O arrependimento pode ser um tema desconfortável. Ninguém quer se arrepender, embora todos desejemos já ter nos arrependido, deixar isso para trás.

Por que resistimos ao arrependimento? Em grande parte, por medo.

  • Medo de julgamento
  • Medo de constrangimento
  • Medo de decepcionar
  • Medo de perder um chamado desejado, ser desassociado ou perder a condição de membro

As consequências do arrependimento às vezes parecem mais dolorosas do que o próprio pecado.

O presidente Nelson abordou esse medo do arrependimento em sua conferência de abril de 2022, no discurso “O Poder do Ímpeto Espiritual”. Ele nos convidou a “descobrir a alegria do arrependimento diário” ao dizer:

“Não temam nem adiem o arrependimento. Satanás se deleita com seu sofrimento. Não demorem. Removam a influência dele de sua vida! Comecem hoje a vivenciar a alegria que advém de se abandonar o homem natural. O Salvador nos ama sempre, mas especialmente quando nos arrependemos. Ele prometeu que embora “os montes se moverão, e os outeiros tremerão (…) minha benignidade não se desviará de ti”.(Isaías 54:10).”

Que palavra tão bela de Isaías — benignidade.

Então, o que o arrependimento realmente significa? Como ele pode ser ao mesmo tempo doloroso e cheio de alegria?

Seu significado foi mudando ao longo dos anos, por meio das diferentes traduções da Bíblia. No latim, a palavra para “arrepender-se” significa “entristecer-se” e está associada a “punição” ou “penalidade”.

No Novo Testamento, a palavra “arrepender-se” vem do grego metanoia ou metanoeo, que significa “mudar a mente” ou “pensar de forma diferente depois”. Observe que não significa mudar de ideia no sentido de “acho que vou escolher carne em vez de frango”. Significa uma mudança completa de propósito ou de visão de mundo, uma mudança de filosofia ou entendimento.

O equivalente hebraico para “arrepender-se”, teshuvá, vem da raiz “retornar”. Essa palavra enfatiza literalmente “dar meia-volta” ou voltar-se para Deus, focando mais na ação do que apenas no arrependimento emocional.

Em resumo, ao pensarmos sobre o arrependimento, devemos focar menos na ideia latina de punição pelo pecado e mais no conceito grego e hebraico de afastar-se do pecado e voltar-se para Deus.

O arrependimento não está necessariamente ligado a pecados graves que exigem confissão ao bispo. Ele também acontece quando nos afastamos do Salvador. Quando me sinto ansiosa, deprimida ou desajustada, geralmente é porque não tenho nutrido meu relacionamento com o Salvador.

E, de fato, quando volto às escrituras e à oração, conversas com Deus, descubro que Sua “benignidade não se afastou de mim” — eu é que me afastei Dele. E Ele está sempre ali, pronto para me receber de volta.

Um chamado ao arrependimento pode ser, na verdade, um convite para voltar a um relacionamento mais ativo com Deus. Você pode estar preenchendo sua vida com muitas coisas boas: trabalho, estudos, amizades, serviço, férias em família, e ainda assim precisar se arrepender.

O verdadeiro arrependimento leva à alegria

Quero compartilhar minha primeira experiência ao realmente me arrepender. Eu era adolescente na BYU quando pedi para conversar com meu bispo pela primeira vez. Não importa o motivo. Basta dizer que eu me sentia distante de Deus, como se Ele estivesse fora do meu alcance, como se eu nunca fosse boa o suficiente para me aproximar Dele.

Meus pais eram membros da Igreja, mas eu não fui criada em um lar típico de santos dos últimos dias. Não tínhamos oração em família, não liamos as escrituras nem falávamos sobre o evangelho. Quando os mestres familiares apareciam sem avisar, meus pais corriam para desligar a TV, esconder as xícaras de chá e os cinzeiros, e ouviam a mensagem espiritual com certo desconforto.

