Jesus e mulher do fluxo de sangue

Jesus Cristo consola e apoia a mulher com o fluxo de sangue. Imagem via LDSMag.com.

Este artigo foi publicado em ldsmag.com e traduzido para o mormonsud.net por Esdras Kutomi.

Por Lynne Hilton Wilson

Este é um trecho de Christ’s Emancipation of Women in the New Testament por Lynne Hilton Wilson, que se concentra em duas maneiras pelas quais Jesus libertou as mulheres de sua bagagem cultural. O Dra. Wilson enviou esse relatório como parte da Conferência da FAIRMormon entre 6 e 7 de agosto de 2015.

Durante Seu ministério, Jesus Cristo restaurou a visão aos cegos e a mobilidade ao coxo. Ele restaurou a lei maior do amor e do perdão. Ele restaurou a autoridade do sacerdócio de Melquisedeque, para agir em nome de Deus. No entanto, raramente discutimos uma das coisas mais importantes que Ele restaurou: a natureza sagrada da família e do casamento, restabelecendo uma imagem nobre das mulheres e das crianças [1]

A fim de apreciar a mudança dramática que Jesus fez para o papel das mulheres e seus relacionamentos, precisamos colocar seus ensinamentos no contexto de sua época. Como os homens judeus, gregos e romanos tratavam as mulheres e as crianças? A combinação de volumes de documentos, cartas, poemas, peças de teatro, histórias e livros sagrados deixa  a impressão de que, em muitos casos, suas relações familiares davam errado. [2] Nós encontramos diferenças surpreendentes quando comparamos as páginas de mal-entendidos, de opressão e de relacionamentos disfuncionais com as histórias das ternas interações de Jesus com as mulheres e as crianças no Novo Testamento.

Cristo fez mudanças bruscas e radicais que restauraram às mulheres para um lugar de valor com potencial eterno. Este livro abre uma janela para a vida da família durante o tempo do Novo Testamento, a fim de apreciar melhor os ensinamentos transformadores de Jesus sobre as mulheres – ensinamentos que ainda estão influenciando as famílias de hoje. [3]

Mulheres Liberados de sua Bagagem Cultural

Jesus entrou em uma sociedade com muitas e profundas barreiras aos seus ensinamentos. Ele chocou seu público ao declarar Sua missão messiânica (Lucas 4:21-28). De forma igualmente chocante, Ele apreciava e aceitava as mulheres e as crianças (Marcos 14:4-6; Lucas 7:39; 10:40; etc.). Tão decisivamente quanto Ele purificou o templo, Jesus atacou as falsidades culturais que rodeavam a vida familiar judaica. Ele derrubou falsas práticas e noções em relações as mulheres, as crianças e os familiares. Ele condenou séculos de tradições prejudiciais que destruíam parcerias conjugais e levavam a misoginia (repulsa ao gênero feminino).

Os quatro evangelhos descrevem Jesus recusando-se a seguir as tradicionais barreiras sociais que impediam o relacionamento entre homem e mulher. Conforme lemos, o Senhor fala à mulheres (João 4:7-27), encoraja sua educação (Lucas 10:39-42), as cura (Marcos 7:25-29),  pede a elas que falem como suas testemunhas (Mateus 28:5-10), as toca (Marcos 5:30-34; Mateus 38:9) e ensina a natureza eterna do casamento (Mateus 5:3-11; João 17:21; Efésios 5:25,31). Isso foi considerado escandaloso.

A fim de demonstrar quão dramaticamente Jesus mudou as relações familiares, é preciso entender como era a vida familiar judaica e como ela contrasta com o que Jesus ensinou. Ao colocar os ensinamentos e as doutrinas do Senhor dentro de seu contexto social, Seus ensinamentos se tornam imensos em significado e beleza. Este artigo destaca dois costumes culturais que afetavam as mulheres e depois os contrasta com as mudanças estabelecidas por Cristo.

