Quando estudamos Êxodo e vemos todas as chances que o Senhor deu ao Faraó para se arrepender, libertar o povo de Israel e mesmo com tantas provas de fé ele continua a se recusar e a endurecer cada vez mais o seu coração, podemos julgá-lo e dizer: Como depois de tantas pragas e demonstrações do poder de Deus ele continuou a se recusar?
Sabe, não quero defendê-lo aqui, suas decisões foram cruéis e tiveram consequências devastadoras. Mas é importante entender o contexto em que ele estava inserido.
Tem até aquele filme de animação chamado de O Príncipe do Egito que narra a história e nele o Faraó é retratado como uma criança mimada e que também foi muito cobrado e sentiu até ciúmes de Moisés.
Claro que isso é só um filme e as escrituras não mostram isso no relacionamento deles. O Faraó não apenas governava o Egito; ele era considerado uma divindade. Desde o nascimento, foi ensinado que detinha poder absoluto, que os deuses estavam ao seu lado, ou até que ele próprio era um deus. Para ele, reconhecer o Deus de Israel não era apenas uma questão espiritual, mas também política, cultural e pessoal. Significava abrir mão de tudo aquilo que sustentava sua identidade.
Contudo, parece mais fácil justificar um Faraó por sua criação e cultura do que o povo israelita que sabia da promessa que o Senhor tinha feito a seus antepassados, viveu e viu milagres grandiosos na sua saída do Egito e mesmo assim endureceu o seu coração e na primeira oportunidade deixou sua fé para adorar um bezerro de ouro.
Os israelitas atuais
Hoje, nós somos o povo do Senhor que vive milagres diariamente, que se esforça para ler as escrituras e participar da igreja, mas será que também estamos nos perdendo e endurecendo nossos corações quando também passamos por adversidades?
Porque, se formos sinceros, o problema dos israelitas nunca foi falta de evidência. Eles viram o mar se abrir. Comeram maná que literalmente caía do céu. Foram guiados por uma nuvem de dia e uma coluna de fogo à noite. Ainda assim, esqueceram.
E talvez seja isso que torna a história deles tão desconfortável para nós. Porque não é só uma história de um livro de contos, ela funciona como um espelho para nós e enxergar a realidade pode doer profundamente.
E pode ser exatamente por isso que o Senhor insiste tanto em nos lembrar das experiências espirituais que já tivemos. O Élder Neil L. Andersen ensinou que essas experiências se tornam como “pedras luminosas” que iluminam nosso caminho nos momentos de escuridão. Ele disse:
“Quando as dificuldades pessoais, as dúvidas ou o desânimo escurecem nosso caminho, ou quando as condições do mundo que estão fora de nosso controle fazem-nos duvidar do futuro, as lembranças espirituais determinantes de nosso livro da vida são como pedras luminosas que ajudam a clarear o caminho adiante, assegurando-nos de que Deus nos conhece, que Ele nos ama e que mandou Seu Filho, Jesus Cristo, para nos ajudar a voltar para casa.”
Com isso podemos ver claramente que o problema nunca foi Deus parar de falar. Muitas vezes, o problema é que nós paramos de lembrar do que Ele já disse.
No mesmo discurso continua ensinando algo ainda mais interessante: quando enfrentamos dificuldades, o próprio Salvador pode trazer essas experiências de volta à nossa mente. Ou seja, Deus já nos preparou antes mesmo da prova chegar. Mas isso só funciona… se a gente não esquecer.

Como podemos fortalecer a nossa fé lembrando do Senhor
O Senhor nunca pediu que tivéssemos uma fé perfeita de um dia para o outro. Mas Ele constantemente nos convida a fazer algo muito mais simples e ao mesmo tempo muito mais exigente: lembrar.
Lembrar em meio à nossa correria do dia a dia pode ser algo complicado. Levar criança para a escola, concluir as tarefas do trabalho, servir na Igreja… O tempo hoje é artigo de luxo.
Mas o presidente Nelson nos lembra que nossa principal missão é nos prepararmos aqui nessa terra para voltarmos a presença do Senhor:
“Nossa principal missão na vida é nos prepararmos para encontrar nosso Criador. Fazemos isso ao nos esforçarmos diariamente para nos tornar mais semelhantes a nosso Salvador, Jesus Cristo. E conseguimos isso à medida que nos arrependemos diariamente e recebemos Sua purificação, Sua cura e Seu poder fortalecedor.”
Tendo isso como nossa principal meta, podemos nos lembrar com mais frequência que essa vida é passageira e qualquer que seja a tarefa que nos é dada aqui, com certeza é algo menor do que nossa eternidade com Deus.
Escolher lembrar do Senhor é uma forma de mostrar que estamos cumprindo o primeiro mandamento de amá-Lo acima de todas as coisas. E podemos fazer isso ao:
Orar, mesmo estando cansados; ler as escrituras, mesmo achando que já não precisamos mais de nenhum ensinamento; participar do Sacramento de forma espiritual o suficiente para que fique ao menos difícil segurar as lágrimas ao nos arrependermos e agradecermos por tudo o que foi feito por nós; frequentar o templo, mesmo no dia em que tudo parece dificultar que isso aconteça.
O Élder Jeffrey R. Holland, em seu discurso “O Primeiro Grande Mandamento”, disse:
“Amados irmãos e irmãs, não sei exatamente como será nossa experiência no Dia do Juízo, mas ficarei muito surpreso se em algum ponto da conversa, Deus não nos fizer exatamente a mesma pergunta que Cristo dirigiu a Pedro: “Você me amou?” Creio que Ele desejará saber se em nossa própria escolha muito humana, muito inadequada e às vezes infantil das coisas, ao menos compreendemos um mandamento, o primeiro e grande mandamento de todos: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento”. E se naquele momento pudermos dizer, gaguejantes: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”; então talvez Ele nos lembre que a principal característica do amor sempre foi a lealdade.”
Que possamos ser diferentes dos israelitas que frequentemente esqueciam todo amor dedicado do Senhor por eles e que mesmo imperfeitos e “gaguejantes”, como bem disse o Élder Holland, possamos falar de forma humilde que fomos leais e nos esforçamos para sempre lembrarmos Dele.
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