Meu pai, agora com oitenta e cinco anos, conta uma história de quando tinha cinco anos e visitava seus avós em Heber, Utah. Em uma tarde ensolarada de verão, ele entrou no jardim da avó e começou a colher e comer cebolas, que ele afirma serem quase tão doces quanto maçãs.
Quando a vovó DeGraff saiu e o pegou, ela deixou claro que seu comportamento era errado, até pecaminoso. Ao final da repreensão, meu pai acreditava que ele era ruim.
Ele não se lembra de quanto tempo ficou sentado na terra, atordoado, imerso na vergonha e cheirando a cebolas, até que seu avô finalmente apareceu. O vovô DeGraff disse: “Steve, o que você fez foi errado. Mas eu te amo. Não há ninguém para quem eu preferiria dar essas cebolas do que você. Tudo o que você precisa fazer é pedir.” Meu pai disse: “O perdão do vovô me trouxe de volta à minha humanidade.”
Sabemos o quão bom, alegre e libertador é receber perdão. Isso nos conecta à pessoa que nos perdoa e pode até nos ajudar a nos sentirmos mais conectados com Deus.
Entre o discurso e a prática do perdão
Mas perdoar nem sempre é fácil. C.S. Lewis certa vez escreveu:
“Todos dizem que o perdão é uma ideia bonita, até terem algo para perdoar.” Mais recentemente, a irmã Kristen Yee, segunda conselheira na Presidência Geral da Sociedade de Socorro, ensinou essa mesma verdade: “Perdoar pode ser uma das coisas mais difíceis de se fazer e uma das coisas mais divinas de se vivenciar.”
É normal ter dificuldade em perdoar. É normal desejar retribuição ou vingança quando outros pecam — especialmente quando seus pecados nos ferem.
Ainda assim, quando Cristo estava na cruz, Ele abriu a porta para o nosso perdão e arrependimento. Em um momento simples, mas decisivo na eternidade, Cristo perdoou aqueles que O crucificaram: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”
Nesta Páscoa, ao refletirmos sobre a Expiação de nosso Salvador, podemos aprender pelo menos sete lições sobre a natureza do perdão a partir do tempo de Cristo na cruz.
Lição um: adoramos um Deus amoroso e misericordioso
A primeira palavra que Cristo pronuncia no processo de perdoar aqueles que O crucificaram é “Pai”. Cristo já havia nos mostrado, na parábola do Filho Pródigo, como nosso Pai reage a um filho imperfeito:
“E, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão, e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou.”
Não há repreensão nessa oferta de perdão; não há demora. Cristo nos mostra claramente, nessa parábola, que Deus nos perdoa de forma amorosa e completa. Quando Cristo busca esse perdão divino no momento de Sua própria morte, Ele sabe que esse dom será concedido. Simbolizado na própria cruz de Cristo, está um Deus de braços sempre abertos, disposto a nos perdoar e esperando para nos acolher.

Lição dois: mesmo perdoando, ainda podemos sentir dor
Mesmo quando perdoamos, ainda podemos sentir dor, tristeza ou perda como resultado do que aconteceu. Quando Cristo perdoou aqueles que O feriam, a dor que Ele sentia não cessou imediatamente.
Então, por que perdoar, sabendo que ainda podemos sentir os efeitos da ofensa? Porque Cristo prometeu nos libertar. Ele “proclamará liberdade aos cativos” e “porá em liberdade os oprimidos”.
Quando não conseguimos perdoar, nos tornamos esses cativos. Cristo nos deu um caminho para deixar de viver em nossa dor e amargura. Nossa escolha de sair dessas prisões que Cristo abriu para nós pode se basear na confiança nesta promessa:
“Tudo o que é injusto nesta vida pode ser corrigido por meio da Expiação de Jesus Cristo”.
Nossa dor pode não desaparecer magicamente ao perdoar, mas o perdão pode nos ajudar a mudar de direção. O élder Gerrit W. Gong ensinou:
“Com frequência, a condenação se concentra no passado. O perdão contempla o futuro de maneira libertadora.”
Lição três: o perdão coloca a responsabilidade nos lugares certos
Durante Seu ministério, Cristo perdoou pecados pessoalmente. Mas na cruz, Ele pede que Deus o faça: “Pai, perdoa-lhes.” Cristo entregou os pecados deles a Deus.
Podemos receber algo doloroso, mas não é nossa responsabilidade carregar isso para sempre, nem entender por que o ofensor nos entregou isso. O Élder David E. Sorenson disse:
“O perdão significa que os problemas do passado não mais ditarão nosso destino, e que podemos concentrar-nos no futuro com o amor de Deus em nosso coração.”
Há um certo alívio no fato de que o perdão não depende do ofensor. O perdão é uma forma de nos retirarmos da equação com quem nos feriu: passamos a lidar diretamente com Cristo, e permitimos que Cristo lide com o ofensor.
Lição quatro: precisamos perdoar a fraqueza humana
Quando Cristo pediu ao Pai que perdoasse aqueles que O crucificavam, Ele não falou sobre a maldade deles, mas sobre sua ignorância: “Eles não sabem o que fazem.” Cristo constantemente perdoava a humanidade. Ele perdoava esquecimentos e hesitações, perdoava as pessoas por estarem com fome e cansadas, perdoava a falta de fé e o medo em momentos inoportunos.
Teremos oportunidades diárias de perdoar a fraqueza humana, inclusive a nossa. A poetisa Maya Angelou disse certa vez:
“Perdoe-se por não saber o que você não sabia antes de aprender.”
Essa disposição para perdoar a humanidade é essencial para nossa felicidade.
Nosso filho mais velho, Owen, tinha quatro anos quando expressou seus sentimentos por não poder participar de uma noite de filme em família. Ele deixou um bilhete em papel verde: “Eu amo vocês. Mas ainda estou bravo.” O perdão é o que nos permite manter o amor em nosso coração, mesmo enquanto lidamos com os atritos da vida diária.