Segregação – Bagagem e Cenário Cultural

As tradições farisaicas judaicas mantinham homens e mulheres fisicamente segregados. [4] Homens e mulheres “não devem se misturar.” [5] Esta separação física levou a segregação emocional, que evoluiu para mal-entendidos. As mulheres eram vistas como uma causa da tentação, por isso elas foram veladas, silenciadas e mantidas longe dos homens tanto quanto possível. [6] Especialmente na cidade, as mulheres judias eram desencorajadas a ir para fora a fim de evitar serem vistas pelos homens. Este protocolo existia em Jerusalém e estendia-se para outras grandes cidades onde os judeus viviam. Por exemplo, em Alexandria, a terceira maior cidade do mundo greco-romano, o filósofo judeu Philo (20 aC a 50 dC), descreveu sua visão da separação ideal de homens e mulheres em público:

“Mercados, cortes de justiça e locais de administração públicos, onde um grande número de pessoas se reúnem ao ar livre, com plena possibilidade de discussão e ação – todos estes lugares são adequados para os homens, tanto na guerra e como na paz. As mulheres são adequadas para a vida interior que jamais se afasta da casa … A mulher, então, não deve ser intrometida, participando em questões fora de suas preocupações domésticas, mas deve procurar uma vida de reclusão.” [7]

Este ponto de vista foi aceito por séculos como a norma social na época do Novo Testamento. Uma atitude mais relaxada sobre a segregação de gênero existia fora das cidades na Palestina. Embora a maioria das meninas e mulheres judias permanecessem em casa, elas, como um historiador descreveu, foram “confinados em casa como uma prisão.” [8]

Jesus com mulheres e criança em refeição

Imagem via LDSMag.com.

A segregação continuava dentro das casas de fariseus e saduceus ricos, com quartos separados exclusivos aos membros de seu sexo. [9] Pouco antes e durante o tempo do Novo Testamento, quando estas tradições foram fortemente entrincheirados em Jerusalém e além, contemporâneos descreveram os espaços segregados onde as mulheres “eram mantidas em isolamento e nem sequer apareciam na porta de casa, e suas filhas solteiras eram limitadas ao quarto das mulheres, onde as mulheres, por amor a modéstia, evitado os olhos dos homens, até mesmo dos parentes mais próximos.” [10] Mesmo dentro das casas, se um convidado do sexo masculino viesse para uma refeição, as mulheres e as meninas não comiam na mesma mesa, mas poderiam interagir silenciosamente como servas. [11] Famílias devotas de Jerusalém limitavam sua interação com pessoas de outro gênero, exceto em raras ocasiões.

A adoração nas sinagogas também era segregada. [12] Os homens foram ordenados a assistir seus cultos aos sábados, mas as mulheres não. Se uma mulher escolhesse assistir a uma reunião na sinagoga, sentava-se separadamente. Algumas décadas depois da época do Novo Testamento, os rabinos adicionaram entradas separadas para homens e mulheres e divisórias para manter as mulheres invisíveis e inaudíveis. [13] As mulheres não liam as escrituras, não davam a sua opinião, não ensinavam ou oraram verbalmente durante o serviço, mas eram autorizadas a ouvir em silêncio. [14] A separação de gênero e o silenciamento em reuniões religiosas levaram a preconceitos sobre a natureza religiosa das mulheres. [15] Se participar do culto da sinagoga ensinava uma pessoa a ser mais santa, então as mulheres ficavam de fora.

Dentro de um lar, as mulheres participavam do culto religioso, especialmente ao guardar as leis dos alimentos (kosher), a observar o sábado, acender as velas, oferecer bênçãos na mesa e recitar o Shema (Deuteronômio 6:4-9; 11:13-21; Números 15:37-41) [16] Grande parte do culto judaico era comum e ocorreu fora do lar, e nesse domínio, o culto das mulheres era restrito em comparação com o dos homens. Homens sentiam ser uma honra ter 613 mandamentos enquanto as mulheres só eram obrigadas a viver 6 mandamentos. [17]

Um elemento de proteção ressaltava essas regras: as meninas eram segregados na esperança de mantê-los castas. A partir do Apocrypha, o líder judeu Ben Sira aconselhou os pais a manterem um olho em suas filhas solteiras, mesmo dentro de suas casas, para evitar todos os riscos de serem contaminada, “para que ela não faça de ti motivo de chacota para os teus inimigos, e motejo na cidade, e de opróbrio entre o povo, e te envergonhe diante da multidão”.[18] O código de lei judaica, ou Mishná, registra um exemplo de “uma jovem empregada doméstica [que] uma vez saiu para tirar água da fonte e foi violada”. [19]

No entanto, na maior parte, estes regulamentos confinantes oprimiam e humilhavam as mulheres. [20] Eles criaram uma cultura de medo e desconfiança entre os sexos. [21] Isso deu origem a uma falta de apreço e reforçou os estereótipos negativos de mulheres como perigosas e sedutoras. [22] A segregação muitas vezes diminuía a capacidade de uma mulher de contribuir dentro de sua comunidade, servir fora de seu lar, participar do culto público e acessar a educação. [23]

