fbpx
La Fe no es ciega - icon
CAPÍTULO 6
La Fe no es ciega - icon
6. O paradoxo da cabeça e do coração

Existem algumas tensões naturais entre a fé e a razão que oferecem uma vertente esclarecedora a respeito das tensões entre a simplicidade inicial e a complexidade. À medida que buscamos o relacionamento correto entre a fé e a razão, tal processo nos prepara para alcançarmos formas mais elevadas de resolução que nos levarão além da simplicidade.

Logo após minha missão, matriculei-me naquele curso de “Questões religiosas”, em que Marie e eu nos conhecemos. Ao escolhermos, cada um, um tópico para estudar e compartilhar, muitas das dúvidas se assemelhavam às questões que hoje preocupam os jovens santos dos últimos dias. Por exemplo, um de nossos colegas de classe foi o talentoso e valente Dillon Inouye. Sua pergunta foi a seguinte: “O evangelho de Jesus Cristo foi realmente restaurado?” Marie preferiu fazer a seguinte pergunta: “Como posso aumentar a influência do Espírito Santo em minha vida?” Minha dúvida era se eu deveria ser um mórmon liberal ou um mórmon conservador. Para ser sincero, o que eu me perguntava era o quanto cabe a cada um de nós desenvolver nossa própria mente, e pensar por nós mesmos, ou o quanto devemos confiar nas autoridades da Igreja e na orientação espiritual.

Richard Poll, professor de história da BYU, escreveu um artigo durante aqueles anos intitulado “O que a Igreja significa para pessoas como eu”. Ele explicava que a maior parte dos membros da Igreja se enquadra em dois campos distintos: mórmons rígidos, da “barra de ferro”, os quais não questionam a Igreja ou o Espírito sobre exatamente como viver; ou mórmons “Liahona”, para quem o evangelho aponta uma direção geral desejável, tendendo a confiar principalmente em sua própria inteligência para decidirem como viver.37 Comentando sobre as duas categorias de Poll, nosso amigo Dillon disse que preferiria encontrar um artigo chamado: “O que a Igreja significa para pessoas semelhantes a (…) Deus”.

Dillon, Marie, eu e nossos colegas de classe enfrentávamos o que o sociólogo católico Thomas O’Dea chamou de “o problema mais significativo do mormonismo”. Em seu livro “Os Mórmons”, publicado em 1957, ele disse que a “grande ênfase da Igreja na educação [superior]” havia criado um sério e inevitável conflito para os universitários Santos dos Últimos Dias, já que a abordagem literal e autoritária da Igreja em relação à religião ia de encontro à independência e ceticismo promovidos pelo pessoal de nível universitário – da mesma maneira como o “ideal” confronta o “real”. Para O’Dea, essa era uma questão muito importante: “O encontro do mormonismo e o aprendizado secular moderno continua em andamento. O futuro do mormonismo dependerá do resultado dessa fonte de tensão e conflito. ”38

Cinquenta anos mais tarde, uma pesquisa confiável mostrou que — ao contrário da maioria de outros grupos religiosos — quanto mais elevada a educação de um mórmon, maior será a probabilidade de ele demonstrar um forte compromisso religioso. Por exemplo, cerca de 84% dos mórmons formados em faculdades apresentam um alto compromisso religioso, em comparação com 50% dos mórmons que têm apenas o Ensino Médio.39

Pude perceber pela elevada estatura acadêmica da BYU o quanto a Igreja estava comprometida com o ensino superior. Eu havia retornado de minha missão com novas perspectivas que alimentavam minha fome, até mesmo minha paixão, de aprender. Aproximei-me de alguns professores universitários santos dos últimos dias exemplares e que me motivavam a estudar. Um deles me disse que J. Golden Kimball havia afirmado que não podemos esperar que o Espírito Santo pense por nós mesmos. Outro professor, de quem eu gostava muito, tinha um grande amor pela literatura e pelas artes e enfatizava que os alunos precisavam acima de tudo de disciplina e criatividade pessoal para desenvolver os dons concedidos por Deus.

