A poligamia é, talvez, o capítulo da história da Igreja que mais gera desconforto entre os próprios santos dos últimos dias. E boa parte desse desconforto vem de ideias que circulam há décadas sem muita checagem.
Em uma entrevista ao podcast Keystone, a historiadora Brittany Chapman Nash, que trabalha no Departamento de História da Igreja e é autora do livro Let’s Talk About Polygamy, foi convidada a comentar uma lista de mitos comuns sobre o assunto. Reunimos aqui os principais pontos da conversa, corroborados com fontes oficiais da Igreja.
Os homens amavam a prática enquanto as mulheres a odiavam?
A primeira suposição de muita gente é que os homens se casavam pluralmente por desejo sexual. Mas o processo era bem mais regulado do que isso sugere: um homem não podia simplesmente decidir se casar com outra mulher.
Era necessário conversar com a primeira esposa, obter uma recomendação eclesiástica e, com frequência, ter a aprovação do presidente da Igreja ou de alguém designado por ele, o Tópico de História da Igreja “Casamento plural em Utah” confirma que somente o presidente da Igreja possuía as chaves para autorizar novos casamentos plurais. Era comum, inclusive, que a futura esposa plural procurasse a primeira esposa para pedir sua bênção antes mesmo do noivado.
Na mesma linha, também não é verdade que os homens amavam a prática e as mulheres a odiavam. Nash conta que uma das coisas que mais a surpreenderam em anos de pesquisa foi encontrar tantos registros de homens relutantes em se casar pluralmente, por causa do peso da responsabilidade de sustentar mais de uma família e atender às necessidades emocionais de várias esposas e filhos.
Do lado das mulheres, a experiência variava tanto quanto se poderia esperar de qualquer casamento: algumas odiaram a poligamia a vida inteira, mas outras a escolheram ativamente, inclusive convencendo o próprio marido a se casar novamente, ou combinando com amigas e irmãs de se casarem com o mesmo homem.
O ensaio oficial “O Casamento Plural e as Famílias Polígamas nos Primórdios de Utah” reforça esse quadro variado e ajuda a desfazer o estereótipo do “harém”: dois terços dos homens polígamos tinham apenas duas esposas por vez, e famílias grandes como a de Brigham Young eram, segundo o próprio texto, “definitivamente atípicas”.
Por que alguns líderes tinham mais esposas do que os outros?
Os líderes da Igreja, porém, realmente tendiam a ter mais esposas do que os membros comuns, não por serem exceção às regras, mas por um conjunto de fatores que se somavam.
Segundo Nash, havia uma pressão eclesiástica real para que bispos, presidentes de estaca e seus conselheiros se casassem pluralmente, já que se esperava que os líderes vivessem o padrão mais alto possível, e algumas autoridades gerais reforçavam essa expectativa.
Os dois homens que tiveram mais esposas na história da Igreja foram Brigham Young e Heber C. Kimball. Brigham Young teve cerca de 55 esposas ao todo, embora nem todas tenham morado com ele, o número de mulheres com quem ele efetivamente conviveu ou teve filhos fica em torno de 17 a 19.
Ainda assim, ter cinco esposas ou mais era extremamente raro; Nash descreve esses casos como verdadeiros “unicórnios”, concentrados justamente entre os líderes de maior destaque. Também é verdade que líderes tendiam a ser financeiramente mais estáveis, o que ajudava a sustentar famílias maiores, mas, segundo ela, não há uma resposta simples para saber se homens eram chamados à liderança por já serem bem-sucedidos financeiramente, ou se prosperavam depois de assumir o cargo; os registros mostram os dois casos.
Vale notar também que o próprio entendimento sobre o selamento foi mudando ao longo do tempo. Algumas mulheres pediam para serem seladas a líderes como Brigham Young não necessariamente por afeto romântico, mas porque acreditavam que essa conexão eterna traria uma posição mais alta na vida futura, um reflexo de como a compreensão doutrinária sobre o selamento ainda estava sendo construída naquele momento, e não uma regra oficial da Igreja.

Nem sempre foi uma doutrina clara e unificada
Também é um mito achar que todos os santos dos últimos dias do século XIX entendiam e concordavam com a doutrina do casamento plural do mesmo jeito.