Alterações feitas por Jesus

Jesus não viveu por estas restrições segregantes para as mulheres. Ele recusou-se a isolar as mulheres e as tratou como indivíduos valiosos. Ele permitiu que as mulheres e as crianças se juntassem ao grupo de cinco mil, e mais tarde o grupo de quatro mil que se reuniram para ouvi-Lo ensinar na Galiléia (Mateus 14:21; 15:38). [24] Ele refutou aqueles que queriam expulsar as mulheres e as crianças para longe (Marcos 10:13-14; Mateus 15:23). Ele fez bem vindas as mulheres para que ficassem no mesmo local que os homens (Lucas 7:38-40). Ele não segregou os impuros, fossem eles doentes, pecadores ou socialmente excluídos.

Todos os três Evangelhos sinópticos registram a interação notável de Jesus com uma mulher impura em uma rua movimentada na Galiléia (Mateus 9:19-22; Marcos 5:24-34; Lucas 8:43-48). A história começa com uma multidão de pessoas que acompanhavam Jesus por toda a cidade para a casa de Jairo, chefe da sinagoga, para curar a filha de Jairo. No caminho, uma mulher “imunda” tenta tocar Jesus para receber Sua cura. Esta mulher foi identificada como “imunda” porque, por mais de uma década, ela tinha um “fluxo um sangue”, possivelmente uma hemorragia no útero. [25]

Mais especificamente, nos últimos doze anos, a lei mosaica proibiu-a de sair em público, tocar em alguém, adorar na sinagoga ou templo, ou compartilhar a cama de seu marido (Levítico 15:19-28). Como resultado de seu estado, seu marido, provavelmente, divorciou-se dela (Deuteronômio 24:1). [26] Se deficiências físicas eram vistas como consequência do pecado, e a menstruação de uma mulher a fazia “imunda” (Ezequiel 36:17-18 ), assume-se que pelo menos alguns de seus vizinhos e familiares, provavelmente, a acusaram de maldade e a rejeitaram. [27] O Evangelho de Marcos relata também que ela estava desamparada porque gastou todo o seu dinheiro buscando ajuda médica (Marcos 5:26).

mulher tocando vestes de Jesus - fluxo de sangue

Mulher com fluxo de sangue tocando as vestes de Jesus. Imagem via LDSMag.com.

No entanto, esta mulher determinada e cheia de fé procurou a cura no Senhor: “Se eu tão somente tocar a sua veste, ficarei sã” (Mateus 9:21; Marcos 5:28). Para fazer isso, ela quebrou o protocolo de segregação que a baniu a uma vida de reclusão, foi para fora numa rua movimentada e tentou esconder-se na multidão que seguia Jesus. Quando ela tocou Suas vestes, ou a orla de sua veste, Jesus sentiu imediatamente que “saíra de si poder”, ou mais literalmente, “de mim saiu poder” (Lucas 8:46). Jesus deu poder de si mesmo a fim de curar a mulher fisicamente. Esta, por sua vez, levou a sua cura social e emocionalmente. Foi necessário uma incrível bravura da parte da mulher para responder à pergunta direta de Jesus: “Quem me tocou?” (Marcos 5:31).

Naquela multidão de pessoas que caminhavam da aldeia para a casa de Jairo, ela mostrou sua fé, coragem e humildade; “Então a mulher, vendo que não podia ocultar-se, aproximou-se tremendo, e prostrando-se ante ele, declarou-lhe diante de todo o povo a causa por que havia tocado nele, e como logo sarara” (Lucas 8:47) . Jesus não mostrou nenhuma reprovação por ela violar o decoro social – em vez disso Ele elogiou a profundidade da sua fé: “Tem bom ânimo, filha, a tua fé te salvou” (Lucas 08:47, ABT). E então Jesus ofereceu uma bênção de partida: “Vai em paz” (Lucas 8:48). [28] Nesta história comovente, Jesus desafiou as normas culturais que marginalizavam as mulheres. Ao reconhecer, tocar e curar esta mulher, Ele estabeleceu um novo padrão de como as mulheres devem ser tratadas.