Lição cinco: por meio do perdão, nossa dor pode ser transformada
Nesta vida, sofreremos. As escrituras nos dizem isso, e já experimentamos isso muitas vezes. O filósofo alemão Dietrich von Hildebrand nos lembrou que às vezes confundimos “a transformação do sofrimento por Cristo com a eliminação do sofrimento”. O sofrimento faz parte da vida, mas por meio de Cristo sabemos que ele não é nosso destino final.
O sofrimento de Cristo não foi o fim, mas Ele precisou passar pela morte para ser ressuscitado para uma nova vida. Da mesma forma, temos a promessa de que Deus pode transformar tudo isso, nossa dor, destruição e luto, não apagando as dificuldades, mas transformando-as.
Isaías nos ensina que beleza pode surgir das cinzas de nossa vida, que alegria pode nascer da tristeza e louvor pode vir da aflição. Muitas vezes não citamos o versículo seguinte dessa passagem, mas ele mostra que até as coisas mais difíceis, as “desolações de muitas gerações”, até mesmo “cidades devastadas”, serão restauradas por meio de Jesus Cristo.
Lição seis: o perdão deve fazer parte da nossa natureza
O perdão é a única parte da oração do Senhor que Cristo enfatiza repetidamente. Quando Ele fala da nossa necessidade diária de pão, o perdão também é mencionado.
A prontidão com que Cristo perdoou aqueles que O feriam na cruz indica que o perdão fazia parte de Sua própria natureza. Uma aluna de religião da BYU escreveu sobre como uma natureza perdoadora poderia criar uma cultura de amor em sua casa:
“Quero criar um espaço onde o perdão não seja retido, nem conquistado, nem adiado, mas simplesmente dado. Quero que meus filhos e meu cônjuge sintam que erros fazem parte da vida, não o fim do amor.”
O perdão não é uma lista de tarefas, mas uma forma de pensar e sentir que pode se tornar parte de quem somos. Podemos até nos tornar tão perdoados que nem procuramos ofensas. Não pegar algo desde o início significa não precisar descobrir depois como deixá-lo.
Lição sete: não estamos sozinhos ao perdoar
No auge de Sua agonia, Cristo não estava sozinho. Ele teve ajuda celestial no Getsêmani e no Calvário quando pediu ao Pai que perdoasse aqueles que O feriam. Nós também não estamos sozinhos ao perdoar.
A irmã Yee ensinou que Cristo “não nos pede que façamos isso [perdoar] sem Sua ajuda, Seu amor e Sua compreensão. Por meio de nossos convênios com o Senhor, cada um de nós pode receber o poder e a orientação fortalecedores, e a ajuda de que precisamos para perdoar e ser perdoados..”
Corrie Ten Boom, sobrevivente do Holocausto, encontrou um ex-guarda no porão de uma igreja em Munique, dois anos após o fim da guerra. Ele não a reconheceu, mas ela lembrava claramente da morte de sua irmã por causa da crueldade daquele homem. Ele se aproximou pedindo seu perdão. Ela disse que foi a coisa mais difícil que já teve que fazer.
“Fiquei ali, com o coração tomado por frieza. Mas o perdão não é uma emoção, eu também sabia disso. ‘Jesus, ajuda-me!’ orei em silêncio. ‘Eu posso levantar minha mão, posso fazer isso. O Senhor supre o sentimento.’
De forma rígida, mecânica, estendi minha mão à que estava estendida para mim. E, ao fazer isso, algo incrível aconteceu. Uma corrente começou em meu ombro, percorreu meu braço até nossas mãos unidas. E então esse calor de cura pareceu inundar todo o meu ser, trazendo lágrimas aos meus olhos. ‘Eu te perdoo, irmão!’ exclamei. ‘De todo o meu coração!’
Por um longo momento, seguramos as mãos um do outro, o ex-guarda e a ex-prisioneira.
Nunca havia sentido o amor de Deus tão intensamente como naquele momento.”

O que o perdão não é
Quando perdoar parece impossível, podemos estar assumindo que precisamos fazer mais do que Cristo realmente pediu. O élder Neil L. Andersen escreveu uma lista útil sobre o que o perdão não é.
- Perdoar não significa deixar de nos proteger, proteger nossas famílias ou outras pessoas.
- Perdoar não significa manter um relacionamento com alguém que não é confiável. A resposta de Cristo àqueles que queriam prejudicá-Lo em Nazaré é instrutiva: Ele não discutiu, não tentou persuadir, nem invocou punições. Cristo simplesmente “seguiu o seu caminho”, e nunca voltou. O perdão nem sempre inclui reconciliação.
- Perdoar não é aprovar a injustiça. O élder Jeffrey R. Holland ensinou que Cristo nunca chamou o mal de bem, e nós também não devemos.
- Perdoar não é ignorar a dor ou repulsa que sentimos pelas ações dos outros. Devemos ser pacientes conosco enquanto curamos e avançamos rumo ao perdão.
- Perdoar não é esquecer, mas lembrar em paz.
O élder Holland explicou que nenhum de nós “foi além do alcance do amor divino. Não lhes é possível afundar tanto a ponto de não ver brilhar a infinita luz da Expiação de Cristo.” O perdão divino que Deus nos oferece é completo e cheio de alegria.
Deus mantém Seus braços de perdão sempre abertos para nós, esperando nos acolher sem demora. Quando escolhemos perdoar, como Cristo fez na cruz, o amor de Deus pode fluir por meio de nós, e nos abrimos para a conexão com outras pessoas e com Deus.
Fonte: Public Square Magazine
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