A prática começou de forma privada e secreta, ensinada por Joseph Smith a um círculo fechado de seguidores na década de 1830, e só foi anunciada publicamente em 1852, onze anos de uma “doutrina silenciosa” que se espalhou de boca em boca, sem uma orientação unificada da liderança da Igreja.
Isso abriu espaço para o que Nash chama de “doutrina popular”: entendimentos que variavam de congregação para congregação, dependendo do que cada líder local ensinava do púlpito, e que às vezes se contradiziam dentro do mesmo sermão. Foi só depois do Manifesto de 1890, quando a prática deixou de ser exigida, que a liderança da Igreja passou a falar sobre o tema de forma mais consistente e unificada.
Só quem praticou a poligamia pode alcançar a exaltação?
Essa confusão sobre doutrina levou a outra, ainda maior: a ideia de que só quem praticou a poligamia pode alcançar a exaltação, ou de que os santos dos últimos dias hoje precisariam “dividir” o cônjuge na eternidade. A resposta oficial da Igreja é direta: não.
O Élder Marcus B. Nash, dos Setenta, tratou exatamente disso no artigo “O Novo e Eterno Convênio”, publicado na Liahona de dezembro de 2015: “a ordenança que sela casais para a eternidade inclui convênios e bênçãos idênticos para os casamentos monogâmicos e para os casamentos plurais autorizados realizados no passado.”
O mesmo artigo cita o Élder Bruce R. McConkie: “o casamento plural não é essencial à salvação ou exaltação.” A doutrina da exaltação foi estabelecida por revelação com base no casamento entre um homem e uma mulher (D&C 132:1–28); a permissão para o casamento plural veio depois, e sempre como exceção autorizada, não como regra.

A maioria das mulheres foi forçada a se casar pluralmente?
Nash é clara: algumas mulheres realmente sentiram que foram forçadas ou pressionadas socialmente, e o mesmo valia, às vezes, para os homens, especialmente líderes locais que sentiam a cobrança de “dar o exemplo”. Mas há também fartos registros de mulheres reivindicando a decisão como inteiramente sua.
Em uma carta de 1883 publicada no jornal Woman’s Exponent, uma mulher chamada M. E. Tallmadge escreveu: “Entrei no casamento plural por livre e espontânea vontade, porque sabia que era certo. […] Onde está o homem ou o grupo de homens que poderia obrigá-las a isso?”
O próprio ensaio oficial da Igreja traz depoimentos parecidos, incluindo uma carta de líderes mulheres ao Senado americano em 1886 afirmando que “nenhuma mulher mórmon, jovem ou idosa, é obrigada a se casar, muito menos a entrar em poligamia”.
Um ângulo menos discutido, levantado por Nash, é que a pressão às vezes recaía sobre as primeiras esposas. A revelação registrada em Doutrina e Convênios 132:64–65, conhecida como a “lei de Sara”, diz que, se uma esposa se recusasse a aceitar que o marido se casasse pluralmente sem um bom motivo, ele estaria isento de precisar do consentimento dela. Isso colocava algumas primeiras esposas em uma posição difícil, mesmo quando a mesma revelação também previa que o marido deveria antes ensinar e buscar o apoio dela.
Ligado a esse tema de coerção está outro mito: o de que missionários estariam recrutando ou traficando jovens mulheres de outros países, principalmente da Escandinávia e da Inglaterra, para “alimentar” a poligamia em Utah.
Circularam, de fato, caricaturas políticas alarmistas sobre isso na Europa da época. Mas, segundo Nash, não há evidência de que esse fosse o objetivo do trabalho missionário, embora seja verdade que alguns missionários tenham conhecido suas futuras esposas durante a missão, o que provavelmente ajudou o boato a se espalhar.
Quase todo mundo em Utah praticava poligamia
Não é verdade, mesmo no auge da prática. Segundo o texto oficial da Igreja, provavelmente metade das pessoas que viviam no território de Utah em 1857 passaram, em algum momento, pela experiência de viver em uma família polígama, como marido, esposa ou filho.
