Jesus MariaEm Apocalipse 2:19 há uma expressão interessante, que me fez refletir em como Deus nos ama e demonstra um perfeito incentivo e otimismo por seus filhos. Lá é dito: “Eu conheço as tuas obras, e o teu amor, e o teu serviço, e a tua fé, e a tua paciência, e que as tuas últimas obras são mais do que as primeiras.” (Apocalipse 2:19)

O evangelho é para o aperfeiçoamento dos santos (Efésios 4:12), o que deduz que (1) não somos perfeitos e (2) o evangelho nos aperfeiçoa. Uma das máximas do evangelho poderia assim ser expressa: Se eu viver o evangelho hoje deverei ser melhor do que fui ontem, e amanhã deverei ser melhor que fui hoje.

A Igreja de Tiatira, que era a destinatária das palavras de João (auto de Apocalipse), foi elogiada por seu amor, serviço, fé, paciência e por ter avançado na retidão, progredindo nas obras da justiça. A graça lhes permitiu perseverar.

No evangelho não existe estagnação e aposentadoria [1]. Aqueles que são ociosos e preguiçosos, mornos e medíocres serão riscados, cortados e atirados fora (D&C 42:42, 75:29 107:100, Apocalipse 3:16; D&C 20:83). O plano de salvação exige trabalho para perfeição (GEE “Trabalho”) e cumprimento da lei. Embora alguns trabalhem mais que outros por terem oportunidade, dons e capacidades diversas, todos deverão trabalhar e fazer seu melhor de acordo com a lei e habilidade que receberam. Se a assim fizerem terão todos a mesma recompensa – serão aperfeiçoados e santificados, e no fim, desfrutarão da Vida Eterna (Mateus 20:1-16, D&C 84:33-35). Todavia, se esconderem seu talento e não magnificarem seus chamados não serão considerados dignos de permanecer (Mateus 25:14-30, Jacó 1:19, D&C 60:2).

Isso é muito bem explicado na Parábola dos Trabalhadores da Vinha (Mateus 20). Falando desta parábola, Elder Jeffrey R. Holland disse: “Essa parábola, como todas as parábolas, não trata realmente de trabalhadores ou de salários, assim como as outras não tratavam de ovelhas ou de bodes. É uma história sobre a bondade de Deus, Sua paciência, Seu perdão e a Expiação do Senhor Jesus Cristo. É uma história sobre generosidade e compaixão. É uma história sobre graça. Ela salienta o pensamento que ouvi há muitos anos de que, sem dúvida, a coisa que Deus mais aprecia no fato de ser Deus é a emoção de ser misericordioso, especialmente com os que não esperam misericórdia e que, com frequência, acham que não a merecem. (…) Por mais tardios que se imaginem, por mais chances que achem que perderam, por mais erros que sintam ter cometido ou talentos que achem que não têm, ou por mais longe do lar, da família e de Deus que achem que se afastaram, testifico-lhes que vocês não foram para além do alcance do amor divino. Não lhes é possível afundar tanto a ponto de não ver brilhar a infinita luz da Expiação de Cristo.” [2]

Gosto muito da lição extraída na história de Oliver Granger, um humilde servo de Deus do século IXX. Para ele, o Senhor disse: “quando ele cair, tornará a erguer-se, pois seu sacrifício ser-me-á mais sagrado que seu crescimento, diz o Senhor” (D&C 117:13). Em outras palavras, o esforço de Oliver seria mais precioso à vista de Deus do que o efetivo cumprimento da ordem, meta ou mandamento. Isso mostra o poder da graça do Salvador. Se tão somente fizermos o melhor possível – o nosso máximo – mesmo que seja pouco, comparado com o exigido, Ele completará, aperfeiçoara, santificará e exaltará nossa alma (2 Néfi 25:23).

É-nos exigido tão-somente fazermos melhor hoje em comparação ao que fizemos ontem, como os santos da antiga Igreja de Tiatira. Se as últimas obras forem melhor que as primeiras isso indicará avanço espiritual. O processo de santificação é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até o dia perfeito (Provérbios 4:18). De fato “aquele que recebe luz e persevera em Deus recebe mais luz; e essa luz se torna mais e mais brilhante, até o dia perfeito” (D&C 50:24). Esse processo gradual muitas vezes é lento [3]. Mas é real, e dia virá em que perceberemos isso.

