Vivemos em uma sociedade cada vez mais plural. Na escola, no trabalho, nas redes sociais e até dentro de nossas casas, pessoas de diferentes crenças convivem diariamente. Essa diversidade pode ser uma fonte de riqueza ou de conflito, dependendo de como enxergamos o outro: como um inimigo ou como um amigo.
Minha própria história reflete essa realidade. Nasci em um lar de diferentes tradições: minha mãe veio de uma família de membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, enquanto meu pai nasceu em um lar de tradição Católica Apostólica Romana.
Por amor à harmonia familiar, minha mãe escolheu que eu fosse criado na fé do meu pai, onde estudei profundamente e até me preparei em um seminário para me tornar um líder na Igreja. Portanto, a diversidade religiosa foi presente desde o início do meu cotidiano.
Um pioneiro em minha família e a resposta do Senhor
Um ponto de virada na minha jornada foi o meu avô materno. Ele foi o membro pioneiro da minha família em A Igreja de Jesus Cristo, e ajudou a estabelecer a Igreja em minha cidade natal, liderando um grupo de missionários na região. Quando ele veio morar conosco devido à idade, tivemos a oportunidade de muitas vezes estudar juntos sobre nossas crenças.
Apesar de sua convicção, nunca tentou me convencer ou impor sua fé. Nossas conversas eram abertas, respeitosas e cheias de amor. Falávamos sobre Deus, sobre a vida e sobre as diferenças entre religiões, sempre com o desejo sincero de compreender.
Foi esse ambiente de liberdade que me permitiu dialogar com diversas denominações, em minha busca pessoal, até receber do Senhor a resposta de que eu deveria seguir o caminho do Evangelho Restaurado, como meu avô um dia fez.
Essa experiência me ensinou que a liberdade religiosa é uma oportunidade de conhecer e respeitar a fé do próximo.

A liberdade religiosa nasce da boa convivência
Diferente do que muitos pensam, liberdade religiosa não é “cada um no seu quadrado”. O isolamento pode evitar o atrito, mas não constrói a paz. No filme “Joseph Smith – O Profeta da Restauração“, Joseph é questionado por alguém que não acreditava nele, e esse diálogo é bem interessante:
“Eu não acredito na sua religião, Sr. Smith, mas sou muito grata pela sua bondade.”
“Podemos dizer que essa é nossa religião, senhora” , respondeu Joseph.
Portanto, isso ilustra bem a origem da palavra religião, do latim religare, o qual sugere uma reconexão. Buscamos nos reconectar com Deus, mas não há como fazer isso sem nos reconectarmos uns aos outros. Como ensina Mosias 2:17 no Livro de Mórmon:
“Quando estais a serviço de vosso próximo, estais somente a serviço de vosso Deus”.
Nesse sentido, a liberdade religiosa é o que garante que reconheçamos a “Luz de Cristo”, a consciência que guia todo ser humano, ao brilhar em cada indivíduo, independentemente da denominação da qual faz parte.

O que nos une é maior do que o que nos separa
Quando deixamos o medo e a ignorância de lado, percebemos que as grandes tradições de fé compartilham frutos idênticos de bondade (Gálatas 5:22). Nos meus estudos finais da graduação, pude analisar como o diálogo inter-religioso é fundamental para uma esfera pública saudável, ou seja, para uma sociedade melhor.
Grande parte da discriminação religiosa nasce não da maldade, mas da ignorância e da insegurança que ela produz. O desconhecido pode gerar medo em nós. Por consequência, o medo pode gerar distância, e a distância pode alimentar preconceitos que dificilmente sobreviveriam ao convívio respeitoso.
Por outro lado, quando buscamos compreender, algo muda dentro de nós. As escrituras ensinam que Deus é a fonte de toda luz e verdade (João 1:9). Isso sugere que qualquer manifestação genuína de bondade, justiça ou compaixão reflete, em alguma medida, essa luz divina.
Tudo que é bom, é de Deus
O Livro de Mórmon reforça esse entendimento ao declarar que:
“Tudo o que impele à prática do bem e persuade a crer em Cristo é enviado pelo poder e dom de Cristo; por conseguinte podeis saber, com um conhecimento perfeito, que é de Deus.” (Morôni 7:16).
Portanto, o bem e nem Deus são monopólio de um grupo específico de pessoas. Quando reconhecemos o bem nos outros, não estamos relativizando nossa fé, estamos reconhecendo a atuação de Deus na vida de todos os Seus filhos.
O Presidente Russell M. Nelson frequentemente ensinava que somos literalmente irmãos e irmãs espirituais, filhos do mesmo Pai Celestial. Se isso é verdade, então o respeito e a empatia deixam de ser apenas valores sociais e tornam-se princípios espirituais para nossa irmandade humana.

