No verão de 2001, o psicólogo Marshall Duke e a pesquisadora Robyn Fivush, ambos da Universidade Emory, em Atlanta, aplicaram um questionário a crianças de 48 famílias. Eram 20 perguntas, todas no mesmo formato: “Você sabe…?”
Você sabe como seus pais se conheceram? Onde sua mãe cresceu? De onde veio o seu nome? Você sabe de alguma doença ou acidente que seus pais enfrentaram quando eram mais jovens? Sabe de alguma lição que eles tiraram de uma experiência boa ou ruim?
Duke e Fivush cruzaram as respostas com medidas de autoestima, de senso de controle sobre a própria vida e de funcionamento familiar. Quanto mais as crianças sabiam sobre a história da família, melhores eram os índices em todas as medidas.
A escala, batizada de “Do You Know?”, acabou se mostrando um dos melhores preditores isolados de saúde emocional infantil que os dois encontraram. Os resultados foram publicados em 2008 no periódico Psychotherapy: Theory, Research, Practice, Training.
O estudo ganhou um desdobramento que ninguém tinha planejado. Dois meses depois da aplicação do questionário aconteceram os atentados de 11 de setembro. Os pesquisadores voltaram às mesmas famílias e refizeram as medições. As crianças com escores altos na escala foram as que lidaram melhor com o estresse daquelas semanas.
Um ponto que os dois fazem questão de esclarecer: não é o conhecimento desses fatos que produz o efeito. Nenhuma criança fica mais resiliente por saber o nome da escola do pai. O que a escala capta é a existência do hábito de contar histórias dentro de casa. Uma criança só sabe onde os avós se conheceram se alguém contou, esse tipo de informação não se obtém por observação.

Ascendente, descendente e oscilante
Ao examinar as narrativas que essas famílias contavam sobre si mesmas, Duke identificou três formatos.
O primeiro é a narrativa ascendente. É a história do progresso contínuo: “não tínhamos nada, viemos do zero e conquistamos tudo”. Aparece com frequência em famílias de imigrantes e em relatos de ascensão social.
O segundo é a narrativa descendente. É o inverso: “tínhamos tudo e perdemos”. A família se define por uma perda: de dinheiro, de posição, de terra, de um parente.
O terceiro, Duke chamou de narrativa oscilante. Nela, a família teve altos e baixos. Construiu coisas e perdeu coisas. Passou por períodos bons e por períodos ruins, errou, se recuperou e permaneceu junta.
Segundo Duke, a oscilante é a mais saudável das três. É a que dá à criança uma identidade intergeracional e a noção de pertencer a algo maior do que ela própria. As duas primeiras entregam um roteiro fechado, que a vida cedo ou tarde vai contrariar.

O método de Asafe
O Salmo 78 tem 72 versículos e é o segundo mais longo do Saltério, atrás apenas do Salmo 119. É atribuído a Asafe, um dos levitas que Davi designou para o serviço de música do tabernáculo (1 Crônicas 6:39; 16:5). O salmo inteiro é uma recapitulação da história de Israel dirigida à geração seguinte.
Asafe começa anunciando o que vai fazer:
“Os quais temos ouvido e sabido, e nossos pais nô-los têm contado. Não os encobriremos aos seus filhos, mostrando à geração futura os louvores do Senhor, assim como a sua força e as maravilhas que fez.” (Salmos 78:3–4)
O verbo encobrir não é uma promessa de contar as coisas boas, e sim de não omitir as ruins.
O salmo alterna livramento e rebeldia em ciclos sucessivos. Asafe conta a divisão do mar e a água que saiu da rocha, e conta também a murmuração no deserto. Conta o maná, e conta que o povo “voltou atrás, e tentou a Deus, e limitou o Santo de Israel” (v. 41). Conta a conquista da terra prometida, e conta a arca capturada pelos filisteus em Siló. No meio disso está o versículo 38: “Porém ele, que é misericordioso, perdoou a sua iniquidade, e não os destruiu.”
Pela classificação de Duke, é uma narrativa oscilante. E o salmista explica por que a conta assim. No versículo 8, ao justificar o esforço de transmitir a história aos filhos, ele escreve que era “para que não fossem como seus pais, geração contumaz e rebelde”. Os episódios de fracasso estão ali porque são eles que dão à história sua utilidade para quem vem depois.
No versículo 7 ele declara seu objetivo: “para que pusessem em Deus a sua esperança, e não se esquecessem das obras de Deus, mas guardassem os seus mandamentos”.
O versículo 2 do Salmo 78: “Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade” é citado em Mateus 13:35, quando o evangelista comenta o hábito de Jesus de ensinar por parábolas.

Histórias como parte da obra
A mesma lógica aparece no Salmo 77. O salmista está em crise e faz perguntas duras: “Rejeitará o Senhor para sempre? E não tornará mais a ser favorável?” (v. 7). A virada não vem de um argumento novo, e sim de um exercício de memória: “Eu me lembrarei das obras do Senhor; certamente que eu me lembrarei das tuas maravilhas da antiguidade” (v. 11).
Na Igreja, “fazer história da família” costuma ser associado a nomes, datas e ordenanças do templo. A parte narrativa faz parte do mesmo trabalho. O FamilySearch mantém há anos a seção Recordações, que permite anexar fotos, documentos, textos e gravações de áudio ao perfil de cada antepassado na Árvore Familiar, incluindo entrevistas gravadas com parentes vivos pelo celular. A revista Liahona já tratou do assunto em textos como este, de 2017.
A recomendação prática que Duke e Fivush costumam fazer é simplesmente manter o hábito de contar essas histórias. Na mesa do jantar, no carro, na noite familiar. Contar como os avós se conheceram, que dificuldade a família atravessou e como saiu dela, o que se aprendeu com o emprego perdido ou com a mudança de cidade. Pelo estudo, o que faz diferença é a frequência da conversa, não a grandiosidade dos episódios.
O manual Vem e Segue-Me, na lição sobre esse conjunto de salmos, propõe uma atividade familiar parecida: ler juntos Salmos 66:16 e se revezar respondendo à pergunta que o versículo levanta, o que o Senhor “tem feito à minha alma”. Sugere ainda que as crianças contem suas histórias favoritas das escrituras e falem sobre o que elas ensinam a respeito do Senhor.
E na sua família, como isso funciona? Tem alguma história que você só conhece porque alguém sentou e contou sobre seus pais, seus avós, a época em que a família entrou na Igreja? Conte nos comentários. Se ainda não sabe nenhuma, a lista das 20 perguntas de Duke e Fivush pode ser um bom ponto de partida.
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