Por muitas vezes, ao me deparar com o Velho Testamento, eu ficava me perguntando: “Nossa, que Deus amoroso é esse?” Algumas histórias pareciam duras demais e com consequências muito severas. Mas, com o tempo e com o estudo das escrituras, comecei a ver traços claros de um Pai amoroso e paciente. Passei a entender que muitas ações de Deus acontecem de acordo com as necessidades do Seu próprio povo. Ele é o mesmo ontem, hoje e sempre; contudo, Ele sabe como agir e como falar com cada geração. É exatamente aí que começamos a compreender Deus no Velho e no Novo testamento.
Essa dúvida não é incomum entre membros da Igreja e também entre leitores sinceros das escrituras. Talvez a pergunta central não seja se Deus mudou, mas se estamos lendo cada relato dentro de seu contexto espiritual e histórico. Quem sou eu para achar que sei mais do que o próprio Onisciente?

Deus no Velho Testamento: justiça com misericórdia
No Velho Testamento, vemos um povo que estava aprendendo, desde o início, a viver em convênio com Deus. Eram gerações saindo da idolatria e da escravidão comum ao mundo antigo. A Lei de Moisés, por exemplo, não foi criada para punir, mas para proteger, organizar e ensinar.
Quando lemos relatos de correção divina, como advertências ou consequências coletivas, é importante lembrar que Deus estava lidando com uma nação inteira, tentando preservá-la espiritualmente. Além disso, Ele é um Pai amoroso, mas também é justo.
Como Pai, podemos pensar na “obrigação” que Deus tem de corrigir Seus filhos. Em Hebreus 12, lemos:
“Porque o Senhor corrige ao que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho. Se suportais a correção, Deus vos trata como a filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija? […] Também, na verdade, tivemos nossos pais segundo a carne, para nos corrigir, e os reverenciamos; não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos, para vivermos?”
O que muitos chamam de “severidade” é, na verdade, um tipo de amor que corrige para salvar.
Neemias e Jeremias deixam claro que, mesmo em meio à disciplina, Deus se mostrava pronto para perdoar sempre que o povo se voltava a Ele. A justiça nunca vinha desacompanhada de oportunidades de arrependimento.

O mesmo Deus revelado de forma mais plena no Novo Testamento
Ao chegarmos ao Novo Testamento, encontramos Jesus Cristo ensinando sobre misericórdia, perdão e compaixão. Para alguns, isso pode parecer uma quebra com os ensinamentos do passado. Mas, na realidade, é mais uma revelação do mesmo Deus que sempre existiu.
Jesus curava, perdoava e acolhia, mas também chamava ao arrependimento. Ele falava de consequências espirituais, alertava contra a hipocrisia e ensinava que seguir a Deus exige mudança real de coração. Esses princípios não começam no Novo Testamento. Eles sempre estiveram ali.
Em Êxodo 15, aprendemos que Deus é a cura. Já em 2 Reis 20, aprendemos que o Senhor escuta nossas orações e enxerga a nossa dor; e através Dele podemos ser sarados. Talvez estivéssemos cegos para enxergar a misericórdia do Senhor, mesmo lendo inúmeros relatos que serviram como testemunho que Deus ama seu povo.

“Mas e quando…?”
Ao pensarmos nessas passagens bíblicas que testemunham a misericórdia de Deus, algumas pessoas podem trazer outras passagens para tentar provar a “crueldade” de Deus ou tentarem justificar os sentimentos de revolta que elas têm de Deus. No entanto, o próprio Senhor esclarece Suas intenções por meio dos profetas.
Em Ezequiel 33, Deus declara que não tem prazer na morte do ímpio, mas deseja que todos se convertam e vivam. Isso revela que os atos do Senhor nunca tiveram a destruição como objetivo final, mas sim o arrependimento e a preservação espiritual de Seu povo.
Jeremias, como citado anteriormente, também ajuda a corrigir a ideia de um Deus impulsivo ou circunstancial ao afirmar: “Porquanto com amor eterno te amei”. Esse amor não depende do comportamento momentâneo de Israel, mas do convênio que Ele estabeleceu com Seu povo.
Mesmo quando a correção foi necessária, ela nunca anulou o amor. Em Lamentações 3:22–23, lemos:
“As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos; porque as suas misericórdias não têm fim. Novas são cada manhã; grande é a tua fidelidade.”
Portanto, mesmo após grandes quedas, Deus sempre estará oferecendo esperança e recomeço.
Talvez o mais honesto seja reconhecer que nem sempre entenderemos tudo o que Deus fez — ou faz. Em Isaías 55:8–9, o próprio Senhor declara que Seus pensamentos não são os nossos pensamentos. Quem somos nós para questionar plenamente o Criador de todas as coisas? Ele conhece tudo e tem poder para decidir como cuidar e ensinar Seu povo em cada geração. Ainda assim, há uma promessa constante: os justos não precisam temer.

O que isso muda na nossa leitura das escrituras?
Quando passamos a enxergar Deus no Velho e no Novo testamento como o mesmo Pai amoroso, nossa leitura muda, pois podemos nos maravilhar ainda mais. Paramos de selecionar quais partes “combinam” com Deus e começamos a vê-Lo de forma completa: perfeitamente justo e perfeitamente misericordioso.
Como membros da Igreja de Jesus Cristo, sabemos que Deus continua revelando Sua vontade. Essa continuidade reforça uma verdade essencial: Deus não reage impulsivamente. Ele age com propósito, sempre visando a salvação de Seus filhos.
Se hoje algumas histórias do Velho Testamento nos desconcertam, talvez o convite seja o mesmo de sempre: olhar além da superfície e perguntar o que Deus estava tentando ensinar, não apenas àquele povo, mas também a nós.
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