obras que de outra forma não seriam capazes de realizar, se tivessem que fazê-lo por seus próprios meios. Essa graça é o poder que possibilita aos homens e mulheres alcançarem a vida eterna e a exaltação, depois de terem realizado o máximo que podiam com seu próprio esforço” (Bible Dictionary, p. 697. Grifo meu).

Quando nossa capacidade humana – inegavelmente limitada e falha – de realizar, ver e suportar simplesmente se esgota, a graça de Cristo começa a agir nas nossas vidas, se assim permitimos. Isso é muito real! Acontece comigo o tempo todo. Miraculosamente, consigo fazer e entender coisas que, se não fosse pela graça de Cristo, estariam completamente fora do meu alcance. Em absoluto, sou a única a receber essa bênção.

Amon, em Alma 26:12, por exemplo, compartilha:

“Sim, sei que nada sou; quanto a minha força, sou débil; portanto não me vangloriarei de mim mesmo, mas gloriar-me-ei em meu Deus, porque com sua força posso fazer todas as coisas; sim, eis que fizemos muitos milagres nesta terra, pelo que louvaremos o seu nome para sempre”.

Em Moisés 6:31-32, lemos a promessa do Senhor a Enoque:

“E tendo ouvido essas palavras, Enoque prostrou-se ante o Senhor e falou perante o Senhor, dizendo: Por que é que encontrei graça aos teus olhos? Sou apenas um menino e todo o povo odeia-me, pois sou lento no falar; por que razão sou teu servo?

E o Senhor disse a Enoque: Vai e faze o que te ordenei e homem algum te ferirá. Abre tua boca e ela encher-se-á e dar-te-ei palavras, pois toda carne está em minhas mãos; e farei o que me parecer adequado”.

Exemplos não faltam. Nós o encontramos aos montes, na Bíblia, no Livro de Mórmon, em Doutrina & Convênios, em Pérola de Grande Valor e ao nosso redor, o tempo todo, eu garanto. Usarei só mais um, de alguém que sempre entendeu bem a retidão dos caminhos do Senhor:

“Mas aconteceu que eu orei ao Senhor, dizendo: Ó Senhor, de acordo com minha fé em ti, livra-me das mãos de meus irmãos; sim, dá-me forças para romper estas cordas com que estou amarrado” (Néfi, em 1 Néfi 7:17. Grifo meu).

O que aprendemos com Néfi não poderia ser mais claro: é preciso fé e ter em mente que Deus não muda as circunstâncias, mas sim nossa capacidade de suportar e sobrepujar qualquer coisa. Deus pode romper quaisquer cordas, mas não é assim que Ele age. Ele sabe que, quando vencemos as dificuldades, crescemos sobremaneira. E assim, cumpre-se o propósito do evangelho que, conforme explica o Presidente David O. McKay, é “transformar homens maus em bons e homens bons em melhores, e mudar sua natureza humana” (tradução minha e livre).

A maneira do Senhor de nos livrar de dores, sofrimentos, provações e tentações não é evitar que soframos. Sua maneira é mais eficaz do a mentalidade humana supõe conhecer: Ele nos torna mais fortes do que os males que nos afligem. Quando os sobrepujamos, através da graça e da Expiação de Cristo, nós os controlamos e eles não têm mais nenhum poder sobre nós. Essa é a verdadeira liberdade. Por meio de Seu infinito amor, o Senhor qualifica, molda e prepara o mais fraco de todos para grandiosas bênçãos.

O rei Benjamim consegue, em Mosias 3:19, resumir satisfatoriamente meu “clique”:

“Porque o homem natural é inimigo de Deus e tem-no sido desde a queda de Adão e sê-lo-á para sempre; a não ser que ceda ao influxo do Santo Espírito e despoje-se do homem natural e torne-se santo pela expiação de Cristo, o Senhor; e torne-se como uma criança, submisso, manso, humilde, paciente, cheio de amor, disposto a submeter-se a tudo quanto o Senhor achar que lhe deva infligir, assim como uma criança se submete a seu pai” (Grifo meu).

Aquele que se submete à vontade do Senhor torna-se forte e santo em Cristo, torna-se forte e valente, torna-se vitorioso, ainda que o mundo o chame de covarde. Hoje oro para que as pessoas que pensam que submissão a Deus é passividade se despojem de sua natureza inimiga de Deus. De outra forma, continuarão cegos e insensíveis às verdades eternas (ver 1 Coríntios 1:25).

Como uma das coisas fracas escolhidas por Deus (ver 1 Coríntios 1:27), asseguro serem verdadeiras as palavras que escrevi. Se houver falhas, a culpa é só minha. A obra e as palavras de Deus não têm manchas. Jesus Cristo ressuscitou e vive! Não há nenhum outro caminho através do qual podemos achar paz, felicidade, salvação e exaltação para nossa alma, nesta vida e após ela. Cristo restaurou e dirige, pessoalmente, Seu Reino na Terra: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Em Seu santo nome, por meio do qual todas as fraquezas viram fortalezas, presto esse solene testemunho.


[1] A terceira conseqüência é a “telestialização” – ou corrupção – do que hoje chamamos de Terra. Mas isso é outro assunto e só será tratado noutra ocasião.

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