“Estávamos preocupados sem saber o que comprar quando o bebê nascesse”, disse Song, cujo primeiro filho, um menino, é esperado para 12 de abril. “Não esperávamos tantos presentes.”

Até alguns meses atrás, Song nunca tinha ouvido falar de chá de bebê. A ideia de uma grande festa onde uma mãe é regada com presentes é totalmente inédita na Coreia do Norte, de onde ela vem.

“Não conseguimos imaginar isso acontecendo na Coreia do Norte”, disse Kim.

Enquanto eles se preparam alegremente para receber o novo membro da família, Song e Kim exercerem a fé cristã, a que eles abraçaram em sua jornada para a liberdade e oram incansavelmente pelos familiares que deixaram para trás. Eles assistem às notícias sobre os recentes testes nucleares do “homem foguete” e a união das equipes da Coreia do Norte e do Sul que formaram a equipe conjunta de hóquei para competir nas Olimpíadas de Inverno de PyeongChang. Eles ouvem o presidente Donald Trump ameaçar destruir o seu país de origem. Há 25 milhões de pessoas lá.

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A decisão de sair

Em 2009, em pé na plataforma de trem antes de sua partida da Coreia do Norte, Kim estudou expressão da esposa. As maçãs do rosto dela estavam pesadas com seus sombrios olhos redondos. Eles estavam casados havia dois anos, e ela pensou que ele estava saindo para uma viagem de negócios de 15 dias. Mas ele sabia que talvez aquela seria a última vez que ele a veria. Ele estava pegando o trem para uma cidade na fronteira, onde ele encontraria um coiote e se prepararia para sair do país.

Ele queria abraçá-la, confessar o medo que sentia, prometer que ele mandaria ajuda depois que ele saísse. Mas uma demonstração dramática poderia revelar seu plano, e qualquer conhecimento do seu plano poderia colocar sua esposa em perigo. Então ele continuou olhando para o trem, segurando a mão da esposa mais firmemente em uma tentativa de acalmar o coração acelerado.

“Não precisamos ficar aqui, você sabe”, Kim disse. “E se houve um lugar melhor para nós? Poderíamos morar lá.”

Song assentiu com a cabeça. Outra cidade na Coreia do Norte, talvez, ela se lembra de pensar no momento.

Apesar de tudo o que ele tinha a perder, algo estava chamando Kim para ir. Talvez tenha sido Deus.

A Espera

Kim nunca voltou de sua “viagem de negócios”. Sua esposa de 25 anos estava sem saber completamente de seus planos. Ela esperou por um mês, dois, e depois oito. Ela evitava sair. Com nada além de choro para preencher o silêncio em sua casa, ela se cercou com as coisas que ele tocou: roupas, cobertores, fotos e sua cadeira favorita.

Então um dia, Song recebeu uma ligação.

“Conheci seu marido Donghyun Kim, e ele quer saber se você está bem”, disse a voz de um estranho. Ela lembrou-se de que ouvir o nome do marido foi como acordar de um sonho.

“Alô! Alô!” ela implorou, mas o homem tinha desligado. Ela se sentiu sufocada por uma mistura de alegria e devastação. O marido estava vivo em algum lugar onde ele não podia ligar para ela. Isso significava que ele tinha escapado da Coreia do Norte. Mas isso significava também que ela nunca mais o veria novamente.

O estranho, um jovem coiote que ajudava pessoas a fugir da Coreia do Norte por dinheiro, finalmente ligou novamente poucos dias depois.

“Alô?” A voz do marido relembrou a tristeza e o medo do último ano e ela lembra-se de que começou a soluçar.

Após vários minutos tentando acalmar a esposa, Kim perguntou: “Jiyeon, quer vir comigo?”

Significava a arriscar a vida e deixar tudo para trás. O preço da fuga era aproximadamente USD 8.000,00, mas, sem hesitação, sua resposta foi sim.