Por volta de 1870, esse número já havia caído para algo entre 25% e 30% da população, e continuou diminuindo nas duas décadas seguintes. Ou seja, mesmo no seu período mais forte, a proporção nunca chegou perto da maioria, e só diminuiu com o tempo.
“Monogamia é justa; poligamia é injusta”
Um dos pontos mais interessantes levantados por Nash é a comparação com o casamento monogâmico da mesma época fora de Utah.
No resto dos Estados Unidos do século XIX, o casamento monogâmico também era profundamente desigual para as mulheres, que geralmente não podiam ter propriedades em seu próprio nome, perdiam a guarda dos filhos em divórcios e tinham pouquíssimo poder de decisão legal.
Em Utah, em boa parte por causa dos ajustes exigidos pela própria prática da poligamia, as mulheres podiam ter propriedade própria, tinham leis de divórcio mais favoráveis e mantinham a guarda dos filhos com mais frequência. Utah também foi um dos primeiros territórios dos Estados Unidos a conceder o voto às mulheres, em 1870, quase cinquenta anos antes do direito ao voto feminino ser reconhecido em todo o país.

Existiam famílias polígamas felizes, e também muito sofridas
Assim como em qualquer casamento, a experiência da poligamia variava enormemente de família para família, havia histórias verdadeiramente felizes e também histórias trágicas, por motivos muito diferentes entre si.
Um fator que aparece com frequência nos registros é o quanto a presença do marido em casa fazia diferença. Mulheres cujo marido praticamente não aparecia, que chegaram a registrar, por exemplo, que ele “parecia mais um visitante do que um cônjuge”, já que só o viam algumas vezes por ano, tendiam a relatar mais sofrimento, e precisavam desenvolver uma independência que não era natural para a maioria das mulheres daquela época.
Por outro lado, quando o marido se envolvia mais e conseguia prover melhor financeiramente, isso costumava suavizar bastante a experiência da família.
As próprias esposas também encontravam apoio umas nas outras. É comum ver, nos registros, relatos de esposas que dividiam as tarefas domésticas, se ajudavam financeiramente, inclusive bancando o estudo ou o desenvolvimento profissional uma da outra, e tinham em quem confiar sobre assuntos domésticos que não se sentiam à vontade para conversar com mais ninguém.
Quando uma esposa morria ainda jovem, era comum que outra esposa do mesmo marido assumisse o cuidado dos filhos dela, permitindo que as crianças permanecessem na mesma família em que já viviam, o que, segundo Nash, provavelmente era um alívio para muitas mulheres.
Uma das histórias que mais marcaram Nash em toda a pesquisa foi a de Martha Kragen Cox, que escreveu com honestidade sobre os altos e baixos de sua experiência, mas relatou uma relação genuinamente positiva com suas esposas irmãs, mesmo tendo escolhido a poligamia contra a vontade da própria família e sido rejeitada por amigas por causa dessa decisão.
Em sua autobiografia, Martha escreveu:
“É uma alegria saber que lançamos as bases de uma vida que está por vir enquanto vivíamos naquele casamento plural, que nós três, que nos amávamos mais do que irmãs, filhas de uma mesma mãe, seguiremos de mãos dadas por toda a eternidade. Esse conhecimento vale mais para mim do que ouro, e compensa mais do que qualquer tristeza que já conheci.”
Martha não teve uma vida fácil, perdeu filhos e viveu períodos de pobreza extrema, mas encontrou força justamente nessas relações.
Para Nash, contar esse tipo de história ao lado das mais difíceis era uma prioridade ao escrever o livro: ela queria ajudar os leitores a enxergar um retrato equilibrado da poligamia, evitando tanto as histórias sensacionalizadas quanto as histórias boas demais para serem representativas, os dois exageros que, segundo ela, tornam mais difícil entender como a poligamia foi realmente vivida no dia a dia.

E hoje: a Igreja poderia voltar a praticar poligamia?
Não há indicação de que a Igreja voltaria a praticar a poligamia caso ela se tornasse legal novamente. Em 2018, durante uma transmissão da Igreja no Templo de Nauvoo, o Élder Quentin L. Cook, do Quórum dos Doze Apóstolos, declarou que “nos conselhos superiores da Igreja há o entendimento de que a poligamia, do jeito que foi praticada, cumpriu seu propósito, e devemos honrar aqueles santos, mas esse propósito já foi cumprido.”
