“Vaidade de vaidades, diz o Pregador, vaidade de vaidades, tudo é vaidade” (Eclesiastes 1:2). A palavra “vaidade” aparece tantas vezes no livro que é natural imaginar que o autor esteja falando de vaidade no sentido que usamos hoje, orgulho excessivo da própria aparência. Mas o termo original em hebraico, hevel, traduzido como “vaidade” na versão em inglês King James, tem um significado bem diferente.
Em hebraico, hevel costuma ser usado para descrever algo inútil, passageiro ou impossível de segurar. Isaías usa o termo para dizer que a ajuda do Egito é “vã e inútil” (Isaías 30:7), e para descrever um esforço que não deu em nada: “trabalhei debalde, gastei minhas forças em vão” (Isaías 49:4). Em outros momentos, a palavra se refere a “vento” ou “sopro”, como em Isaías 57:13, e chega a ser usada para se referir a ídolos, no sentido de algo sem valor real.
Um uso especialmente revelador aparece no Salmo 39:5:
“Eis que fizeste os meus dias como alguns palmos; o tempo da minha vida é como nada diante de ti; na verdade, todo homem, por mais firme que esteja, é totalmente vaidade. (Selá.)”
A imagem é a de um sopro, algo que passa entre os dedos antes que se consiga segurar. É esse o sentido que o Pregador tem em mente ao repetir a palavra “vaidade” ao longo de Eclesiastes: ele não fala de orgulho, mas da natureza passageira da vida e das coisas que tentamos construir nela.

O trabalho que passa como o vento
Isso fica mais claro quando o Pregador olha para trás e avalia sua própria vida: “E olhei eu para todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também para o trabalho que eu, trabalhando, tinha feito, e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito, e que proveito nenhum havia debaixo do sol.” (Eclesiastes 2:11). Assim como o vento não pode ser segurado, ele reconhece que seu próprio trabalho também não tinha permanência.
O Pregador percebe, ainda, que a sabedoria em si não muda o destino final de ninguém. Ele nota que o sábio e o tolo têm os “mesmos acontecimentos” pela frente, e conclui:
“Os olhos do sábio estão na sua cabeça, mas o tolo anda em trevas; também então entendi eu que o mesmo lhes sucede a todos. Pelo que eu disse no meu coração: Como acontece ao tolo, assim me sucederá a mim; por que, pois, busquei eu mais a sabedoria? Então disse no meu coração que também isso era vaidade.” (Eclesiastes 2:14–15).
Ou seja: sábios e tolos, no fim, morrem da mesma forma. Por isso, mesmo a sabedoria pode parecer “vaidade”, já que seus benefícios nem sempre aparecem nesta vida.
Poderia parecer que essa é uma visão sombria demais da vida, mas não é essa a mensagem final do livro. Perto do fim, o texto muda de tom:
“E quanto mais o pregador foi sábio, tanto mais sabedoria ao povo ensinou…Procurou o pregador achar palavras agradáveis; e o escrito é a retidão, palavras de verdade.” (Eclesiastes 12:9–10). Mesmo sabendo que as coisas na vida são passageiras e que nem sempre saem como esperamos, o Pregador continuou ensinando sabedoria ao seu povo.
Fazer o certo, mesmo sem garantias
O resumo de Eclesiastes poderia ser assim: fazer o que é certo nem sempre traz o resultado que esperamos, mas devemos fazê-lo mesmo assim. O livro termina com essa conclusão:
“De tudo o que se tem ouvido, o fim da coisa é: Teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; porque isso é o dever de todo homem. Porque Deus há de trazer toda obra a juízo, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom quer seja mau.” (Eclesiastes 12:13–14).
A justiça de Deus, segundo o Pregador, se cumpre no julgamento final, mesmo quando ela não aparece de forma visível nesta vida.
Essa ideia se conecta a algo que o élder D. Todd Christofferson ensinou: não devemos pensar no plano de Deus como uma máquina de venda automática, em que escolhemos a bênção desejada, inserimos a quantidade certa de boas obras e recebemos o pedido na hora.
Obedecer aos mandamentos de Deus continua sendo essencial, mas nem toda bênção prometida pela obediência acontece no tempo ou na forma que esperamos. Fazemos nossa parte, e deixamos a Deus administrar o restante, tanto no campo temporal quanto no espiritual, como ele ensinou no discurso “Nosso Relacionamento com Deus”.
Fonte: Scriptural Central