Comunicação – Bagagem e Cenário Cultural

Uma extensão óbvia da segregação entre homens e mulheres era o fato de que eles não se comunicavam diretamente uns com os outros. Simplificando, os homens judeus foram instruídos a não falarem muito com as mulheres. O Mishná ensinava, “Não fale muito com as mulheres”, seguido pela espantosa frase “é dito sobre a esposa de um homem: quanto mais a mulher do seu companheiro”. [29] Seguindo a mesma linha de pensamento, Ben Sira registrou, “a esposa silenciosa é um dom do Senhor; sua contenção é mais do que o dinheiro pode comprar”. [30] Do mesmo modo extremo, um renomado rabino Joshua alegou que qualquer menina ou mulher encontrada falando com um homem na rua era culpada de quebrar a lei da castidade a menos que houvesse provas do contrário. [31] com ou sem essa inferência extrema, falar com alguém do sexo oposto foi evitada por medo de resultar em algum escândalo: “não fale excessivamente com uma mulher para que esta, no final, te leve ao adultério”. [32]

Outra rabino de Jerusalém ensinou que os homens que falavam às mulheres demonstravam ter prioridades equivocadas que terminariam em condenação: “Aquele que fala muito com uma mulher traz o mal sobre si mesmo, negligencia o estudo da lei e por fim herdará o Geena [inferno]”. [ 33] um outro rabino usou mal as Escrituras para defender a falta de comunicação com mulheres: “Não encontramos que o Todo-Poderoso falou a uma mulher, exceto Sarah”. [34] Em sua opinião, porque o Livro Sagrado não registrou Deus falando com as mulheres, tampouco os homens devem se comunicar com elas.

Este fundo cultural esclarece o porque a jovem Maria e seu noivo Joseph mal se comunicaram um com o outro. Maria descobriu sua gravidez durante o noivado com José,  “antes de se unirem” (Mateus 1:18). Como um judeu devoto cumpridor da lei, José se sentiu obrigado a obedecer a lei e divorciar-se de Maria. Nesse ponto, ele não entendia a natureza miraculosa da concepção de Maria.

Alguém pode imaginar se Maria tentou explicar a José sobre a visita do anjo Gabriel. Se ela tivesse dito a José, por que ela deixou Nazaré? Ela tentou resolver aquele mal-entendido? Lucas nos diz que Maria “guardava todas essas coisas, meditando-as em seu coração”. (Lucas 2:19 – sobre o nascimento de seu filho). Talvez ela culturalmente não fosse autorizada a falar em particular com José. Felizmente, Deus encontrou outra maneira de transmitir informações a José, enviando um anjo para compartilhar a boa notícia da concepção milagrosa. Em resposta ao apelo do anjo, José imediatamente realizou o casamento (Mateus 1:23-24). No momento em que o casal viajou para o sul para Belém, eles estavam casadas vários meses, embora a narrativa ateste que José “não a conheceu até que ela deu à luz o seu filho, o primogênito” (Mateus 1:25).

Alterações feitas por Jesus

Jesus não silenciou as mulheres, mas falou com elas respeitosamente. Em Betânia, ele falou diretamente com Maria e Marta (Lucas 10:42). Em Samaria, Ele conversou com a mulher no poço (João 4:7-27). Na Galiléia, Ele chamou a uma mulher aleijada, inclinou-se, talvez, de osteoporose, e falou as palavras de cura para ela: “Mulher, estás livre da tua enfermidade”

A mais longa conversa registrada que Jesus teve com uma mulher é do encontro em Samaria com a mulher no poço (João 4:7-28). Somente o Evangelho de João registra este diálogo que teve lugar trinta milhas ao norte de Jerusalém na capital samaritana de Sicar. [35] Na época do Novo Testamento, a animosidade afiada já existia há mais de mil anos entre a Judéia e Samaria. O desrespeito mútuo, a blasfêmia, a retaliação e a impertinência em ambos os lados cresceu de geração em geração. [36] Ao viajar de Jerusalém para a Galiléia a maioria dos judeus escolhia evitar Samaria, tomando uma rota mais longa em torno dela. Jesus não o fez. [37] (Lucas 13:12). Em Jericó, Ele conversou com Salomé, a mãe de Tiago e João, e educadamente lhe perguntou, “Que queres?” (Mateus 20:21). Ela se sentia segura para fazer seu pedido, bem como para receber sua resposta, mesmo que fosse uma repreensão suave: “Não sabeis o que pedis … assentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me pertence concedê-lo, mas será para aqueles para quem meu Pai o preparou” (Mateus 20:22-23). Em Jerusalém, na estrada para o Gólgota, Ele sensivelmente observou as mulheres chorando e as consolou, “Filhas de Jerusalém, não choreis por mim” (Lucas 23:28). Uma e outra vez, o exemplo de Jesus atravessou as camadas da segregação e do silêncio para oferecer dignidade e respeito para com as mulheres.