Também é um mito achar que a Igreja ainda “pratica” poligamia hoje só porque um homem pode ser selado a mais de uma mulher, geralmente porque uma esposa faleceu e ele se casou e foi selado novamente.
Desde 1998, a Igreja também passou a permitir que uma mulher falecida seja selada a mais de um homem por procuração, quando aplicável, o que já tira essa possibilidade da exclusividade masculina.
E, mais importante, ninguém será obrigado a permanecer selado contra sua própria vontade: o Manual Geral da Igreja, item 38.4.1.10, afirma que “Deus não exigirá que ninguém permaneça em um relacionamento selado por toda a eternidade contra sua vontade. O Pai Celestial vai garantir que cada pessoa receba todas as bênçãos que seus desejos e escolhas permitirem.”
Por fim, também não é preciso acreditar que a poligamia do século XIX estava certa para ser considerado um santo dos últimos dias fiel hoje.
Segundo registros históricos da época, a crença no casamento plural só apareceu como pergunta em entrevistas de recomendação para o templo em 1856, bem no auge da Restauração, um período de recomprometimento espiritual mais intenso, e nunca mais voltou a ser exigida depois disso. Ou seja, mesmo quando a prática era mais valorizada, isso durou apenas um ano como critério formal de dignidade.
Sabemos tudo sobre a poligamia?
Vale terminar com uma ressalva da própria Nash: nem mesmo os historiadores que dedicam a carreira a esse assunto diriam que sabem tudo sobre a poligamia entre os santos dos últimos dias. Períodos como o de Nauvoo, por exemplo, ainda têm muitas lacunas por causa da escassez de fontes da época.
E, mesmo com todos os fatos possíveis em mãos, viver em 2026 torna difícil recriar completamente o que era viver esse princípio no século XIX. Às vezes, a pergunta mais honesta não é “por que isso aconteceu”, mas se conseguimos ficar em paz mesmo sem todas as respostas, confiando que essa foi uma decisão que cada pessoa daquela época fez por si mesma, e que não precisa pesar sobre os ombros de quem vive a fé hoje.
A própria Nash é sincera sobre sua trajetória pessoal com o tema. Crescendo em St. Louis, no Missouri, ela sentia a necessidade de se explicar sempre que o assunto vinha à tona, mesmo sabendo pouco sobre a história real, e, por muito tempo, sua reação foi simplesmente negar qualquer relação com a prática, como algo vergonhoso e desconectado de quem ela era.
Foi estudando a fundo a poligamia que essa vergonha foi dando lugar a outra coisa: entender que a prática faz parte da história da Igreja e de quem os santos dos últimos dias são hoje, sem que isso seja motivo de constrangimento nem exija de ninguém a obrigação de “defender” as escolhas de quem viveu naquela época.
Segundo ela, esse tipo de compreensão histórica ajuda a soltar um peso que muita gente carrega sem perceber, o de sentir que precisa justificar decisões que nunca foram suas.
Ao ser perguntada o que gostaria de perguntar a uma sala cheia de mulheres polígamas do século XIX, Nash respondeu que gostaria de saber se conseguiu representar bem as vozes delas depois de tantos anos de pesquisa.
E o que diria a elas, se pudesse? Que escrevessem suas próprias histórias, porque, segundo ela, é justamente a falta de registros pessoais, principalmente dos homens, que torna certos períodos dessa história tão difíceis de reconstruir hoje.
Ela diria o mesmo, talvez com ainda mais ênfase, a uma sala cheia de homens polígamos: é bem mais raro encontrar registros deles falando sobre a vida doméstica e os próprios sentimentos, e não apenas sobre negócios.
“Toda pessoa é parte de uma época”, resume Nash, “e precisamos de cada voz.” Talvez a melhor síntese de sua conclusão sobre o tema seja a citação que ela gosta de lembrar, atribuída à cientista Marie Curie: nada na vida deve ser temido, apenas compreendido, e quanto mais entendemos, menos motivo temos para ter medo.
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