Meu professor de piano no ensino médio foi Reid Nibley, o irmão mais novo de Hugh Nibley. Reid era um artista espiritualmente reflexivo, mas profissionalmente perfeito. Ele me ensinou que mais sensibilidade na música elevaria minha sensibilidade espiritual, enfatizando que o Senhor nos deu a natureza e as artes “para alegrar o coração (…) e para avivar a alma” (D&C 59:18–19).

Então conheci mentores que defendiam diferentes pontos de vista. Meu presidente de missão, a quem eu amava e admirava, apresentou-me a doutrina de conhecer o Senhor e a doutrina de confiar no Espírito. Passei a valorizar essas doutrinas quando vi seus frutos no trabalho missionário. Ele costumava dizer: “Confia no Senhor de todo o teu coração, e não te estribes no teu próprio entendimento.” (Provérbios 3:5). Ele enfatizava a confiança total de Cristo no Pai: “O Pai, que está em mim, é quem faz as obras.” (João 14:10). Para ele, então, “Cristo havia sido o homem menos original que já viveu”. Ele também alertava contra pessoas que levavam a literatura e as artes a ferro e fogo.

Aproximei-me, também, de um respeitado professor do seminário. Quando ele me perguntou o que eu planejava estudar na BYU, respondi-lhe que queria aprender tudo sobre história, literatura e filosofia. Ele ficou muito preocupado, dizendo-me que eu deveria evitar esses assuntos porque eles facilmente levam as pessoas ao que chamou de “apostasia intelectual”.

Portanto, meus “questionamentos religiosos” giravam em torno da confusão que enfrentei ao tentar reconciliar os pontos de vista conflitantes desses mentores. Nosso professor, West Belnap, disse-me depois de minha apresentação em classe: “Alguns de nossos membros têm isso em sua mente e outros em seu coração. Acho melhor ter isso nos dois lugares”. Entendi isso como uma simples recomendação de equilíbrio. Tal atitude ajudou-me a me decidir pela rejeição de abordagens radicais para minhas perguntas. Comecei, também, a enxergar os problemas levando em consideração seus extremos.

Por exemplo, pude ver o conservadorismo extremo de uma religiosidade ultrazelosa. Fui companheiro de missão de estaca de um irmão que tinha certeza de que o Espírito Santo lhe sussurrava, praticamente, o tempo todo, nos mínimos detalhes, tanto em seus pensamentos como em suas decisões. Ele carregava consigo um caderninho em que registrava longas frases, captando o que acreditava ser o que o Espírito lhe dizia. Ele sacudia o pó de seus pés ao sairmos da casa de alguém não interessado em nossa mensagem. Alguns anos mais tarde, ele concluiu que a Igreja estava equivocada e que Deus o havia chamado para reformar a Restauração. Atraiu um pequeno, porém zeloso, grupo de seguidores. A tendência de “olhar para além do marco” acabou levando ele, sua família e seus adeptos a múltiplas tragédias.

Posteriormente, fui chamado para ser conselheiro de dois bispos bem diferentes em alas de estudantes, os quais ilustravam o amplo leque de personalidades e atitudes que encontramos entre os líderes da Igreja. Um deles era extremamente autoritário, rígido e que desconfiava das disciplinas acadêmicas. O outro estava no extremo oposto do espectro — tinha um pensamento aberto, crítico e intelectual. Era amigo de algumas autoridades gerais e gostava de nos contar sobre as grandes diferenças de opinião entre esses irmãos. Então, ele passou a ver não apenas os pontos de vista divergentes, mas também sérias falhas pessoais nesses líderes. Essas preocupações tomaram conta dele, comprometendo sua disposição de seguir os conselhos dos líderes da Igreja em geral cujos pontos de vista eram diferentes dos seus. Alguns anos mais tarde, ele amargamente também abandonou a Igreja e sua família.

