“Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; e era esse homem íntegro, reto e temente a Deus e desviava-se do mal” (Jó 1:1).
O Livro de Jó contém algumas das expressões mais incomuns de todo o Antigo Testamento. Muitos estudiosos já se debruçaram sobre esse mistério ao longo dos anos, alguns tentando datar o texto com base no vocabulário usado, outros apenas tentando compreendê-lo.
Mas essa linguagem tão particular, que reúne palavras vindas de praticamente todo o mundo conhecido da época, pode ser justamente um sinal para o leitor: a mensagem de Jó não se destina apenas aos israelitas, mas a todas as pessoas.
Uma mensagem que vai além de Israel
Uma das evidências de que Jó foi concebido como um livro de alcance universal está nos lugares mencionados no texto. Logo na primeira frase, lemos que Jó vivia “na terra de Uz”, e ninguém sabe ao certo onde ficava esse lugar.
Acredita-se que fosse ao sul de Israel, talvez na região do Hejaz, mas não há certeza alguma. Esse mistério parece fazer parte da mensagem: Uz era uma região obscura, aparentemente fora dos limites de Israel propriamente dito, o que sugere que a história não precisa se aplicar apenas a quem vivia em Judá ou descendia dali, mas pode se aplicar a qualquer pessoa. (O rio Jordão é mencionado em Jó 40:23, o que indica que o cenário do livro provavelmente não fica tão distante de Israel assim.)
Os amigos de Jó seguem o mesmo padrão. Elifaz, o temanita, Bildade, o suíta, e Zofar, o naamatita (Jó 2:11), também vêm todos de fora da terra de Israel.
Temã, terra natal de Elifaz, ficava em Edom. Bildade, descendente de Suá, provavelmente vinha da região da Arábia, já que Suá é mencionado em Gênesis 25:1–2 como habitante dali. Já o lugar de origem de Zofar, Naamá, é tão pouco conhecido quanto a própria terra de Uz.

Um livro cheio de palavras emprestadas
O alcance universal do Livro de Jó também se percebe no próprio vocabulário do texto, repleto de palavras emprestadas de outros idiomas. Encontram-se termos vindos do aramaico, do egípcio, do acadiano e, possivelmente, até de línguas árabes.
O livro reúne mais de oitenta e cinco palavras não semíticas únicas, sem contar aquelas que aparecem repetidas vezes, e há ainda um número maior de empréstimos de outras línguas semíticas, como o aramaico, tantos que os estudiosos têm dificuldade até de contabilizá-los todos.
Essa quantidade incomum de palavras emprestadas em Jó, muito superior à de outros livros bíblicos, sugere fortemente que seu autor quis retratá-lo como um texto universal, capaz de se aplicar a qualquer pessoa, não importa onde ela viva.
Uma vida mais complexa do que parece
Embora todos os livros das escrituras sejam, em certo sentido, universais e aplicáveis a pessoas de qualquer lugar, existe uma lógica especial em tornar esse caráter tão explícito no Livro de Jó. A literatura sapiencial, gênero ao qual Jó pertence, costuma retratar o mundo de forma bidimensional: quem faz o bem é sempre recompensado ainda nesta vida, e quem faz o mal é sempre punido ainda nesta vida.
Os amigos de Jó representam justamente essa visão convencional e simplificada, típica da literatura sapiencial tradicional, e é por isso que eles presumem que o sofrimento de Jó só poderia ser resultado de alguma maldade cometida por ele.
O Livro de Jó, porém, lembra ao leitor que a vida é mais complexa do que isso: às vezes os justos sofrem por um tempo, e às vezes os iníquos prosperam por um tempo. Isso é verdade para todas as pessoas, não importa onde vivam.

Deus responde em meio ao redemoinho
Boa parte do Livro de Jó é composta pelas explicações insatisfatórias que os amigos de Jó oferecem para justificar seu sofrimento, explicações que Jó refuta uma a uma.
Mas o clímax do livro não envolve os amigos de Jó, e sim o próprio Deus, que fala a Jó em meio a um redemoinho e o lembra de que está no controle de todas as coisas, compreendendo o motivo do sofrimento humano mesmo quando os próprios seres humanos não o compreendem.
Tanto a linguagem do livro quanto o fato de Jó e seus amigos estarem posicionados fora do território central de Israel sugerem que essa compreensão à qual Jó chega ao conversar com Deus pode se aplicar a todas as pessoas.
Em qualquer lugar do mundo, é possível que alguém tenha dificuldade para entender por que coisas ruins acontecem a pessoas boas, mas, não importa de onde essa pessoa seja, Deus a conhece e compreende o motivo de seu sofrimento.
Fonte: Scripture Central
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