Em uma destas viagens, o Senhor e Seus discípulos chegaram até Sicar na época da refeição do meio-dia. [38] Ele descansou perto do poço de Jacó e enviou seus discípulos para a cidade para comprar pão para a refeição do meio-dia (João 4:8). Enquanto Ele descansava, ” uma mulher de Samaria tirar água; disse-lhe Jesus: Dá-me de beber.” (João 4:7). Este era um pedido incomum porque um judeu religioso nunca iria consumir nada tocado por alguém ritualmente “imundo”, especialmente um samaritano. Toda a viagem teria sido repulsiva para um judeu devoto de Jerusalém: andar por uma estrada samaritana, ir para uma cidade samaritana, comer alimento samaritano e beber e água potável samaritana. [39]

No entanto, quando Jesus pediu água do pote da mulher Samaritana, Ele tinha motivos maiores em mente do que simplesmente saciar sua sede. João explicou que esta mulher samaritana escolheu caminhar para mais fora da cidade para obter água do poço de Jacó (João 4:12). Como a tarefa de tirar água era fisicamente desgastante, e levar de volta algo difícil, alguém poderia se perguntar do porque dela escolher o “hora sexta”, ou meio-dia-a na época, a parte mais quente do dia. [40] Esta não era uma hora comum para ir ao poço; a maioria das pessoas de manhã, quando era mais fresco. Além disso, os arqueólogos falam de uma abundante fonte de água no outro lado da cidade que seria mais perto e fácil de tirar água. [41] Ambos os detalhes sugerem que a mulher desnecessariamente acrescentou mais dificuldades para a sua tarefa.

No entanto, quando aprendemos sobre os detalhes de sua vida – os divórcios passados e os pecados atuais – imagina-se que ela teria evitado aquele lugar de encontros socais – com as fofocas diárias e o desprezo de seus vizinhos -caminhando sozinha para mais fora da cidade. O trabalho extra, o tempo incomum e a localização valiam o isolamento.

O registro de João inclui o espanto da mulher de Jesus ter violado as regras sociais. [42] A mulher corretamente lhe perguntou: “Como, sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana?” (João 4:9). O comportamento de Jesus atravessava as fortalezas de normas sociais judaicas: Ele falou com uma mulher, ele falou com uma samaritana, e Ele pediu para beber água de um pote “impuro”. Suas ações reforçaram sua mensagem de que Deus não faz acepção de pessoas (2 Crônicas 19:7; Atos 10:34). [43]

No entanto, a conversa do Senhor puxou a ouvinte em uma direção diferente do que ela esperava. A mulher questionou a propriedade social e religiosa de seu pedido, então Jesus propôs que ela pedisse a Ele águas vivas – invertendo os papéis. “Se tu conhecesses o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber; tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” (João 4:10). No Novo Testamento, as doutrinas de Cristo tornam-se água viva para os discípulos. O Antigo Testamento usa “água viva” para descrever uma fonte ou água corrente, em contraste com a água “morta” ou estagnada armazenada em uma cisterna. [44] A água viva era um rico prêmio. [45] Cristo redefiniu “água viva”, como algo ainda mais valioso: as doutrinas, as verdades e a revelação que fluíam Dele.

No entanto, a mulher samaritana estava inicialmente desatenta a esse simbolismo. Ironicamente, ela respondeu: “És tu maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, e ele mesmo dele bebeu, e os seus filhos, e o seu gado?” (João 4:12) [46] Ao que Jesus respondeu: “Qualquer que beber desta água tornará a ter sede; Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna.” (João 4:13-14). Apenas consciente de sua necessidade literal de água, a mulher pensou no plano físico: “Senhor, dá-me dessa água, para que não mais tenha sede, e não venha aqui tirá-la.” (João 4:15).