Essas experiências reforçaram minha inclinação para buscar o que eu chamaria simplesmente de abordagem equilibrada. Eu não precisava ficar fazendo toda hora uma escolha entre meu coração e minhas ideias. Pude ver que a tensão entre a fé e a razão vem de longa data. Durante a época de Cristo, Ele ensinou Seu evangelho quase que exclusivamente às pessoas de tradição hebraica. Poucos anos depois de Sua morte, os gentios do Império Romano que tinham herança grega começaram a entrar na Igreja Cristã, até o ponto em que o Cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano no século IV. Essa enorme mudança histórica fundiu as culturas hebraica e greco-romana, combinando duas tradições religiosas muito diferentes.

Um historiador disse que essa fusão mesclou “toda a tradição hebraica com a cultura clássica [greco-romana]”.40 E vendo que o pensamento grego influenciou fortemente o Império Romano, um outro historiador escreveu: “Aqui estavam duas raças [os gregos e os hebreus], vivendo não muito distantes, [porém] em completa ignorância um quanto ao outro. Foi a fusão do que era mais característico dessas duas culturas — a seriedade religiosa dos hebreus com a razão e a humanidade dos gregos — que formaria posteriormente a base da cultura europeia”.41

Falando sobre esse divisor de águas histórico, Daniel Peterson, da BYU, escreveu que o centro de gravidade do Cristianismo mudou de Jerusalém para Atenas, e que a universalidade da língua grega gradualmente foi desfazendo os vínculos do Novo Testamento com as raízes hebraicas do Velho Testamento. A influência grega resultante preservou as palavras de Cristo no Novo Testamento apenas na língua grega. “Os mórmons,” escreveu ele, “reconhecem nesta [absorção grega do Cristianismo] pelo menos um aspecto do que chamam de ‘a Grande Apostasia’”.42

Tanto o evangelho restaurado quanto a cultura americana contêm vertentes que se inspiram na herança hebraica e na herança grega. Isso me ajudou a entender os conflitos que vivenciei em meus dias de estudante. Por exemplo, a maioria das moedas dos EUA contém duas frases familiares: “Liberdade “e “Em Deus confiamos”. A “liberdade” pessoal do indivíduo era um elemento-chave nos valores gregos. Para os gregos, o homem era a medida de todas as coisas. Para Sócrates, nada era mais importante do que “conhecer a si mesmo”, e seu objetivo final era enobrecer o homem por meio da razão.

Mas a outra frase da moeda, “Em Deus confiamos”, teria deixado um grego do passado perplexo — embora isso fizesse alusão à alma hebraica, que colocava toda a sua confiança em Deus. O padrão hebraico buscava glorificar a Deus, não ao homem, e a pessoa alcançava esse objetivo por meio da fé e da obediência, não por meio do raciocínio humano. Essa pequena comparação contém as sementes de incontáveis argumentos que diferenciam a razão e a fé.

A Restauração valoriza tanto a liberdade pessoal quanto a razão pessoal. Nenhuma outra religião ou filosofia tem uma visão mais elevada da natureza e do potencial do homem, conforme evidenciado nas escrituras como “Esta é minha obra e minha glória: Levar a efeito a imortalidade e vida eterna do homem” (Moisés 1:39) e “O homem também estava no princípio com Deus” (D&C 93:29). Outras escrituras enfatizam o lugar da razão: “Deves estudá-lo bem em tua mente” (D&C 9:8) e “Todas as coisas mostram que existe um Deus” (Alma 30:44). E o Élder John A. Widtsoe escreveu um livro da Igreja intitulado A Rational Theology [Uma Teologia Racional].

Por outro lado, a Restauração ensina que todas as bênçãos se baseiam na obediência (ver D&C 130:20–21). A fé em Deus é tanto o primeiro princípio do evangelho quanto um alerta essencial contra a liberdade e a razão incondicionais. Quando desobedecemos a Deus, não apenas rejeitamos a autoridade divina, mas também nos desqualificamos para bênçãos futuras.

Observem no diagrama acima dois círculos que se sobrepõem parcialmente. Um círculo representa a tradição grega, com ênfase na razão e no individualismo; o outro representa a tradição hebraica, com ênfase na fé e no autoritarismo. Em uma extremidade encontra-se apenas a tradição grega; na outra encontra-se apenas a tradição hebraica. Na parte em que elas estão sobrepostas, as duas tradições podem se examinar mutuamente.