A seguinte citação do Presidente Ezra Taft Benson esta em harmonia a esses ensinamentos: “(…) precisamos ter cuidado, ao procurar tornar-nos cada vez mais semelhantes a Deus para não desanimar e perder a esperança. Tornar-se como Cristo é trabalho para a vida toda, e muito frequentemente exige desenvolvimento e mudanças que são lentas e quase imperceptíveis. As escrituras registram exemplos notáveis de homens cuja vida se transformou radicalmente, como se fora num instante: Alma, o filho; Paulo, na estrada de Damasco; Enos, quando orou a noite inteira e o rei Lamôni. Esses magníficos exemplos do poder para mudar até mesmo pessoas mergulhadas no pecado, nos dão a confiança de que a Expiação pode alcançar até as pessoas mais desesperadas.

Precisamos ter cuidado ao discutir esses notáveis exemplos. Embora sejam reais e grandiosos, são a exceção e não a regra. Para cada Paulo, para cada Enos, para cada rei Lamôni, há centenas e milhares de pessoas que acham que o processo de arrependimento é muito mais sutil, muito mais imperceptível. Dia a dia elas se aproximam do Senhor sem perceber que estão edificando uma vida semelhante à de Deus. Elas levam uma vida silenciosa de bondade, serviço e compromisso. (…) Não devemos perder a esperança. A esperança é uma âncora para a alma do homem. Satanás gostaria de que atirássemos fora essa âncora. Então ele poderia trazer-nos desânimo e rendição. Mas não devemos perder a esperança. O Senhor Se agrada de todos os esforços diários que fazemos para nos tornar como Ele, por menores que pareçam. Embora percebamos que ainda temos um longo caminho a trilhar na estrada que conduz à perfeição, não podemos perder a esperança”. [4]

Concluo com as palavras de Elder Holland: “Não há nenhum problema que não possa ser vencido. Não há nenhum sonho que, no transcorrer do tempo e da eternidade, não possa ser realizado. Mesmo que sintam que estão perdidos e que são os últimos trabalhadores da undécima hora, o Senhor da vinha ainda lhes acena. “[Acheguem-se] com confiança ao trono da graça”e caiam aos pés do Santo de Israel. Venham e banqueteiem-se “sem dinheiro e sem preço” à mesa do Senhor.” [5]

Que a graça e misericórdia de Deus nos permita perseverar, fazendo com que nossas ações ou obras, sejam maiores e melhores a cada dia.

 

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NOTAS

[1] O Presidente Dieter F. Uchtdorf disse, em tom bom-humorado: “Agora, uma palavra para nós que somos mais experientes: a aposentadoria não faz parte do plano de felicidade do Senhor. Não há licença-prêmio nem programa de aposentadoria das responsabilidades do sacerdócio, seja qual for a idade ou a capacidade física. Embora a frase “já fiz isso” ou “já passei dessa fase” possa servir de desculpa para não termos que andar de skate, para recusar um convite para andar de motocicleta ou para dispensar a pimenta ardida no restaurante, não é uma desculpa aceitável para fugirmos da responsabilidade que assumimos por convênio: a de consagrar nosso tempo, nossos talentos e recursos a serviço do reino de Deus.

Pode haver aqueles que, após muitos anos de serviço na Igreja, acreditem ter direito a um período de descanso enquanto os outros carregam os fardos. Em termos bem claros e diretos, irmãos, esse tipo de pensamento não condiz com um discípulo de Cristo. Grande parte de nosso trabalho nesta Terra é perseverar até o fim, com alegria, todos os dias de nossa vida” (“Dois Princípios para quaisquer condições econômicas”, A Liahona, Novembro de 2009).

 

[2] “Os Trabalhadores da Vinha“, Conferência Geral Abril de 2012.

 

[3] Devo dizer que embora a santificação seja um processo (e processo significa uma ação ou operação continua de etapas, uma sucessão sistemática de mudanças graduais numa direção especifica), este pode ser considerado um evento. Por exemplo, Enos foi justificado e santificado no mesmo dia (Enos 1:4-18). Mas é bem verdade que esse processo começou quando seu pai Jacó lhe ensinou o evangelho dês da infância (Enos 1:1). O mesmo vale para Paulo e Alma. Embora suas conversões pareçam repentinas e extremamente rápidas, eles tiveram que demonstrar uma vida inteira de serviço e consagração. Por haverem triunfado sobre o mundo, vencendo todo tipo de dificuldade; e tendo eles nascido de Deus muitos outros nasceram, e viram olho a olho como eles viram (Alma 36:23-27).