Prestes a sair do país

Um dia antes do dia marcado para ela ir, Song falou com Kim novamente. Com voz reverente ele disse: “Jiyeon, você precisa orar a Deus. Ore a ele e peça-lhe para que você chegue em segurança até mim. Se você orar, Ele vai ouvir sua oração”.

Song estava confusa sobre as estranhas crenças que seu marido tinha desenvolvido desde que tinha partido. O que era Deus? O que era orar? Quando pedimos a ele as coisas das quais mais precisamos chama-se orar. “Que estranho”, ela pensou, mas Song confiou em seu marido e prometeu orar.

“Mais uma coisa”, disse Kim. “Aconteça o que acontecer, seja qual for o grau da terrível situação em que você se encontra, por favor não acabe com sua vida.”

Kim soube que os pensamentos viriam. Quando ele estava escondido em um apartamento no quinto andar na China, ele jurou saltar pela janela se fosse pego e para não encarar a vida na prisão. Mas ele não conseguia imaginar aquele destino para sua esposa: “Onde quer que esteja no mundo — aconteça o que acontecer com você — eu virei e salvá-la.”

“Eu não posso morrer antes de vê-lo novamente”, Song respondeu.

A fuga

Com a ajuda de um coiote chinês, Song saiu da Coreia do Norte, mas a viagem estava longe de acabar. Da China, ela viajou de barco, de ônibus, de carro e a pé com a ajuda dos coiotes para o Laos e para a Tailândia, escondendo-se das autoridades e lutando contra as intempéries, a doença e o medo antes de finalmente chegar na Coreia do Sul, três meses depois.

Vida Nova

Kim e Song descrevem o dia em 2011 quando eles se encontraram em Seul como o mais feliz de sua vida. Foi em um edifício do Serviço Nacional de Inteligência da Coreia do Sul onde Song estava detida e sendo interrogada para certificar-se de que ela não era espiã — parte normal do processo de reassentamento de desertores. Tinha se passado um ano desde sua separação. O trauma que eles sofreram tornou-se em uma poça de alívio quando eles se abraçaram sem dizer uma palavra.

Eles encontraram trabalho facilmente e um aluguel barato fornecido pelo governo sul-coreano. Eles recomeçaram a vida em Seul. Kim, imediatamente, começou a explorar as religiões. Ele agradeceu a Deus por ter trazido a ele e sua esposa à segurança, mas não entendia bem quem era Deus.

Song acompanhou relutante o marido para serviços cultos protestantes e católicos por vários anos. Muitas vezes ela dormia, até conhecer os missionários de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias em 2014. Até então, não tinha interesse em religião, mas ela sentiu que havia algo diferente sobre os jovens missionários. Ela então começou a frequentar a Igreja por conta própria.

A Igreja

A igreja era muito menor e mais pobre do que a Catedral onde Kim participou de reuniões de adoração, mas Song finalmente convenceu seu marido a ir com ela.

“No segundo em que eu abri a porta e entrei na igreja, senti fortemente algo que nunca havia sentido antes”, disse Kim. “Foi o Espírito de Deus.”

Ele reconheceu que era o mesmo espírito que lhe tinha dado força quando ele estava pensando em suicídio na China, quando ele estava em um barco frágil descendo um rio agitado em Laos e lutando contra uma febre de 40º C na Tailândia.

“Fiquei impressionado com aquele sentimento de felicidade”, disse Kim. “Naquela pequena igreja, eu senti como se a palavra ‘Deus’ estivesse flutuando no ar em grandes letras.”

Song foi batizada em junho e Kim foi batizada em dezembro de 2014.

Nos últimos 14 anos, a Coreia do Norte está classificada como o país mais religiosamente opressivo do mundo pelo Open Doors, um grupo que controla a perseguição aos cristãos.

A razão para tal tratamento áspero é que os fiéis colocam sua fidelidade a Deus antes da fidelidade ao estado norte-coreano.

Escrito por Erica Evans e publicado no site DeseretNews

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