Vamos encontrar problemas se o autoritarismo rígido de nossa linha hebraica se desvincular completamente da sensatez bem ancorada de nossa vertente grega. Isso foi o que aconteceu com meu ex-companheiro de missão de estaca — a vertente hebraica o fez pirar. Sem o exercício da razão e do bom senso, ele se desviou da margem direita e se tornou uma espécie de “mórmon cultista”.

Por outro lado, o bispo desandou quando não conseguiu se harmonizar em meio às diferenças e às limitações que percebia entre alguns líderes da Igreja. Seu compromisso desenfreado com a razão apenas o arrastou para fora da Igreja — a linha grega fugiu do controle. Poderíamos ver os que se acham neste extremo do espectro como “mórmons culturais”, aceitando apenas a parte do evangelho que atende seu padrão de racionalidade. Portanto, podemos acabar desandando, tanto no extremo da direita do círculo como no da esquerda — ambos como potenciais respostas às complexidades criadas pelo conflito entre a fé e a razão.

A área comum, onde coexistem princípios individualistas e autoritários, oferece uma perspectiva mais produtiva. Aqui, tanto o autoritarismo quanto o individualismo atuam como contrapesos recíprocos. Ambos os conjuntos de princípios são verdadeiros e ambos desempenham um papel em nossas decisões e atitudes — embora circunstâncias variáveis possam levar a resultados diferentes em casos específicos. Uma interação semelhante de confronto e equilíbrio poderia ocorrer entre a fé e a razão, ambas podendo se entreolhar na região em que estão sobrepostas.

Na sobreposição de nossa dupla herança, os princípios verdadeiros extraídos de ambas as tradições poderiam às vezes competir e entrar em conflito. Por exemplo, conforme observado anteriormente, a “liberdade” se encontra em uma tensão natural com “em Deus confiamos”. Se confiarmos em Deus, precisaremos pesar nossa liberdade nos limites que Ele estabelecer. E sabemos que os ensinamentos de Cristo estão carregados de paradoxos semelhantes — princípios verdadeiros que parecem estar em conflito, mas que podem ser reconciliados por doutrinas superiores. Então West Belnap estava certo. Devemos cultivar nosso compromisso religioso tanto em nosso coração quanto em nossa mente, mesmo que isso signifique que devamos, também, operar por meio de paradoxos.

Descobri, igualmente, que a melhor maneira de resolver essas tensões não é por meio de debates abstratos, mas por meio de exemplos pessoais de pessoas reais — como o élder Neal A. Maxwell, cujo coração e cuja mente funcionavam muito bem em conjunto. Por exemplo, para incentivar os profissionais da Igreja a contribuírem plenamente para o interesse tanto de suas disciplinas quanto da Igreja, ele disse: “Na BYU, não podemos permitir que o mundo condene nosso sistema de valores chamando a atenção para nossa mediocridade profissional”.43 Ele também disse aos alunos e aos professores da BYU para não terem medo de lidar com o mundo fora da Igreja, porque o mundo precisa deles. Ele os convidou a ser como José do Egito. Na fome espiritual de hoje, entrar em um confronto e recorrer aos poderes divinos em seu trabalho profissional permitirá que eles se tornem parte das soluções da sociedade, não apenas uma boca faminta a mais a ser alimentada.

Ele os exortou a levarem a sério tanto a erudição quanto o discipulado, porque a erudição fiel inclui a vida da mente e a vida do espírito. Ao mesmo tempo, ele acreditava que todas as dimensões do evangelho são relevantes para os problemas sociais modernos e que, sempre que possível, os estudiosos da Igreja deveriam colher suas premissas de pesquisa a partir dos ensinamentos do evangelho.

O equilíbrio oferece uma base importante para resolver a tensão entre princípios conflitantes. Haverá sempre maior firmeza sobre duas pernas do que sobre apenas uma. Mas a coisa vai até mais longe. Precisaríamos perguntar o que poderemos encontrar além do equilíbrio.

Notas
La Fe no es ciega - icon