Mesmo assim, eles levavam minha irmã e eu à igreja quase todos os domingos e voltavam para nos buscar depois. Ficávamos tentando entender sozinhas as doutrinas e mandamentos que ouvíamos na reunião sacramental, comparando com a forma como vivíamos.

Meu pai fumava, bebia cerveja e se envolvia com outras pessoas; minha mãe tomava chá o tempo todo. Eu sabia que nossa família não estava vivendo como deveria.

Uma vez, quando respondi uma pergunta na Primária, uma colega disse com desprezo: “Como você pode saber de alguma coisa? Seu pai é só um sacerdote.” Eu não entendia exatamente o que aquilo significava (e, já adulta, me pergunto como uma criança sabia disso), mas pelo tom dela eu percebi que era algo negativo, algo que também recaía sobre mim, como se fosse permanente.

“Eu tinha esperança!”

E acreditava firmemente em duas coisas que aprendi na Escola Dominical e na reunião sacramental: que A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias era a única igreja verdadeira, e que não havia esperança para mim. Que triste uma criança se sentir assim!

Claro que eu estava errada. Não havia nada que eu tivesse feito que pudesse me impedir de voltar ao meu lar celestial. Ainda me lembro de sair do escritório do bispo naquela noite. Eu me sentia mais leve que o ar, mais feliz do que nunca. Eu tinha esperança!

Era uma noite fria e clara, com neve no chão, e eu literalmente joguei minhas luvas para o alto, sentindo uma alegria completa, quase como um “toque de mãos” com Deus. Aquela era a alegria do arrependimento, a alegria de aprender a voltar meu coração e minha vida a Deus, de forma pessoal e diária. E eu fiz isso.

Você também pode sentir essa alegria ao se arrepender diariamente, ou seja, ao voltar-se ao Salvador todos os dias. O presidente Nelson ensinou um caminho de arrependimento diário, voltar-se diariamente para Jesus Cristo. Ele disse:

“Com assustadora rapidez, um testemunho que não é nutrido diariamente “pela boa palavra de Deus” pode desmoronar. Portanto, o antídoto para o artifício de Satanás é claro: precisamos de experiências diárias de adoração ao Senhor e de estudo do evangelho. Imploro que deixem que Deus prevaleça em sua vida. Deem ao Senhor uma parte justa de seu tempo. Ao fazerem isso, observem o que acontecerá a seu ímpeto espiritual positivo.”

Vamos observar alguns exemplos nas escrituras de pessoas que retornaram ao se arrependerem e sentiram a alegria de um relacionamento mais profundo com Deus por meio do ímpeto espiritual positivo.

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A mulher junto ao poço

Os judeus desprezavam os samaritanos e evitavam contato com eles, chegando a fazer caminhos mais longos para não passar por Samaria. De fato, os discípulos de Jesus “se admiraram de que estivesse falando com uma mulher samaritana” (João 4:27).

Talvez dissessem algo como: “Como ela pode saber de alguma coisa? O pai dela é só um sacerdote.”

Mesmo assim, Jesus foi diretamente a Samaria, ao poço de Jacó, e até aquela mulher cujo coração estava pronto para se converter. Ela tinha um passado pecaminoso, e Jesus sabia disso. Quando ela disse: “Não tenho marido”, Ele respondeu: “Disseste bem: não tenho marido; porque tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu marido” (João 4:17–18).

Muitos de nós ficaríamos envergonhados ou ofendidos ao sermos expostos assim. Poderíamos reagir com raiva ou sair indignados. Mas não aquela mulher. Jesus sabia algo ainda mais importante sobre ela do que seu passado: Ele conhecia seu coração. (João 4:13–14). Ela sentiu seu espírito despertar quando Jesus disse:

“Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna.”

Ela estava disposta a suportar qualquer constrangimento para receber aquela água. “Senhor”, disse ela, “vejo que és profeta.”