O Manual Princípios do Evangelho em sua versão para militares explica: “[O] renascimento [espiritual] é um processo (…). Se você foi batizado e recebeu o dom Espírito Santo, com o convênio de tomar sobre si o nome de Jesus Cristo, você pode dizer que é nascido de novo ou que nasceu de novo. E pode renovar esse renascimento a cada Dia do Senhor quando partilha do sacramento” (pg.217).

Vemos isso no caso do povo do Rei Benjamim. Ele disse a seu povo que receberiam um novo nome, o nome de Cristo, por causa de sua retidão e desejo para o bem (Mosias 5:1-67, 11). O povo fez um convênio com Cristo, e seu rei lhes disse: “E agora, por causa do convênio que fizestes sereis chamados progênie de Cristo, porque eis que neste dia ele vos gerou espiritualmente; pois dizeis que vosso coração se transformou pela fé em seu nome; portanto nasceste dele e vos tornastes seus filhos e filhas” (Mosias 5:7, itálicos adicionados). “Neste dia” aparentemente reflete um evento muito curto em comparação ao que deveria ser um processo, especialmente um processo espiritual de santificação.

Não obstante é útil entender que o povo do Rei Benjamim após receber o nome de Cristo começou a nascer de novo. Isso fica muito claro quando se lê o capitulo por inteiro, pois ele diz: “Quisera que vos lembrásseis de conservarsempre o nome escrito em vosso coração” e “quisera que fôsseis firmes e inamovíveis, sobejando sempre em boas obras, para que Cristo, o Senhor Deus Onipotente, possaselar-vos como seus, a fim de que sejais levados ao céu” (Mosias 5:12, 15, itálicos adicionados). Havia algo mais a ser feito antes do nascimento estar completo, ou a santificação estar plena. O povo do rei Benjamim deveria demonstrar que mereciam o nome de Cristo com obras – sendo firmes e inamovíveis. Não apenas a justificação bastava para ser levado ao céu e “ter salvação sem fim e vida eterna”, mas também a santificação que se consuma com o selamento para exaltação (que é o chamado e eleição) (Moisés 6:59-60, GEE “Vocação e Eleição”).

O mesmo se dá com os ensinamentos de João, que também fala sobre o novo nascimento (I João). A primeira vista se supõem que ele esta falando de uma única ocasião em que repentinamente passamos a ser filhos de Deus (I João 3:6-10). Mas não é isso que João realmente diz. Ele escreveu: “se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós” (I João 1:8). Depois ensinou a confiar em Cristo (I João 2:1-6). Explicou então os requisitos para nascermos espiritualmente (I João 2:15-29, 3). É obvio que o alto padrão demonstrado por João, que é o de não cometer pecado e tornar-se filho de Cristo é um processo.

A resposta a possível pergunta da razão pela qual alguns filhos de Deus são mais rapidamente santificados do que outros, esta contida na doutrina do arbítrio. As escolhas pré-mortais, mortais e pós-mortais (escolhas feitas no mundo espiritual, e não após o Julgamento Final) apressam ou não a santificação.

Concluindo: o nascer de novo (ou ser santificado) não é um evento isolado, é um processo, que na maioria das vezes é demorado. Ele, contudo, pode ser rápido e eficaz de acordo com nossas escolhas e graça de Deus. Alguém que começou a nascer de novo pode dizer que já nasceu de Deus (como a citação do Manual Princípios do Evangelho demonstra), embora essa declaração não seja senão uma afirmação indicando um compromisso maior a ser consumado no futuro, pois a completude da santificação não se firma com um único evento.

Não há problema neste tipo de raciocínio, pois os antigos esperavam por Cristo como se ele já tivesse vindo (Jarom 1:11). De fato, é um ponto positivo considerar as coisas futuras “como se elas já tivessem acontecido” (Mosias 16:6). Em suma, quem foi batizado pode considerar-se uma nova criatura em Deus, um santo – alguém que tenha sido separado do mal e reservado para salvação.

 

[4] A Liahona, março de 1990, pg. 7

 

[5] Idem a Nota 2