Em João 4:24 aprendemos: “Deus é Espírito”. Entretanto, na primeira lição missionário aprendemos que Deus tem um corpo de carne e ossos. Em Doutrina e Convênios lemos:

“O Pai tem um corpo de carne e ossos tão tangível como o do homem; o Filho também; mas o Espírito Santo não tem um corpo de carne e ossos, mas é um personagem de Espírito. Se assim não fora, o Espírito Santo não poderia habitar em nós.” (D&C 130:22)

A doutrina da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias contradiz a Bíblia?

Evidentemente que não, até porque “cremos ser a bíblia a palavra de Deus” (Regra de Fé 8). Amamos e valorizamos a Bíblia. Entretanto, também sabemos que devido a traduções e cópias durante a Idade das Trevas, “foram suprimidas muitas coisas claras e preciosas do livro, que é o livro do Cordeiro de Deus” (1 Néfi 13:28). De fato, distorções e erros se perpetuaram. Só para citar apenas um exemplo (há muitos): sabemos que Deus não pode se arrepender (Números 23:19), pois não erra – é perfeito. Mas a Bíblia diz que Ele se arrependeu (Gênesis 6:6).

Então estaria João 4:24 errado, ou seja, com o versículo mal copiado ou mal traduzido?

Joseph Smith logo verificou ao traduzir o Livro de Mórmon e estudar a Bíblia que haviam erros na escritura antiga. O Senhor o ordenou a traduzir a Bíblia, ou seja, interpretá-la sob o espírito de profecia e revelação.

Na Tradução que fez deste versículo lemos:

“TJS Jo. 4:26 Pois a esses Deus prometeu o seu Espírito. E os que o adoram devem adorá-lo em espírito e em verdade.”

Essa tradução faz muito mais sentido, inclusive para o contexto da história de Jesus com a mulher Samaritana. Ela havia perguntado qual o lugar certo para adorarmos a Deus, pelo que Jesus respondeu que isso não importava, pois o Pai Celestial se importava pois os “verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem”.

E ainda: “Deus é Espírito” no mesmo sentido que nós somos espíritos. “Pois o homem é espírito. Os elementos são eternos, e espírito e elemento, inseparavelmente ligados, recebem a plenitude da alegria” (D&C 93:33). Somos espíritos revestidos de um corpo físico. Portanto, ter um corpo não exclui a parte da alma que nos dá vida: o espírito eterno.

Aliás, se Deus não tivesse um corpo físico toda doutrina da ressurreição e da relação do Pai e Filho, entre Deus e Cristo, estariam prejudicadas. Explicarei.

Cristo disse que não fazia nada sem ter o visto o Pai fazer:

“Eu lhes digo verdadeiramente que o Filho não pode fazer nada de si mesmo; só pode fazer o que vê o Pai fazer, porque o que o Pai faz o Filho também faz.” (João 5:19)

Em outra ocasião Cristo ensinou:

“Estou há tanto tempo convosco, e não me conheces, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai?” (João 14:9)

De tudo que podemos extrair desta pequena conversa, uma das mais evidentes verdades é que Cristo era semelhante ao Pai – tanto na aparência quanto no comportamento. “Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” (Colossenses 1:15) Quem o via, com seu corpo mortal, podia ter uma ideia do corpo imortal do Pai. Ainda que o Pai estivesse invisível para nós, neste estágio de testes.

Cristo também disse que o Pai era maior que Ele (João 14:28). A Bíblia indica que os espíritos estão sujeitos aos que possuem corpos, ou que os seres corpóreos possuem mais poder do que os espíritos (vide os milagres em que Cristo sujeita os espíritos imundos). Joseph Smith disse:

“Todos os seres com corpos possuem domínio sobre os que não os têm.” (citado por William Clayton, relatando um discurso não datado proferido por Joseph Smith em Nauvoo, Illinois; L. John Nuttall, “Extracts from William Clayton’s Private Book”, pp. 7–8, Diários de L. John Nuttall, 1857–1904, L. Tom Perry Special Collections, Universidade Brigham Young, Provo, Utah; cópia nos Arquivos da Igreja.)

Ora, se Cristo seguia o Pai perfeitamente, certamente estava desejoso de ter um corpo perfeito e glorificado, tal como o Pai. Ele, de fato, obteve esse corpo perfeito – sendo que muitos o testemunharam. Quando Maria viu (e ela foi a primeira mortal a ver) Cristo ressurreto, Ele disse que subiria para apresentar-se para o Pai (João 20:17).

Mais tarde, quando Estevão teve uma visão celestial, viu Deus, o Pai e Jesus Cristo – ambos com corpos glorificados:

“Eis que vejo os céus abertos, e o Filho do Homem, que está em pé à mão direita de Deus.” (Atos 7:56).

Isso foi depois da ascensão de Cristo.

Levando em consideração que um ser ressurreto não morre e não se desfaz de seu corpo perfeito (I Coríntios 15:53-54, Hebreus 9:27) – Cristo, precisamente mantinha seu corpo glorificado. E estava ao lado do Pai, de quem Ele mesmo testificou ser maior que Ele.

Mas para que não fiquemos apenas nas escrituras do passado, consideramos a singela experiência do jovem Joseph Smith, que ao orar viu os céus abertos:

“Quando a luz pousou sobre mim, vi dois Personagens cujo esplendor e glória desafiam qualquer descrição, pairando no ar, acima de mim. Um deles falou-me, chamando-me pelo nome, e disse, apontando para o outro: Este é Meu Filho Amado. Ouve-O!” (Joseph Smith história 1:17)

O fato de Deus ter um corpo é atestado em outras escrituras e doutrinas. Por exemplo: cada um de nós é um filho de Deus com potencial de receber tudo o que Deus possui – “E se nós somos filhos, somos, logo, herdeiros também, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo” (Romanos 8:17). As escrituras ensinam que Deus criou “o homem à sua imagem” (Gênesis 1:27; ver também Moisés 2:26–27; Abraão 4:26–27). Nosso destino é nos tornamos como o Pai, se formos valentes.

Assim, a passagem em João deve ser considerada em conjunto com outras escrituras. Deus é espírito, mas nem por isso deixa de ter um corpo – e Ele se importa com as coisas do Espírito, as coisas espirituais, e por isso prometeu Seu Espírito. Mas tal verdade não ignora o fato, comprovado pela revelação moderna e endossado pelas escrituras antigas – de que Deus tem um corpo perfeito, glorificado e separado do Filho.

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