Não estamos sozinhos

E o que ela fez em seguida? Ela não apenas se voltou ao Salvador; ela levou outras pessoas até Ele. As escrituras dizem que ela “Deixou o seu cântaro, foi à cidade e disse: Vinde, vede um homem que me disse tudo o que tenho feito; porventura não será este o Cristo?”

O que a convenceu de que Jesus era o Messias? Ela O conhecia porque Ele realmente a conhecia. E Ele a amava. Ele não a puniu por seus pecados passados. Ele simplesmente lhe ofereceu a água viva ali mesmo, e ela aceitou.

Às vezes podemos pensar que não somos dignos de nos aproximar do Salvador, assim como meu eu adolescente achava que nunca seria digno do céu. Podemos acreditar que precisamos vencer nossos pecados sozinhos antes de nos aproximarmos de Deus. Mas tudo o que precisamos fazer é voltar-nos a Ele, e Ele nos tornará dignos.

Depois de ouvir a maravilhosa mensagem de Jesus, essa mulher compartilhou sua fé com tanta convicção que “muitos creram Nele”. Ela se tornou uma verdadeira discípula de Jesus Cristo, aprendendo e ministrando aos que estavam ao seu redor.

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A mulher que lavou os pés de Jesus com lágrimas

A mulher que lavou os pés de Jesus com suas lágrimas teve uma experiência semelhante com a alegria do arrependimento. Não sabemos o passado dessa mulher, e não precisamos saber. Seu exemplo está no que ela fez depois, não no que fez antes.

Jesus havia sido convidado para jantar na casa de um fariseu chamado Simão, e enquanto Ele estava ali, uma mulher chegou trazendo um vaso de alabastro com um perfume precioso, chorando e lavando os pés Dele com suas lágrimas. Simão zombou “dentro de si”, pensando que Jesus deveria saber melhor do que se associar com essa “pecadora” (Lucas 7:37–39).

Aparentemente lendo os pensamentos de Simão, Jesus corrigiu gentilmente seu anfitrião. Ele contou a parábola dos dois devedores e então disse: “Vês tu esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; mas esta regou os meus pés com lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Não me deste ósculo; mas esta, desde que entrou, não cessou de beijar os meus pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta ungiu os meus pés com unguento. Por isso te digo que os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco é perdoado, pouco ama.” Então disse a ela: “Os teus pecados estão perdoados” (Lucas 7:44–48).

Lembre-se das palavras do presidente Nelson: “O Salvador nos ama sempre, mas especialmente quando nos arrependemos.” Por quê? Não porque Ele quer que experimentemos a miséria do pecado e o constrangimento da confissão, mas porque Ele quer que experimentemos a alegria de voltar. Ele quer nos envolver com Seu Espírito em um abraço consolador.

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Rei Davi

O rei Davi

O último exemplo que quero compartilhar é o rei Davi. Não vou entrar em detalhes sobre seu pecado aqui. Todos conhecemos a história de como ele seduziu Bate-Seba, engravidou-a e depois fez com que seu marido fosse abandonado no campo de batalha para morrer. É uma história vergonhosa e triste, que Davi tentou esconder repetidamente, e, ao fazer isso, só piorou cada vez mais a situação.

O que mais importa é como Davi se arrependeu, isto é, como ele voltou a Deus.

Pouco tempo depois da morte de Urias, o Senhor enviou o profeta Natã para chamar Davi ao arrependimento. Ele começou com a parábola da cordeirinha, na qual um homem rico, que possuía muitos rebanhos, tomou a única cordeira de seu vizinho pobre para servir a um viajante.

Então Natã pediu a opinião do rei sobre como aquela injustiça deveria ser tratada (2 Samuel 12:1–4). Davi ficou indignado com a atitude egoísta do homem rico e respondeu: “Vive o Senhor, que digno de morte é o homem que fez isso!” (2 Samuel 12:5).