Temos muito em comum
Se olharmos bem, veremos que nós e nossos irmãos das mais diferentes crenças compartilhamos mais coisas em comum do que diferentes. Veja aqui alguns breves exemplos:
- Outras denominações cristãs: fé em Jesus Cristo como Salvador, ordenanças como o batismo, oração pessoal e familiar e serviço missionário ou evangelístico.
- Islamismo: jejum regular (como o Ramadã), doações obrigatórias aos necessitados, oração diária estruturada e padrões de modéstia e disciplina espiritual.
- Judaísmo: forte ênfase na genealogia e na identidade familiar, memória dos antepassados, observância de leis religiosas no cotidiano e estudo contínuo das escrituras.
- Budismo: prática constante de autodomínio, busca pela transformação interior e cultivo da compaixão como caminho espiritual.
- Hinduísmo: devoção diária no lar, respeito profundo pelos pais e ancestrais e visão da vida como jornada de aperfeiçoamento espiritual.
- Umbanda e Candomblé: valorização da ancestralidade, senso comunitário forte, acolhimento espiritual e práticas de gratidão pelas bênçãos recebidas.
- Tradições indígenas: reverência pela criação divina (natureza), responsabilidade coletiva pela comunidade e transmissão espiritual entre gerações.
- Pessoas sem religião formal: compromisso com o bem comum, voluntariado, ética baseada na dignidade humana e desejo de deixar um legado positivo para a sociedade.
O Presidente Brigham Young foi categórico ao dizer que nossa religião abraça toda a verdade, onde quer que seja encontrada, seja com cristãos, judeus, muçulmanos ou pagãos. Portanto, defender o direito de um terreiro de matriz africana existir ou combater o antissemitismo, além de um dever civil, é uma obrigação aos membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Assim protegemos o arbítrio que o Pai Celestial deu a todos os Seus filhos.

Da teoria à prática: o exemplo vem de cima
A liberdade religiosa ganha vida quando se transforma em cooperação. A Igreja de Jesus Cristo tem investido anualmente mais de 1 bilhão de dólares em ajuda humanitária global, muitas vezes em parceria direta com organizações como a Muslim Aid, os Serviços de Socorro Católicos e a Cruz Vermelha.
Outro exemplo marcante, a nível pessoal, é a amizade entre o Presidente Russell M. Nelson e o Reverendo Amos C. Brown, da Igreja Batista. O pastor refere-se ao profeta como seu “irmão de outra mãe”. Essa comunhão mostra que não precisamos ser iguais para nos amarmos; nossas diferenças podem ser uma força se as usarmos para abençoar a humanidade.
Regionalmente, vejo isso acontecer na URI (Iniciativa das Religiões Unidas) em Curitiba. Participar de grupos assim me permite ser um “Filho do Convênio” sem ser excludente com meus irmãos de outra fé. É o que aprendi em meu trabalho final da graduação, a “tolerância como respeito” – ao reconhecer o outro como um igual, mesmo quando discordamos.

Construindo pontes, não muros
Ao olhar para o passado, vejo meu avô pioneiro. Ao olhar para o futuro, vejo a necessidade de sermos pioneiros no diálogo e na escuta. A Constituição Brasileira garante o livre exercício dos cultos (Art. 5º, VI), mas cabe a nós garantir o respeito no dia a dia.
Não somos um clube fechado. Somos discípulos de Aquele que parou para ouvir a mulher samaritana e curar o servo do centurião romano. Que possamos ver cada pessoa através do prisma da 11º Regra de Fé e 13ª Regra de Fé: buscando o que é virtuoso, amável e louvável em cada filho de Deus.
Porque, no fim, se não somos um, não somos Dele (D&C 38:27). Mas através do diálogo respeitoso podemos finalmente encontrar o caminho para a unidade em Cristo.
Veja também
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