Os desafios de se obter água de um poço, além dos estigmas sociais de sua vida, teria feito a perspectiva de nunca mais ter sede uma oferta bem vinda – mas essa não era a mensagem do Senhor. Ele pacientemente ensinou-a a olhar para além de sua esfera de compreensão, e explicou que Ele não estava se referindo ao sustento físico, mas eterno (João 4:14). Jesus queria libertá-la de seu cativeiro espiritual, portanto Ele abriu a porta para seu arrependimento ao revelar seu manto divino e onisciência.

Depois que Jesus divulgou seu conhecimento de seus cinco divórcios em seu passado maculado e o fato de que atualmente ela estava vivendo em pecado, a mulher reconheceu humildemente, “vejo que és profeta” (João 4:19). A resposta dela após uma divulgação tão humilhante e embaraçosa de um completo estranho mostrou a condição aberta e humilde de seu coração. Em vez de sentir-se na defensiva, fugindo ou recuando na auto-piedade, a mulher reconheceu Jesus como um profeta e, em seguida, continuou para o próximo passo lógico de pedir Sua visão profética em uma pergunta doutrinária padrão que muitas vezes surgia entre os judeus e os samaritanos. Na verdade, a pergunta da mulher evidenciou sua fé em Jesus como um profeta (João 4:19-20). Ela perguntou-lhe onde era o local correto para adorar, se no Monte Garizim, em Samaria (como os samaritanos acreditavam) ou Monte Moriá, em Jerusalém (como os judeus acreditavam).

Para os samaritanos, o monte Garizim era o lugar mais sagrado na terra. Além da localização de seu antigo templo, eles acreditavam que o monte Garizim era sagrado porque existia antes da criação; que foi a primeira terra a aparecer depois que as águas foram reunidas; e que era como um irmão gêmeo do Jardim do Éden; que era a única terra não coberta pela enchente. [47] Embora os judeus tivessem destruído o seu templo, eles acreditavam que o local sagrado um dia iria abrigar o verdadeiro templo, e que seria o único lugar a sobreviver no final do mundo. [48]

A mulher perguntou novamente por provas terrenas, enquanto a resposta de Jesus levava para cima, para princípios celestiais. Ele explicou que o local não era a questão-chave em relação a adoração; a questão era quem, porque, e como alguém adorava. A verdadeira adoração vinha da condição do coração de alguém, “verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade” (João 4:23). Essa conversa dramática destruía muralhas de intolerância étnica.

Essa foi a mais antiga referência bíblica em João de Jesus anunciando Sua messianidade. “A mulher disse-lhe: Eu sei que o Messias (que se chama o Cristo) vem; quando ele vier, nos anunciará todas as coisas. Jesus disse-lhe: Eu o sou, eu que falo contigo” (João 4:25-26). Esta declaração ousada está em contraste com as muitas vezes nos Evangelhos em que o Senhor limitou a divulgação devido ao ceticismo de seu público (Marcos 13:4; Lucas 20:2-8; 22:67; João 3:10-12 ; 3 Néfi 17:2; etc.). Mas aqui Ele comunicou diretamente a uma mulher (em particular, uma mulher samaritana pecadora), honrando-a com grande visão.

A descrição de João do que aconteceu em seguida oferece profundo simbolismo: ela deixou seu pote de água. Seu pote pode ser visto como um emblema dos cuidados do mundo, sua antiga vida e sua velha fonte de sustento. Ela deixou tudo para trás para sua nova vida que a levou a compartilhar a água viva ou as boas novas – o evangelho de Jesus, o Messias – com a comunidade, que pode ter se tornado o primeiro ramo de crentes.

A história termina com dois outros choques sociais. Ao contrário de seus vizinhos de Jerusalém, a comunidade samaritana ouviu a mensagem de uma mulher, e não uma mulher qualquer, mas uma mulher adúltera e pecadora. Em segundo lugar, o autor escolheu mencionar que Jesus e seus discípulos ficaram com os samaritanos pregando o evangelho por dois dias e que muitos acreditaram, “porque nós mesmos o ouvimos, e sabemos que este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo” (João 4:42).

Comentários sobre estas histórias muitas vezes ilustram a rejeição de Jesus aos preconceitos raciais, e de forma profunda vemos que Jesus fala e ensina uma mulher com uma abertura notável. Ele quebrou enormes barreiras sociais e confiou nela para testemunhar a veracidade de Sua messianidade. Ele confiou a ela os mistérios, e Ele confiou que ela poderia mudar. Desta forma, Jesus deu poder a ela e àqueles de nós que também têm potes de água que precisam ser deixados para trás.