Sem perceber, Davi havia pronunciado sua própria sentença, pois Urias era o homem pobre, Bate-Seba era a cordeirinha, e o próprio Davi era o homem rico da parábola. Então Natã declarou: “Tu és esse homem!”

Essas palavras atravessaram Davi como uma espada. Ele havia passado meses tentando esconder seu pecado. Mas agora tudo estava revelado. Natã sabia, Deus sabia, e Davi sabia que eles sabiam. E, por seu próprio julgamento, ele reconheceu sem dúvida que, sendo rei ou não, o que havia feito era errado — terrivelmente errado. Com humildade, ele reconheceu e confessou: “Pequei contra o Senhor” (2 Samuel 12:13).

A arrependimento constante

Essa confissão sincera e profunda foi ouvida pelo Senhor. Natã disse a ele: “Também o Senhor pôs de lado o teu pecado; não morrerás.” Assim, a salvação foi restaurada. Havia espaço na Expiação para Davi.

Mas as ações têm consequências, e as de Davi foram severas. Natã disse: “Agora, pois, não se apartará a espada jamais da tua casa,”, e de fato, Davi enfrentou guerras em seu reino e conflitos dentro de sua própria família pelo resto da vida.

Seus filhos se levantaram uns contra os outros. O bebê que Bate-Seba estava esperando viveu apenas sete dias, apesar do jejum e das orações de Davi. Sua vida não foi fácil, e ele não teve permissão de construir o templo.

Mas isso não tornou Davi amargo. O arrependimento constante o aproximou do Senhor, e, por meio dele, temos o legado dos salmos que ele escreveu, salmos de adoração, súplica, consolo, remorso e louvor.

Davi descreveu a agonia de contemplar seus pecados e como “molho meu leito com as minhas lágrimas” (Salmos 6:6).

No Salmo 32, ele confessou seu pecado e reconheceu sua responsabilidade, terminando com uma declaração da alegria do arrependimento: “Alegrai-vos no Senhor, e regozijai-vos, vós os justos; e cantai alegremente, todos vós que sois retos de coração.” (32:11).

No Salmo 51, vemos o processo do arrependimento quando ele suplica: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” (51:10).

E no Salmo 16, Davi declara essa percepção cheia de alegria: “(…) está alegre o meu coração se regozija a minha glória; também a minha carne repousará segura. Pois não deixarás a minha alma no inferno” (16:8–10).

Por meio dessas histórias aprendemos os verdadeiros passos do arrependimento:

  • Reconhecer a bondade, misericórdia e poder de Deus
  • Confessar os pecados, perante o Senhor e, quando necessário, diante de Seu representante
  • Experimentar uma mudança completa de coração, afastando-se do pecado
  • Renovar o relacionamento com Deus
  • Compartilhar a bondade de Deus com outras pessoas
  • Descobrir a alegria do arrependimento diário

Por favor, nunca pense, como eu pensei há tanto tempo, que não há esperança para você. Não há nada que você tenha feito que não possa ser corrigido pelo poder infinito da Expiação.

Na verdade, minha mãe e minha irmã tornaram-se plenamente ativas na Igreja pouco tempo depois daquele encontro decisivo com meu bispo. E alguns anos depois, minha mãe casou-se com um homem maravilhoso, no templo, onde nós quatro fomos selados para a eternidade.

A Expiação é infinita, sem limites, sem fim, assim como o amor de Cristo é infinito e irrestrito. O presidente Nelson prometeu:

“Se sentirem que se distanciaram muito ou por muito tempo do caminho do convênio e que não há um meio para retornarem, isso simplesmente não é verdade. Falem com seu bispo ou presidente de ramo. Ele é o agente do Senhor e vai ajudá-los a vivenciar a alegria e o alívio advindos do arrependimento.”

Arrepender-se é retornar, retornar ao lar celestial que nos espera de braços abertos, portas abertas e janelas abertas. Não há nada tão cheio de alegria quanto esse “toque de mãos” com o Senhor.

Fonte: Meridian Magazine

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